J. V. de Pina Martins, assim gostava de escrever o seu nome, nasceu em Penalva de Alva, a 18 de janeiro de 1920, e morreu em Lisboa, a 28 de abril de 2010. A sua vida foi uma formação continua em torno da língua e de livros, ambos nos seus diferentes e variados aspetos.. Filólogo de formação (Filologia Românica, Universidade de Coimbra) começou por ensinar língua e literatura portuguesa em «La Sapienza» (Università di Roma), onde foi leitor de 1948 a 1955. Paralelamente inscreveu-se como estudante de «Storia del Libro» em La Scuola vaticana di biblioteconomia.
Na Itália pós-guerra foram muitas as famílias que desmantelaram as bibliotecas e venderam os seus cimélios. Pina Martins que desenvolvia o «amor à beleza e à ciência» através do livro teve, assim, oportunidade de começar a formar uma biblioteca dedicada ao Humanismo e à Cultura Europeia dos séculos XIV a XVII. Se o seu primeiro amor começou por ser francês – Blaise Pascal, mais motivado pela filosofia e a teologia (espiritualidade e defesa do cristianismo jansenista), com uma dissertação de licenciatura Miséria e grandeza do Homem em Les pensées de Blaise Pascal – a sua passagem por Roma transformou-o em «um admirador, quase um companheiro fora do tempo, daquele tempo sem tempo que nós chamamos o Renascimento» (nas palavras de Eduardo Lourenço [1]) que aparece aprimorado no estudo Humanisme et Renaissance de l’Italie au Portugal. Les deux regards de Janus. Giovanni Pico della Mirandola e Sá de Miranda transformam-se nas duas faces, tal como um Janus, que viviam no pensamento intelectual de Pina Martins. A eles se juntavam depois, e só depois, Camões, Erasmo, Thomas More, João de Barros e tantos outros.
Usou pelo menos dois pseudónimos: Duarte de Montalegre (a partir de 1941) autor de uma meia dúzia de livros, entre ensaios e poesia; e Miguel Mark Hytlodey (2005), como autor da Utopia III (acerca desta obra ainda falta publicar a decifra de alguns nomes fictícios, mais pessoais).
De 1955 a 1962 exerceu funções de Leitor de Cultura Portuguesa na Universidade de Poitiers. Entre 1962 e 1972 foi «segundo assistente» da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; a esta Universidade voltou, em fim de carreira, como catedrático convidado (1983-1990), depois de se ter doutorado em Paris, em 19 de dezembro de 1974 (Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3).
Colaborou com a Biblioteca Nacional em diversas iniciativas, com destaque para a exposição comemorativa do 4º centenário de Os Lusíadas em 1972.
A Fundação Calouste Gulbenkian serviu-lhe de abrigo e lugar de trabalho, quer em Paris, como diretor do Centro Cultural Gulbenkian, quer em Lisboa, como diretor do Serviço de Educação. Passou pela Academia das Ciências de Lisboa (Académico desde 1985) de que foi presidente.
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Hoje apenas o queremos recordar – como ele gostava – rodeado pelos seus muitos maravilhosos livros com que, com gosto e amor, formou a sua “Biblioteca de Estudos Humanísticos de Lisboa”, lindamente instalada na Rua Marquês de Fronteira. Acerca de alguns livros dessa biblioteca escreveu o livro Histórias de Livros para a História do Livro, através do qual o leitor faz uma viagem a um submundo, por vezes de quase especulação, em torno do comércio – quer de compras, quer de vendas, quer de trocas – das raridades bibliográficas e do grande desconhecimento de alguns livreiros.
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João José Alves Dias