MATAR – pelo menos as saudades (dos centros comerciais)

Jean Baudrillard é um nome que a poucos dirá alguma coisa e a esses poucos só a vergonha de não saberem mais sobre a sua figura leva a admitir que sabem de quem se trata. Era um estudioso da cultura, essa coisa estranha que não passará, afinal, de um somatório de usos e costumes humanos, para usarmos uma ideia de Voltaire, usos e costumes nem sempre abonatórios daquilo que somos, nem da forma como agimos e sobretudo distante do que nos seria benéfico se sentíssemos bem e para o bem comum.

Jean Baudrillard era francês e a figura mais completa do chamado pós-modernismo europeu; filósofo, sociólogo, sem a popularidade de muitos e com o extraordinário atrativo de ser um não alinhado, agindo à margem de sistemas de convenções, peixe graúdo do pensamento capaz de, contra corrente, chegar ao seu destino sem parar em margens intelectuais que lhe pedissem cedências e banalidades.

Quando se oferece aos alunos a possibilidade de inclui-lo nas suas leituras, muitos fazem o que é apanágio da cultura atual: deixam para um dia de calendário desconhecido o esforço de conhecê-lo e leem, na melhor e mais otimista das hipóteses, um resumo sugerido pelo motor de busca, para depois o deitar ao esquecimento. Mas quem andou pela cidade de Lisboa com atenção ou foi à praia da Fonte da Telha, talvez se recorde de um francês entusiasmado e muito culto que tinha, perdoem o trocadilho, o culto de Portugal – embora Portugal passasse por ele sem saber quem era, de onde vinha, o que podia ganhar em conhecê-lo. Por falar em cultura, era um agricultor de palavras e ideias e semeava-as com um rigor de camponês em terreno próprio, embora fosse, repita-se, um marginal entre os alinhados, e isso, obviamente, ditou a sua impopularidade. Isso e não ter um sistema rígido para aprisionar o seu vastíssimo pensamento.

Alguns eleitos, por cá, conheciam-no de França, como o filósofo português José Gil que reconheceu Braudillard como espectador atento das suas intervenções no Collège Internationale de Philosophie, em Paris, nos anos 80. Outros conheciam-no do Bairro Alto (ele morava em Alfama) ou das margens do nosso imenso e libertador, formoso mar (parafraseando, ou melhor ainda, adaptando a frase de Pasolini).

Baudrillard que afirmou que a guerra do Golfo nunca existiu e que foi uma bem orquestrada encenação dos meios audiovisuais, teria muito a dizer desta pandemia nestes nossos anos 20 que vivemos com a ameaça invisível de um inimigo fatal e inexplicado. É que não havia tema que não o interessasse, da política mundial ao Big Brother. Infelizmente deixou-nos, em março de 2007. Defendeu uma tese que intitulou O Sistema dos Objectos, onde discorre sobre a sociedade de consumo.

Tudo o que fazemos incorpora um significado social e Baudrillard põe-nos a nu quando nos descreve na nossa relação com o consumo, com essa simbologia negativa da aquisição que justifica uma das saudades provocadas pelo confinamento: temos saudades das grandes superfícies e dos centros comerciais, como de  um parente que não abraçamos há alguns meses. Foi só por isto que Baudrillard me surgiu agora na memória, uma entre muitas, boas, recordações, evocando como se referia ao modelo universalista desses espaços (os mais dinâmicos centros culturais?) como a síntese de uma neo-cultura generalizada.

Somos movidos por lógicas imateriais e imaginárias. Temos até saudades daquilo que não podemos ter?

Baudrillard escreveu um livro com esse mesmo título – Sociedade de Consumo. E estamos lá todos, a ver as montras, idealizando vidas.

William James, o primeiro professor de psicologia dos Estados Unidos, disse que “o pensamento é o pensador”. Eu? Eu não digo mais nada. Alexandre Honrado

“O homoerotismo camoniano no Convite que fez a certos fidalgos em Goa”, por Márcia Arruda Franco

GRUPO DE INVESTIGAÇÃO POÉTICAS EM LÍNGUA PORTUGUESA (PLP)
SEMINÁRIO ONLINE
(No âmbito do projeto de investigação “Reescrever o séc. XVI”)

“O homoerotismo camoniano no Convite que fez a certos fidalgos em Goa”

Por Márcia Arruda Franco

DATA: 28/maio/2020, 15h-17h
DADOS DE ACESSO: O seminário decorre na plataforma zoom-colibri, sendo necessário inscrever-se antecipadamente através deste link: https://videoconf-colibri.zoom.us/meeting/register/tJIvf-Gvpj4qHtzno0-EbZ1CA77xOAtHQ0ZW

Após a inscrição, receberá um e-mail de confirmação contendo os dados de acesso.
Prazo para inscrição: 27 de maio, 12h.

Contacto: micaelar@ilch.uminho.pt / dircehum@ilch.uminho.pt

RESUMO:
A partir da revisitação do efeminado imperador Heliogabalo, é possível interpretar o banquete de trovas como um encontro homoerótico. Para tal é preciso entender o erotismo ao tempo de Camões e a sua desvinculação relativamente a categorias estanques da sexualidade correntes nas sociedades burguesas, onde se opõem heterossexualidade e homoerotismo. Nas sociedades de corte, a vivência da sexualidade seguia parâmetros menos rígidos, em que se admitia a bissexualidade. Estes serão os tópicos abordados neste seminário, no qual se apresentará ainda uma proposta de organização de uma Antologia homoerótica de Camões, a partir do romance Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço.

NOTA BIOGRÁFICA:
Marcia Arruda Franco fez pós-doutorado na Universidade de Lisboa (2001-2003), na UFRJ (2014) e agora (2020) na Sorbonne Nouvelle, Paris 3. Em agosto de 2003 tornou-se Professora Doutora da Universidade de São Paulo, onde defendeu tese de livre-docência em 2017. Tem atuado principalmente nos seguintes temas: Sá de Miranda, releitura, intertextualidade, Camões, Garcia de Orta, Renascimento português e modernidade, sobre os quais publicou livros de ensaios em Portugal, com apoio de agências de fomento do governo português, como a FCT, o CIEC e o IPLB. É membro colaborador do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos da Universidade de Coimbra (CIEC) desde 2005. Integra a equipe do projeto de excelência subsidiado pelo MINECO, Espanha, sediado no Departamento de Filologia portuguesa da Universidade de Salamanca, Biblioteca virtual de la épica burlesca portuguesa, com o projeto “O Reino da Estupidez na BBM: indagações a respeito de sua autoria e classificação como obra brasileira”. Coordena e integra a equipe USP do projeto “Iniciativas de Parceria Estratégica USP-UMINHO, Edital Conjunto de Apoio à Pesquisa”, AUCANI, com o projeto “Reescrever o século XVI” – Projeto multidisciplinar (Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, História Literária, História Cultural), ao lado de Micaela Ramon, Sérgio Sousa, Vagner Camilo e Carlos Mendes de Sousa. Integra a Equipe organizadora, desde a sua primeira edição na USP, em 2016, da série de edições do Colóquio Internacional Interlocuções Poéticas Brasil-Portugal, com Vagner Camilo (USP) e Maria Aparecida Ribeiro (CLP/FLUC).

21 de Maio — Através dos Livros #8: Júlio de Melo Fogaça (online)

Oitava sessão do espaço de discussão em torno de livros e autores, que o Instituto de História Contemporânea (IHC) organiza em parceria com o Núcleo dos Estudantes de História da NOVA FCSH.

Agora ONLINE!

O convidado da oitava sessão é Adelino Cunha, que apresentará o seu livro, Júlio de Melo Fogaça (Saída de Emergência, 2018). O comentário estará a cargo de João Madeira e a moderação será de José Neves, ambos do IHC. Os participantes poderão colocar questões através do chat no canal YouTube do IHC.

Sobre o ciclo:
Num momento em que os sistemas de avaliação universitários tendem cada vez mais a premiar o artigo em revistas especializadas, queremos com esta iniciativa sublinhar a importância do livro (e da monografia em particular) como veículo por excelência para a difusão do saber histórico e, também, para o debate de ideias.

Neste espaço de discussão, daremos prioridade a obras recentes que correspondam a investigações originais e/ou sínteses que se proponham a desafiar ou rever paradigmas vigentes.

Webinário de Português com 2 lançamentos | 23/5/2020, 17:30h (Espanha)

No dia 5 de maio, a Facultad de Filología da Universidad Complutense Madrid uniu-se à Asociación de Profesores de Lengua Portuguesa en España (APLEPES) na organização do Webinário de Português, inaugurado no dia 11 de abril de 2020. Esta iniciativa funciona como espaço para a apresentação de trabalhos elaborados por professores de Português em solidariedade com os colegas profissionais, ocupando um lugar de encontro e aprendizagem, de desafio e experimentação.

O próximo Webinário de Português terá lugar no dia 23 de maio, às 17:30h (Espanha), e será dedicado à conformação desta colaboração entre as duas instituições na sua organização, que apresentará a partir deste momento um programa mais diversificado, embora mantendo a realização de seminários, oficinas e demais, com caráter didático.

A sessão de Abertura será realizada pelo Prof. José Manuel Lucía Megías, Vice-decano de Biblioteca, Cultura e Relações Institucionais da Facultad de Filología da UCM, e pela Profª. Annabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, será a responsável de ministrar o webinário “Nos enlaces da Língua Portuguesa. Celebrando a LP: do webinário às edições digitais (Da língua Portuguesa vêm-se galáxias2020) e em papel (Teolinda Gersão: encenações2020)”. Nesta apresentação, a Porfª. Annabela Rita vai expor questões relevantes sobre Língua Portuguesa e Literatura, contidas nos seus respectivos livros.