A Ocupação é o mais recente romance de Julián Fuks, novo autor brasileiro a que convém estar  atento, publicado pela Companhia das Letras. É uma narrativa tão breve quanto fulgurante, onde até as páginas em branco, as pausas de respiração entre a leitura e a escrita, parecem representar o que fica por dizer. Cada palavra é pesada e cada frase um encadeamento perfeito de uma autoficção que vai desfiando em prosa poética a história de Sebastián, num momento crítico da sua vida, entre a morte do pai que se faz próxima e a sua própria paternidade.

O romance evoca a respiração narrativa de Mia Couto (que surge logo em epígrafe) na primeira frase: «Todo homem é a ruína de um homem, eu poderia ter pensado. Aquele homem que se apresentava aos meus olhos era a encarnação dessa máxima, um ser em estado precário, um corpo soterrado em seus próprios escombros.» (p. 13). Ou, mais à frente: «Era um menino novo demais para ser uma ruína de menino, para ser sua própria ruína.» (p. 14). A influência de Mia é aliás tão presente que o autor vai mesmo trazê-lo para dentro do romance. À parte a sua tragédia, Sebastián tenta dar voz aos outros, seguindo justamente o conselho do seu amigo escritor, vagueando por São Paulo rumo ao Hotel Cambridge, ruína agora ocupada por «moradores sem-tecto» (p. 120), cujas histórias recolhe e narra. Mas a história que mais destaque ocupa será a de Najati, o refugiado sírio.

Ainda que no início, o narrador na primeira pessoa consiga esconder-se sob a máscara de Sebastián, este alter-ego será progressivamente revelado, até ao momento-chave do diálogo entre filho e pai:

«Pai, eu vou ter um filho.

Que notícia linda, Julián. Obrigado por me dizer.

Obrigado a você, pai. Mas aqui você me chama de Sebastián.» (p. 90)

Após este episódio, é cada vez mais comum depararmo-nos com personagens que estão cientes de que aquele é o escritor que ocupa no Hotel «o quartinho do décimo quinto» (p. 95) e que tem por ocupação escrever a história dos outros.

Neste intenso exercício de reescrita da vida, onde é impossível saber onde esta termina para dar lugar à ficção, os vocábulos ruína, ocupação e resistência são recorrentes, revestindo-se a cada página de novo significado. Note-se, em jeito de conclusão, a dissertação do sírio, ao falar do Brasil como país errado para destino de fuga, por viver um «presente em ruínas» (p. 120), tão periclitante como o edifício em ruínas:

«Na ocupação eles insistem que formamos uma família, uma família de refugiados em terra própria ou estrangeira, e isso de início me pareceu estranho, disse Najati. Depois pensei que não poderia haver definição mais precisa. Sim, porque o mundo é feito de infinitos trânsitos, do movimento contínuo de seres. Como a minha, toda família tem, se recuarmos o bastante no tempo, uma infinidade de deslocamentos em sua génese. Toda a humanidade é feita desse movimento incessante, e só existe tal como a conhecemos graças a esses deslocamentos.» (p. 92) Paulo Serra

[texto publicado originalmente no caderno Cultura.Sul, edição de 20 de Agosto de 2020]