Não somos grande coisa

O que somos não nos torna grande coisa mesmo depois de ensaiarmos as desculpas pelo que fazemos.

Ou somos monstros, ou somamos e comparamos arrepios sob o efeito da monstruosidade alheia, o que nos torna pequenos monstros, ou limitamo-nos à paciência de nos constituirmos como sentinelas impotentes à porta do nosso mundo contaminado onde a pandemia alastra e nos engole – o que faz de nós patéticos monstros sempre condenados.

Permitimos esta vergonha de sistema.

As alternativas a este sistema, aliás, são envergonhadas ou caóticas. Preferimos um quotidiano com muita falta de cultura, com novas gerações que consideram irreconhecível a estrutura da língua materna e a sua riqueza vocabular ancestral, que não contam pelos dedos por terem os dedos a absorver a radiação do telemóvel, perdão, do smartphones, do tablet, do portátil (na pré-história chamava-se computador) e baixamo-nos em vénias religiosas perante o grande altar dos mercados e do consume; uns têm o poder, nós o poder de compra que nos mostra de sorriso radiante à saída da loja do chinês, vejam este piaçaba, esta lanterna, esta mesinha, este clister a preços módicos…

Criámos uma confrangedora clausura – até a Madre Paula, freira e amante do rei João V de Portugal, saía mais da casca!

Tornámo-nos todos profissionais da inadequação. Se não fosse assim, continuaríamos saudavelmente amadores – amantes de alguma coisa, da vida por exemplo, essa sedutora matreira, prostituta capaz de dar tanto prazer, traidora tão capaz de sonegá-lo.

Devíamos ter no lugar do céu um lençol estendido que nos protegesse, assim como um abraço de certas mães, e nos levasse a acreditar que a Terra é um bom lugar, sem crispações.       Um lençol sempre lavado. Um lençol de sonhos feito das anaguas mais macias e com a maciez das peles que nelas se resguardam.

Deixemos as utopias.

O século XX foi o século da morte – nunca houve tantas guerras, catástrofes e massacres na história do mundo e nunca as ideologias sucumbiram de maneira tão intensa, fazendo acreditar que os excessos cometidos eram a sua essência, louca visão.

E se o século que nos antecedeu foi o da morte, o século XXI é um século de mortos. Não há cidade que se visite que não tenha os seus soldados desconhecidos aprisionados numa homenagem, que da guerra, da derrota e da chacina conserva apenas o ar da matéria em decomposição e a vergonha pública da pedra a consumir-se com a poluição e a indiferença de quem passa: todos nós, com os nossos crepes de luto, com as nossas friezas, com a nossas tatuagens na memória muito turisticamente ativos para não nos lembrarmos de nada.

O que somos não nos torna grande coisa.

Devíamos ser preparados para as derrotas e para os fracassos, com uma sólida altivez de humanos aptos. Quando mil correm numa maratona, só um ganha. Quando cem fazem um exame, a melhor nota será do mais lesto, quando dez se reúnem num ministério, milhões cá fora sofrerão as consequências das suas teimosias sem grande solidez mas decisivas; quando dois se amam um é a distopia do outro e nem sempre dão certo. É tão estúpido ver os ministérios da educação a obrigarem os professores a forjar o êxito, passem todos como se eles soubessem, se o que educam é nada e o que ensinam é apenas o que podem, pois quem não está educado não aprende, e a burocracia esmagou a pedagogia, e agora a escola é uma enfadonha folha de excel com professores que passam dez horas lá dentro, num esforço inglório e homicida. Alguns, ao saírem, fazem cem quilómetros para dizer em casa que estão vivos – e voltarem no dia seguinte ao ritmo da montagem, assim se fazem tijolos para a obra. Se quiserem conhecer os vossos filhos, tirem-lhes fotos. Está na moda. Mesmo se só os virem a dormir…

Quando alguém perde, deve saber perder.

É a consequência lógica do confronto, da dialética quotidiana. Quando alguém ganha, deve saber levar os derrotados consigo. Essa é a grande fórmula que opõe o direito do mais forte à saciedade, coisa que não faz sentido algum, à sabedora e ao rincão para cada qual. Em última análise, todos merecemos a terra que pisamos.

Esta prosa agastada insere-se na linha que percorro há muito, essa da filosofia do impuro, que em sentido estrito é um amor à sabedoria do que não é castrado, formatado, despigmentado, uniformizado, homofóbico, xenófobo, umbilical, fascista, em suma.

Somos impuros – é o único rigor. E o que somos não nos torna grande coisa. Leva-nos a correr para trás do ramo grosso, onde nos escondemos – por exemplo quando não votamos -, ou a espreitar com o ar do caçador que, armado, é sempre superior à presa. Podemos fazê-lo como aquele transtornado de Las Vegas, ou como os dois transtornados, o do cabelo ridículo que vive no Palácio do Sol de Kumsusan, ou o outro, o do cabelo ridículo, que vive na Casa Branca. Também podemos acreditar no ser humano e fugir do enquadramento. Por exemplo, como eu, com esta espécie de filosofia barata, a preocupar-me com o estudo das questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana; do conhecimento; da verdade, se é que existe em algum local; dos valores morais e estéticos, que alguns ainda devem perdurar; da mente; da linguagem, bem como do universo na sua totalidade. Alexandre Honrado

Frei Francisco Valésio

Fr. FRANCISCO VALESIO natural de Lisboa filho de Antonio Borges Valesio, e Luiza Franca Leal. No Convento patrio recebeo o habito de Carmelita calçado a 31. de Dezembro de 1709. Estudou Filosofia, e Theologia no Collegio de Coimbra em cuja Universidade foy admittido ao numero dos Doutores. He excellente latino, elegante Orador, e muito versado nas letras humanas. Recebendo em 23. de Janeiro de 1722. a borla doutoral em a faculdade Theologica Fr. Jozeph de Villas Boas Carmelita recitou em o seu aplauzo huma Oraçaõ Latina, que se imprimio no mesmo anno na Officina do Real Collegio das Artes, da qual como de seu Author fez mençaõ Fr. Manoel de Sá nas Memor. dos Escrit. Portug. da Ord. do Carm. pag. 175.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Padre Francisco Valente

P. FRANCISCO VALENTE natural de Lisboa donde deixando a casa de seus Pays Jorge Valente, e Anna Nunes recebeo quando contava quinze annos de idade em o Collegio de Evora a roupeta da Companhia de Jesus a 13. de Janeiro de 1594. Nesta sagrada palestra ensinou seis annos letras humanas, e nove as sciencias escholasticas com grande fruto dos seus discipulos, sendo igualmente douto na Jurisprudencia Cesarea, e Pontificia, como na Theologia Positiva, e Mystica. Depois de ser Revisor dos livros em Roma, foy Reytor dos Collegios de Angra, e Braga, e duas vezes Proposito da Casa de S. Roque onde passou a milhor vida a 23. de Novembro de 1662. com 83. annos de idade, e 68. De Religiaõ. Fuit vir zelo magno praeditus observantiae regularis, & Instituti Societatis egregie peritus diz delle a Bib. Societ. pag. 263. col. 1. Franco Ann. Glor. S. J. in Lusit. p. 701. Doctissimus fuit utriusque juris; et Annal. S. J. in Lusit. pag. 333. §. 12. Homo fuit antiquae sinceritatis sine doli umbra. e na Imag. da virtud. em o Nov. de Evor. pag. 865. Teve grande zelo da observancia religiosa. Joan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Litter. lit. F. n. 84. Compoz.

Concordia Juris Pontificii cum Caesareo, et cum Theologica ratione: de causis, & effectibus Divini, & Humani Juris in genere ad Titulos de summa Trinitate &c. De Constitutionibus, et XX. Distinctiones Decreti. Parisiis apud Sebastianum Cramoysi. 1654. fol.

De rebus Societatis JESUS. Tinha prompto para imprimir este volume como afirma o P. Antonio Franco Annal. S. I. in Lusit. pag. 333. §. 14.

Oratio de laudibus Sapientiae habita in Collegio Ulyssiponensi D. Antonii Magni. anno 1605. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Padre Francisco do Vale

P. FRANCISCO DO VALLE religioso da Companhia de Jesus traduzio da Lingua Castelhana do Padre Martinho de Roa da mesma Companhia, em a materna, e dedicou ao Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ que depois subio ao trono de Portugal.

Estado dos Bemaventurados no Ceo; dos meninos no Limbo; dos condenados  no inferno, e de todo este universo depois da Resurreiçaõ, Juizo Universal. Lisboa por Antonio Alvres. 1628. 12.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]