«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa»

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa»[1]

 

Como se pode ver, o semi-heterónimo pessoano BERNARDO SOARESsó aparentemente mostra aquela espécie de patriotismo nacionalista por aquilo que diga respeito à Língua Portuguesa. Nem, nestas palavras, o seu patriotismo se apresenta enquadrado por um perfil geográfico e político, antes por uma substantividade linguística. Dito de outro modo, a consciência a que Bernardo Soares se atribui da Língua Portuguesa é uma consciência da materialidade da língua. No mesmo texto, afirma ainda que, para ele, as palavras são «corpos tocáveis […], sensualidades incorporadas»[2]. Por esta ótica se poderá, então, afirmar que a Língua Portuguesa emerge na sua consciência de poeta como uma realidade espiritual, é certo, mas também como entidade física, ‘tocável’, “vista e ouvida”[3].

Assim, FERNANDO PESSOA, ou pela voz deste seu outro eu, ou ortonimamente, acabou, afinal, por participar num diálogo com o que de mais substancial a Lusofonia compreende. Obviamente que não se encontra presente nas suas reflexões a totalidade do que, hoje, é abrangido por esse termo e conceito. No entanto, o modo como o fez conduz-nos a uma conceção de Língua que acaba por acentuar o plano espiritual, essencialista, da Língua Portuguesa. É, no fundo, e em última análise, a este ponto que as posições evocadas nos permitem conduzir; por um lado, por aquilo que deixam imediatamente transparecer; por outro, pela forma como os diversos testemunhos de Fernando Pessoa contribuem, neste contexto, para a afirmação, e confirmação, de uma noção: a que germina no princípio de existência de uma comunidade traçada pelo diapasão da unidade.

É certo que a política da Língua Portuguesa não se desvirtuaria enquanto manifestação identitária se somente por ela fluísse a atuação dos órgãos estatais. Logicamente que cabe às entidades governamentais, aos Conselhos de Ministros, aos Comités de Concertação Permanente, aos Secretariados Executivos, etc. etc., um papel de extrema importância, pelas virtualidades representativas que lhes cabem. Todavia, o périplo da Língua Portuguesa no mundo tem que ser impresso por todos os seus falantes — sem que haja uma valorização excessivamente negativa daquilo que (num outro contexto) Almada Negreiros chamou «núcleos colectivos, espécie de mundos parciais para idênticos»[4]. É necessário, isso sim, que entre os falantes da Língua Portuguesa haja aquela «consciência da unidade espiritual» de que Almada também falava[5]. Só através dessa consciencialização nos podemos permitir construir, reforçar e fazer perdurar a nossa «mística colectiva»[6]. Só então estaremos muito perto de uma vivência próxima daquela que foi pedida por ANTÓNIO FERREIRA, na Carta a Pêro d’Andrade Caminha. Nessa conhecida carta (Carta III do Livro I), onde faz a defesa da Língua Portuguesa, António Ferreira exorta:

«Floreça, fale, cante, ouça-se e viva / A portuguesa língua»[7].

Não falar, não cantar a Língua Portuguesa traduzir-se-ia em atirar palavras ao vento… Não ouvir, não viver a Língua Portuguesa traduzir-se-ia em defraudar tudo aquilo que escreveram os agentes linguísticos, culturais e literários, de cuja Comunidade todos nós também somos tributários e fazemos parte. É por isso que, em primeira e última instâncias, considero admissível aquela possibilidade enunciada por FERNANDO PESSOA:

«Não podemos fazer da língua portuguesa o privilégio da humanidade. Podemos, porém, convertê-la em metade de tal privilégio»[8].

 

Dionísio Vila Maior [texto publicado originalmente no Facebook)

 

 

[1] PESSOA, Fernando (1986). Obras de Fernando Pessoa. Introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros. V.2. Porto: Lello & Irmão Editores, p. 573.

[2] Id.: 572.

[3] Id.: 573.

[4] NEGREIROS, José de Almada (1992). Obras Completas — Ensaios. Vol. V. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 100.

[5] Id.: 116.

[6] Id.: 117.

[7] FERREIRA, António (1973). Poemas Lusitanos. Notícia história e literária, seleção e anotações de F. Costa Marques. 2ª ed., Coimbra, Atlântida, p. 112.

[8] PESSOA, Fernando (1993). Pessoa Inédito. Coordenação de Teresa Rita Lopes. Lisboa, Livros Horizonte, p. 154.

Florbela Espanca

Maria Teresa Horta, “Florbela Espanca”, Tempo, 10 de Dezembro de 1987