(título retirado do poema ”O medo” de Carlos Drummond de Andrade, in A Rosa do Povo).

 

Amanhã, o que irá acontecer se alguém deixar de ter medo?

O que irá acontecer ao mar, se o mar deixar de ter medo?

Há um número considerável de perspectivas, a partir das quais o medo e o tempo se conjugam.

O medo pode ser tomado como um dos lugares onde o tempo se produz, embora o movimento do medo nem sempre seja acompanhado de um tempo de enunciação directa desse medo.

Quando se atribui ao medo uma função formadora do tempo, é a ele medo que se atribui o dom inexplicável do exercício de dizer um tempo, de transmitir um tempo.

Nenhum medo, nem o tempo são determinados pelo princípio da unidade.

Medo e tempo são algo a realizar.

Quer se atribua ao medo uma realização distorcida ou dissimuladora, quer se entenda o medo como unificador de representações, o medo vive no atrito do tempo.

Ao esquecer o medo, muitos homens revelaram a negação de circunstâncias históricas.

Não há uma competência linguística para o medo.

Sempre a nascer, abstracta ou isoladamente, a ideia do medo não é redutível ao seu uso.

A prática literária, a retórica da objectividade e universalidade conferem uma aparência ao medo de resistência.

Resistências formalistas, esteticistas – nada disto é o medo.

A aptidão do medo é, à partida, sem aptidão.

O medo é feito em nome de algo que o veja reforçado, e, por conseguinte, aglutinador do cimento prevalecente nele mesmo.

No entanto, tal não implica o niilismo do medo.

É a sua consumação necessária e inflexibilidade que podem conduzir ao seu não universal niilismo.

Porém, ter medo, mais uma vez, não é isso.

O reconhecimento limitado de um medo não exclui outras manifestações de medrar medo.

Todas as descontinuidades do medo são as descontinuidades pelas quais o tempo pode recomeçar.

Nem sempre, porém, o medo é o adjuvante precioso do tempo.

Houve sempre, ao longo dos séculos, medos que associaram medo a heterotopias.

Rigorosamente, o ter medo não quer dizer nada; o medo só por si não afasta qualquer ilusão de presença – turva, obscura, imaterial.

O medo singular é o que, enganosamente, lhe atribui mais sentido, isto é, a relação que ele instaura e deslinda numa consciência que se procura, em particular.

Com a condição de nunca reduzirmos o sentido do medo ao sentido do tempo do medo, o original ou histórico preservará, aquém do nosso imo, os destinatários e destinadores do nosso medo.

Talvez nada exista, absolutamente, imune ao medo; à apropriação que o medo demarca, retirando estranheza, efemeridade ao desconhecido.

Mas há, como explica Michel Foucault, no prefácio à obra As Palavras e as Coisas, aquilo que mina secretamente, desencadeando uma dispersão infinita de não sentido incógnito, quebrando o emaranhado para a ruína. Ruína granítica –  gramática estéril para um medo lírico.

Por fim, da relação entre tempo e medo, só posso dizer, sem afirmação ou pergunta inicial, que o meu reconhecimento do medo veio sempre pela significância do ilimitadamente cálculo todo provável da separação da realidade.

O que me motivou o medo, veio sempre do desejo de amor.

Frágil – o intratável medo – é quase ausente no tempo que, por definição, o deve servir com um manto liso e alvo, votado a subtrair o medo à aliança da vida e da morte.

Sem desejo de nomear, aqui, a aliança entre o medo, a vida e a morte, estarei sempre numa realidade inerte a exceder esse encontro.

Não confio na realização plena de um medo em plenitude.

O pacto que o meu medo estabeleceu com a necessidade, a sua promessa, é ainda o que o medo recorta, sem fixar, no futuro.

É por ele – medo – que estou aqui perante a fragmentação do que continuo a interrogar depois de todas as interrogações.

Quase com esperança de almejar a reconstituir o meu maior “puzzle”, vulnerabilizo no tempo, sem acerto no meu menor “puzzle” do medo.

Talvez há muitos anos, tenha chamado verdade ao meu medo e, agora, à verdade chame tempo e ao tempo o domínio do seu enigma: ser força reactiva ao serviço de uma ordem, sem asfixia.

A salvaguarda da vida tem um ritmo, uma membrana. A pauta não pode ignorar o ritmo, a membrana. O músico, ignorando, ritmo e pauta e membrana, despenhar-se-á. Dirão: “Não teve medo”. Contudo, falhou.

Pois, como nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, no seu livro intitulado A Rosa do Povo: “refugiamo-nos no amor/este célebre sentimento,/e o amor faltou: chovia,/ventava, fazia frio em S. Paulo”.

Na cruz, Jesus (homem, semi-divindade) teve medo, perguntando:

“Pai, Pai, porque me abandonaste?”.

Por seu amor, por seu contágio, ja ternura o , por seu contonaste?”medo, perguntando:

á não esconjuro a ternura deste enunciado; a ternura das escamas, dos grifos, das oferendas das águas para melar cálidas medusas.

Só peço uma saliva onde possa fluir a minha discreta, flébil, feérica, sensação de medo, a fim que repousemos juntos (eu e medo), deitados solenemente, à beira de um e não do outro.

Nenhuma epistemologia poderá ser a nossa “ratio” (medo e eu).

A nossa “ratio” não é um baile recente. A nossa dança, com pregos nas sapatilhas, sangue no algodão, foi e será o nosso maior trabalho de uma Vida. Gilda Nunes Barata

 

 

[FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos – 10 a 20 de Outubro de 2019 (Tema: “O Tempo e o Medo”)]

 

 

  

BIBLIOGRAFIA

Andrade, Carlos Drummond de, “O medo”, in A Rosa do Povo, Lisboa, Companhia das Letras, 2017, pp. 29-31.

Dias, Carlos Amaral, e Ana Bravo, O Inferno Somos Nós, Lisboa, Quetzal Editores, 2002.

Dias, Carlos Amaral, e João Sousa Monteiro, “O tempo é uma coisa com que se mantém uma relação”, in Eu já Posso Imaginar que Faço, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, pp. 91-93.

Dias, Carlos Amaral, e João Sousa Monteiro, “Chevalier de Pas”, in Eu Já Posso Imaginar que Faço, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, pp. 125-129.

Eliot, T. S., “O enterro dos mortos”, in A Terra Devastada (introdução e tradução de Gualter Cunha), Lisboa, Relógio D´Água, 1999, pp. 20-23.

Foucault, Michel, “Prefácio”, in As Palavras e as Coisas – Uma Arqueologia das Ciências Humanas ( com textos introdutórios de Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira), Lisboa, Edições 70, pp. 53-63.

Matos, António Coimbra de, “No reino do maravilhoso: douro e amor”, in Relação de Qualidade, Lisboa, Climepsi Editores, 2011, pp. 299-308.

O´Neill, Alexandre, “O poema pouco original do medo”, in Poesias Completas e Dispersos (edição de Maria Antónia Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 2017, pp. 129-131.

O´Neill, Alexandre, “Perfilados do medo”, in Poesias Completas e Dispersos (edição de Maria Antónia Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 2017, p. 195.

Santos, João dos, “Tenho medo, não tenho força, não posso lutar, o meu pai está em Paris”, in Eu Agora Quero-me Ir Embora – Conversas com João Sousa Monteiro, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990, pp. 17-25.