Pedro Talésio, Arte de cantochão

António Fernandes, Arte de música

Os primeiros tratados de teoria musical em Portugal são ambos da autoria do espanhol Mateus de Aranda, que foi mestre de capela da Sé de Évora entre 1528 e 1544 e, em seguida, lente de música da Universidade de Coimbra até à sua morte, em 1549. Foram eles o Tractado de canto llano (1533) e o Tractado de canto mensurable (1535). Por sua vez, o primeiro tratado conhecido de autor português sobre esta temática foi a Introduttione facilissima, et novissima, di canto fermo, figurato, contraponto semplice, et in concerto (1553), de Vicente Lusitano. Os tratados de Aranda eram já de difícil acesso no início do século XVII, oito décadas após a sua publicação, e o de Lusitano, apesar do seu papel de relevo no debate sobre o sistema modal nos círculos especializados do circuito musical italiano do seu tempo, não parece ter tido especial circulação em Portugal.

Deste modo, os primeiros tratados teórico-musicais de autor português e editados no nosso país são a Arte de cantochão de Pedro Talésio (1618) e a Arte de música de António Fernandes (1626). Ambas as obras seguem o precedente de Aranda ao assumirem um propósito explícito de iniciação didática à teoria musical, destinando-se assim manifestamente aos alunos dos seminários e das escolas catedralícias, sem qualquer preocupação, ao contrário de Lusitano, de especulação teórica avançada. Assim se explica, designadamente, a ausência de referências ao debate que neste mesmo período se vinha travando entre os defensores da polifonia modal tradicional e os adeptos dos novos processos da monodia acompanhada ou da transição gradual para o sistema tonal.

Talésio, também ele lente de música da Universidade de Coimbra, explica as regras fundamentais da notação de cantochão e do sistema modal e a sua aplicação às situações mais correntes do repertório sacro monofónico. Fernandes, antigo discípulo de Duarte Lobo e mestre de capela da Igreja de S.ta Catarina, em Lisboa, dedica igualmente uma parte da sua obra a esta mesma temática, mas fá-la anteceder de uma exposição sobre o sistema de notação mensural da polifonia, dedicando especial atenção à problemática das proporções métricas. No seu conjunto, os dois manuais asseguram um suporte pedagógico eficaz e em português de toda a formação musical elementar em Portugal durante décadas, só vindo a ser suplantados décadas mais tarde pela Arte mínima de Manuel Nunes da Silva ( 1685). Durante este período, com exceção das obras de D. João IV e de João Álvares Frouvo, cuja edição foi viabilizada pelo patrocínio régio, não parece ter existido em Portugal um mercado editorial suficientemente amplo para justificar a publicação de obras teórico-musicais de natureza mais avançada, domínio em que o debate à escala nacional parece ter-se fundamentado sobretudo na circulação das obras de referência internacionais, sobretudo italianas e espanholas (Aaron, Gaffurio, Zarlino, Cerone, Salinas, Montanos).