Gil Vicente, Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro e Auto da Lusitânia

Primeira peça em 1502 (Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro), última em 1536 (Floresta de enganos), Gil Vicente (n. na década de 1460; m. segunda metade da década de 1530) é consensualmente considerado o pai do teatro moderno português, não no sentido de seu radical fundador, mas no de elevação das antigas representações religiosas e populares medievais a um patamar de sólida qualidade estética, fortemente inovadora face às conceções dramatúrgicas anteriores.

Centro do volume, com dois autos, Gil Vicente, considerado o pai do teatro português moderno, sintetiza, nas peças selecionadas, a totalidade da sua obra. Teatro de devoção, moralista, mas também de denúncia social, teatro popular representado na corte, ou teatro cortesão com personagens populares, teatro sério com elementos satíricos, ou teatro de natureza crítica, teatro firmado em tipos sociais, mas com labirintos de enredos psicológicos, teatro alegórico, porém dotado de personagens nomeadas individualmente, a obra de Gil Vicente opera um genuíno retrato condensado da sociedade portuguesa dos primeiros 30 a 40 anos do século XVI.

Todos na sua obra têm lugar: cortesãos e corregedores, escudeiros e sapateiros, damas nobres e regateiras, viúvas de marinheiro da Índia e alcoviteiras, meninas urbanas e de feira rural e meninas casadoiras, cavaleiros e judeus… E cada personagem não vive por si, mas segundo o seu lugar no todo da ação e do desfecho. É já teatro, de texto estruturado e ação organizada em função de um final dramatúrgico, dotado, em si, de fins estéticos, que se podem ou não confundir com fins religiosos. É teatro, não momo ou arremedilho medievais, não revivescência erudita do teatro greco-latino, mas uma forma de teatro muito singular que, culturalmente, emergirá com Gil Vicente e marcará definitivamente este género literário em Portugal, reflexo da mentalidade otimista manuelina, que Sá de Miranda criticará.

 

Henrique da Mota, Lamentação do Clérigo, Farsa do Alfaiate, Lamentação da Mula, Processo de Vasco Abul

Uma das vertentes matriciais do teatro português na primeira metade do século XVI encontra-se na participação de Henrique da Mota no Cancioneiro geral de Garcia de Resende, publicado em 1516.

Contemporâneo de Gil Vicente, mas estética e dramaturgicamente antecedente, Henrique da Mota opera a passagem entre formas de representação medieval (os «mistérios», os «momos», as farsas, as «moralidades») e o teatro moderno. Poeta, juiz dos órfãos em Óbidos, provavelmente nascido no Bombarral na década de 1470, terá morrido após 1545. As suas composições poéticas apresentam uma dialética tensional para-teatral, com encadeamento dramático em torno de personagens e os versos em forma de diálogo, como é o caso do Processo de Vasco Abul, Pranto do Clérigo – história do desaparecimento de uma pipa de vinho –, Lamentação da Mula e Farsa do Alfaiate, este último texto o que mais se aproxima da estrutura de uma peça de teatro. Com efeito, contendo indícios de representação teatral, estes textos não são ainda, ou não parecem ser, verdadeiramente, textos para teatro. Daí tanto a necessidade da sua problematização estética como de operar a sua comparação com a obra dos autores coevos.

 

Francisco Sá de Miranda, Os estrangeiros

No prólogo de Os estrangeiros, Sá de Miranda critica os autores que substituíram a designação de «comédia» por «auto». Com efeito, toda a obra dramatúrgica de Sá de Miranda vive em profundo contraste com a de Gil Vicente, que conquistara a corte com os seus autos de natureza popular. Sá de Miranda traz da sua viagem a Itália o gosto erudito e clássico da Europa culta, que lê e representa Plauto e Terêncio, não raro em latim, como o faziam os professores humanistas da Universidade de Coimbra. Gil Vicente vive inflamado por essa aura manuelina de conquista do mundo; Sá de Miranda convive com o melancólico D. João III – não era já o mesmo império, D. Manuel ergue-o, D. João III assiste ao declínio deste. Sá de Miranda é o poeta da acelerada dissolução de costumes sociais trazida pela riqueza quinhentista proveniente da «canela», dos «pardaus» (moeda corrente na Índia) e pela atração mirífica de «Cambraia» e «Narsinga». Os estrangeiros, primeira comédia greco-latina escrita em português, traz, assim, para a cultura portuguesa, o brilho do novo, acompanhando a nova poesia e o novo estilo do autor.

 

Afonso Álvares, Auto de santo António e Auto de Santiago

Afonso Álvares evidencia-se como o representante de uma corrente de hagiografia teatral, quase inexistente em Gil Vicente, que será praticada com alguma abundância por autores menores. Autos representados no convés das naus e caravelas, como o Auto de Santiago e o Auto de santo António, exprimem o registo social da crença do homem médio do século XVI, dividido entre o medo dos mundos descobertos, porventura habitados por monstros, a esperança de atingir uma prosperidade que, lutando, prometendo aos santos do Céu, não consegue alcançar, e a angústia de familiares presos entre a mourama. Teatro religioso dirigido a mentes devotas, por vezes supersticiosas, crédulas sobre o poder de um mundo de milagres e portentos que envolve o quotidiano do português.

 

Baltasar Dias, Tragédia do marquês de Mântua

Deste poeta madeirense, cego, pobre, vendedor de «folhas de cordel», Baltasar Dias, desconhecem-se as datas de nascimento e morte. Sabe-se, apenas, que em 1537 lhe foi concedido o privilégio real da impressão e venda em exclusividade da sua obra, o que pressupõe que as suas peças teriam sido vendidas anteriormente em contrafação. Da sua lavra, são conhecidas Obras da famosa história do príncipe Claudiano, Auto de santa Catarina, Auto de santo Aleixo, A tragédia do marquês de Mântua, Auto do nascimento, História da imperatriz Porcina, Conselhos para bem casar e Auto da malícia das mulheres.

Como sintetiza Alberto Figueira Gomes, o mais eminente estudioso da obra de Baltasar Dias, «as grandes figuras do seu teatro defendem […] que o objectivo da caminhada humana é saber ganhar o céu pela vereda dos espinhos» (Poesia e dramaturgia populares no século XVI – Baltasar Dias, Lisboa, ICALP, 1983, p. 49).

Perpetuação de temas vinculados aos romances medievais no coração do Renascimento humanista, a Tragédia do marquês de Mântua, bem como outras obras de Baltasar Dias, ressuscita em forma de teatro, no século XVI, a matriz medieval do maravilhoso ínsito nas lendas populares sobre a vida heroica dos cavaleiros e das damas. Neste caso, haverá verdadeira justiça quando o juiz é o pai e o réu, com prova evidente do seu ato maldoso, o filho? Auto encenado nas caravelas que demandavam a África, esta peça popularizou-se em São Tomé, integrando a sua cultura nacional.

 

António Ribeiro Chiado, Auto das regateiras

Frade franciscano nascido em Évora na década de 1520, faleceu em Lisboa em 1591. Abandonou a ordem religiosa, mas teria conservado o hábito castanho desta, vivendo na Lisboa cosmopolita dos Descobrimentos, que as suas peças simbolizam do ponto de vista popular, uma cidade ligeira nos costumes, boémia e, de certo modo, aventureira.

A vigorosa polémica entre António Ribeiro Chiado e Afonso Álvares, outro dramaturgo, deve-se justamente à conceção e à prática de dois tipos diferentes de teatro, já que este autor celebrava sobretudo peças de carácter hagiográfico, enquanto Chiado escrevia sobre costumes populares e práticas sociais por vezes não virtuosas.

Habitante e personagem famoso na Lisboa dos Descobrimentos (é citado por Luís de Camões no Auto de el-rei Seleuco e por Jorge Ferreira de Vasconcelos em Aulegrafia), Chiado é autor de Prática de oito figuras, Auto das regateiras, Prática dos compadres e Auto da natural invenção, bem como de Auto de Gonçalo Chumbão (perdido). São, sobretudo, «conversas» ou «práticas» encadeadas entre personagens que refletem a vida e o quotidiano populares, sem tipicismos sociais, enfatizando aspetos psicológicos. Como Cleonice Berardinelli e Ronaldo Menegaz enfatizam, «as personagens dos autos e práticas [de Chiado] são de classe média [urbana] mais ou menos baixa. Sua fala é predominantemente popular, com recurso a provérbios e expressões feitas…» (Teatro de António Ribeiro Chiado, Porto, Lello & Irmãos, 1949, p. 18).

Uma mãe ambiciona casar a filha; o filho de Pero Vaz é o candidato num casamento arranjado pelos pais. Entre a ambição e a realização, o Auto das Regateiras exibe a vida comum nos bairros populares de Lisboa, as criadas negras, as comadres, os interesses pessoais dos moradores, ora mesquinhos, ora dadivosos. Como tipos sociais, algumas personagens nem nome têm, são, alegoricamente, a Velha, a Negra, a Comadre, o Parvo… São, assim, habitados de vida e costume os autos do boémio ex-frade António Ribeiro, conhecido popularmente pelo «Chiado».

 

Luís de Camões, Filodemo

Filodemo, representado em Goa em 1555, desdobra-se, culturalmente falando, como toda a obra teatral de Luís de Camões, entre a tradição dos autos de Gil Vicente e a forma ou estrutura clássica das comédias de Sá de Miranda.  Neste sentido, Filodemo remete para a tradição vicentina (inclusivamente com uma personagem medievalizante como o Bobo), abordando contudo o tema clássico do amor segundo a forma (5 atos) clássica do teatro greco-latino.

 

António Ferreira, Castro

Nascido e falecido em Lisboa (1528-1569), António Ferreira sofreu a influência do humanismo europeu dos «mestres bordaleses» em Coimbra, cidade onde estudou e se licenciou em direito canónico, sobretudo do seu professor e amigo Diogo Teive (preso pela Inquisição). Neste sentido, até pela amizade com Sá de Miranda, a sua obra lírica reflete em grande medida a nova escola italiana e latina de poesia.

Uma tragédia, Castro, sobre a vida e a morte de Inês de Castro, e duas comédias, a Comédia de Fanchono ou de Bristo (1522) e a Comédia do Cioso (1552/56), ambas escritas em Coimbra, constituem a totalidade da sua obra dramatúrgica.

A Castro (5 atos, 8 personagens e coro) foi concebida segundo o modelo latino das tragédias de Séneca e é justamente considerada a primeira grande tragédia escrita em língua portuguesa, ainda que o tema dos amores de Pedro e Inês já tivesse sido inscrito poeticamente no Cancioneiro geral de Garcia de Resende.

Segundo a historiadora da literatura Maria da Nazaré Castro Soares, «a Castro […] apresenta o conflito entre o Amor e a Razão de Estado» (Teatro Clássico no Século XVI – a «Castro» de António Ferreira. Fontes. Originalidade, Coimbra, Almedina, 1996, p. 15). A razão de Estado, transposta para a peça, reflete politicamente o ambiente cortesão do reinado de D. João III, ora por via de reflexões laterais, ora centrais, como as referentes «ao problema da liberdade individual e suas limitações no espaço social e político, a diversidade de interpretações que o homem dá dos erros e da justiça, a temática do bom rei e do tirano…» (pp. 15/16).

O nosso grande dramaturgo humanista, António Ferreira é, em conjunto com Sá de Miranda, o autor que, não deixando de privilegiar a doutrina cristã, fundamento religioso da nacionalidade, valoriza igualmente o conjunto de valores e virtudes morais e estéticos legados pela Antiguidade greco-romana.

 

Jorge Ferreira de Vasconcelos, Comédia Ulysippo

Profundamente humanista, Jorge Ferreira de Vasconcelos, em Comédia Ulysippo, coloca nas mãos do amor e da moralidade (inclusive nos valores morais religiosos) a salvação de Lisboa, enriquecida pelos Descobrimentos e habitada por uma burguesia interesseira, uma aristocracia cortesã e uma população pobre ávida de ascensão social desprezadora dos valores humanistas e culturais.

 

António Prestes, Auto dos dois irmãos

Perdido o ideal cavaleiresco do Oriente, os autos de António Prestes, continuador do teatro de Gil Vicente, retratam a nova burguesia pós-imperial, aclimatada pelas riquezas do império, usando de uma linguagem menos popular mas também menos medievalizante. O embrutecimento das personagens representativas desta burguesia da segunda metade do século XVI não lhes permite enfatizar temas como o amor, nem usar de lirismo nos seus sonhos e ambições, vertentes italianizantes do teatro e da poesia, como o autor evidencia no prólogo do Auto dos dois irmãos.