António Jacinto de Araújo

ANTONIO JACINTO DE ARAUJO, Professor d’Escripta e Arithmetica em Lisboa, e membro correspondente da Academia Imperial de S. Petersburgo. – M. em 1797. Tinha reunido e coordenado um curioso gabinete de productos de historia natural, que por seu falecimento foi comprado aos herdeiros, e mandado incorporar no Museu Real, então estabelecido no paço da Ajuda. – E.

774) Arithmetica pratica e especulativa para uso dos principiantes que pretenderem frequentar as aulas de mathematica e commercio. Lisboa, 1788. 8.o gr. – Este tractado escripto sem rigor mathematico, falho de demonstrações, e limitado por assim dizer á practica das operações, era totalmente incapaz de preencher o fim que seu auctor levava em vista ao publical‑o. Assim acha‑se ha muitos annos completamente esquecido.

775) Nova Arte de Escrever, offerecida ao Principe Nosso Senhor para instrucção da mocidade. Lisboa, na Off. de Antonio Gomes 1794. 4.o max. de 25 pag. impressas ao largo, e acompanhada de 25 estampas gravadas a buril. – Tractando d’ella o insigne professor de calligraphia Joaquim José Ventura da Silva, finado ainda não ha muitos annos, diz o seguinte: «Esta Arte foi impropriamente intitulada por seu auctor Arte de Escripta ingleza; porque o caracter de letra que elle apresenta nos seus originaes nunca foi inglez, nem ao menos com elle se parece, nem com qualquer outro caracter definitivo de letra, como se vê da confrontação dos mesmos originaes com os que eu trago na minha Arte, ou com outros abertos em Inglaterra. Haja vista sobre tudo ás desusadas letras maisculas das estampas 10, 12, e 13. Do que se infere ser a sua letra de curiosidade inventativa, e não imitativa etc.»

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

António Isidoro dos Santos

ANTONIO ISIDORO DOS SANCTOS, Bacharel formado em Canones pela Univ. de Coimbra, e Professor de Rhetorica na mesma cidade; logar que depois trocou pelo de Bedel na propria Faculdade em que era formado. – N. na sobredita cidade em Janeiro de 1743, segundo diz o auctor da Coimbra Gloriosa, ms. que vi na Bibl. Nacional de Lisboa.

Se hei de dar credito á noticia que me deu o meu obsequioso amigo o sr. Manuel Bernardo Lopes Fernandes, fundada no que ouviu a Filippe Ferreira d’Araujo e Castro, que em 1794 tivera alguma convivencia com Antonio Isidoro e d’elle tomara algumas lições de lingua italiana, este Isidoro é o verdadeiro auctor da traducção da Arte Poetica de Horacio, attribuida por outros ao Dr. Cordovil, e que em 1781 se publicou em Coimbra sob o nome de D. Rita Clara Freire d’Andrade (V. este nome no Diccionario). O mesmo meu amigo me diz que a este Antonio Isidoro, poeta de má morte, fora dirigido um soneto anonymo, em que o motejavam e escarneciam com muita graça e propriedade. Como este soneto nunca se imprimiu, que eu saiba, aqui o apresentarei por diversão aos leitores, postoque não em tudo conforme á copia do sr. M. B. Lopes, por me parecerem preferiveis as variantes de outra que ha muitos annos possuo:

 

Fanfaruncias, farofias, bagatellas,

Galhardiferas naus, ondas lethargicas,

D’Apelletica mão pinturas targicas,

Trambolhões, altos couces, cambadellas:

Polvoreas bombardaticas panellas,

Cheiratificos prados, flores vargicas,

Vozes sexquipedaes, espalhdargicas

Cutellos, dardos, chuços, esparrellas.

Mirmidonicos póvos, Deus cambaio,

Daphnetico amante, auxilio imploro,

Pavilhão azulado, ignoto Maio:

Chóro, morro, canguei‑o, é desaforo!

Aqui firo, ali mato, acolá caio:

Os versos aqui tendes do Isidoro.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

António Isidoro da Nóbrega

ANTONIO ISIDORO DA NOBREGA, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Bacharel em Medicina pela Univ. de Coimbra, e Secretario da Sociedade Medico‑Lusitana, instituida no Porto, e que pouco tempo durou. N. a 22 de Janeiro de 1708, vivia ainda em 1759. – E.

771) Discurso Catholico no qual um christão velho, zeloso de nossa sancta fé, fala com os judeus, convencendo‑os dos erros em que vivem. Lisboa, na Off. Silviana 1738. 4.o de 86 pag.

772) Elogio funebre na sentida morte do Fidelissimo Rei o Senhor D. João V. Lisboa, por Domingos Gonçalves 1750. 4.o de 19 pag.

773) Oração funebre na morte do Doutor Alexandre de Sousa Torres Soutomaior, Medico da Camara d’Elrei nosso senhor. Ibi, pelo mesmo 1751. 4.o

Barbosa menciona mais algumas obras do auctor, que não julgo valham a pena de aqui as transcrever.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

Frei António dos Inocentes

FR. ANTONIO DOS INNOCENTES, Franciscano da Provincia dos Algarves, Theologo e Prégador. Foi natural de Evora, e nasceu, quanto eu posso julgar, não longe do anno 1570. Vê‑se que ainda vivia em 1631. – E.

767) Sermão nas exequias que a cidade de Portalegre… fez a ElRei D. Filippe II de Portugal em o mez de Maio de 1621. Lisboa, por Giraldo da Vinha 1621. 4.o de II‑12 folhas.

768) Sermão em a Sé da cidade de Lisboa na festa do martyr S. Vicente. Ibi, pelo mesmo 1623. 4.o

769) Sermão no Real Convento de Odivellas em o dia e festa de seu Padre o glorioso S. Bernardo. Ibi, pelo mesmo 1624. 4.º de 12 folhas.

770) Sermão da Expectação no seu dia, anno 1630, na Capella Real. Ibi, por Antonio Alvares 1631. 4.o

De todos estes sermões, cujos exemplares são raros, apenas possuo o primeiro e o terceiro. São escriptos em boa phrase, e não desmerecem entre os melhores que n’aquelle tempo se imprimiram.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

Há tanta ideia por pensar

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável

 

O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa teria de juntar-se para fazer algum sentido.          Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.     Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

Uma das doenças do nosso século é o Alzheimer, um dos tipos de Demência. As pessoas com Doença de Alzheimer tornam-se confusas e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmas quando colocadas frente a um espelho. Mas para que assim seja, não teremos de pensar o que é angústia (com ou sem enquadramento clínico) e construir em redor alguma coisa sólida, mesmo intangível, capaz de identificar o que nos perturba? Sem essa percepção, consciência ou pensamento, não há sequer lugar ao reconhecimento. Não se poderá falar de angústia. Não há corpo, nem espelho. Nem angústia. É a última etapa, um reduto, do vazio: o não pensar.

O nem sequer poder pensar-se que não se pensa, por opção.

Houve um tempo, não muito distante deste, o de agora, em que, pelo menos aparentemente, vivíamos rodeados de pensamento. Tínhamos connosco e citávamos ideólogos que sentíamos como nossos; nutríamos paixões, até insanas, quando nos cruzávamos com os filósofos. Enchíamos a boca nas tertúlias e referíamos, de um modo muito aceso, entre muitos outros, Platão, Nietzsche, Marx, Haeckel, Jaspers, Beauvoir, Arendt, Sartre, Deleuze ou Foucault como parentes muito próximos. Não seria talvez um tempo em que pensávamos muito; aceite-se com leveza que era apenas um tempo em que o pensamento nos rodeava, como o andorinhão o faz ao beiral em altura certa. Ele lá sabe que a primavera o acolherá e não tem calendário ou professor que lhe fale de fenomenologia, sabe lá ele o que é isso, aliás preocupante, dos fenómenos da consciência e coisas aderentes a essa, dominando, talvez paradoxalmente, a intuição pura. Alexandre Honrado