Francisco de Holanda, Da fábrica que falece à cidade de Lisboa

Francisco de Holanda (1517-1584), filho do iluminador António de Holanda, passou quase toda a sua vida ligado ao ambiente de corte e, nesse contexto, terá tido uma educação humanista e desenvolvido o interesse pela Antiguidade Clássica. Esteve em Itália entre 1538 e 1540, enviado por D. João III para completar a sua educação artística, o que lhe permitiu não só contactar diretamente com as «antigualhas» romanas, mas também com diversos artistas de primeiro plano. Quando regressou a Portugal, passou a integrar a casa de D. João III, reforçando assim a sua privilegiada situação de artista de corte.  Desenvolveu uma prática artística variada e foi também um teórico. Embora a sua prática arquitetónica seja ainda hoje alvo de controvérsia, é ele próprio que diz ter desempenhado o ofício de arquiteto na época de D. João III, em cuja corte terá sido, pelo menos, conselheiro para a renovação de Lisboa nos domínios do urbanismo, da arquitetura e da fortificação.

É da reflexão que Francisco de Holanda realiza nesse período que resulta, anos mais tarde, a primeira proposta teórica para a renovação de Lisboa — Da fábrica que falece à cidade de lisboa — escrita em 1571 e dedicada a D. Sebastião.  Apesar de a impressão estar autorizada desde 1576, só em 1879 teve uma primeira edição, promovida por Joaquim de Vasconcelos. Depois houve pelo menos mais três edições: de Alberto Cortez/Virgílio Correia, em 1929; a edição monumental de Jorge Segurado, em 1970, que inclui uma reprodução completa da obra em fac-símile e em tamanho natural; e a edição mais prática preparada por José da Felicidade Alves (1984) no âmbito da publicação da obra completa de Francisco de Holanda pela editora Livros Horizonte. O original encontra-se na Biblioteca da Ajuda. Há uma cópia manuscrita na Academia das Ciência de Lisboa.

 

António Rodrigues, Tratado de arquitetura

De António Rodrigues pouco se sabia além das linhas que lhe dedica Sousa Viterbo no seu Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e construtores portugueses. Mas dessas linhas fica-se a saber que foi «cavaleiro fidalgo da casa de el-rei» e, desde 1565, «mestre das obras reais», portanto detentor do cargo mais importante que um arquiteto podia então almejar. Terá morrido em 1590, ou pouco antes, porque nesse ano era nomeado para o mesmo cargo Filipe Terzi. Depois da tese de Mestrado em história de arte de Rafael Moreira (1982) e do livro de divulgação de Domingos Tavares (2007), já se pode acrescentar que terá nascido nos anos vinte do século XVI, que, cerca de 20 anos depois, era interlocutor privilegiado de D. João III para o acompanhamento dos trabalhos do Convento de Cristo e que, na década de 1550, terá passado cerca de quatro anos em Itália. Mas é a sua colaboração na «Aula Particular dos Moços Fidalgos», criada em 1562 para acompanhar a educação de D. Sebastião e do seu círculo de jovens fidalgos cortesãos, que vai dar origem ao que pode ser considerado o primeiro tratado português de arquitetura.

Em 1573, António Rodrigues é chamado a leccionar na «Aula» as matérias relacionadas com a geometria aplicada ao desenho arquitetónico e perspetiva. Dos elementos de preparação para as suas lições nasce o manuscrito de 1576, guardado na Biblioteca Nacional. O manuscrito da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de 1579, mais uniforme, corresponderá a uma versão de parte do primeiro já preparada para publicação. É ao conjunto dos dois que Rafael Moreira chama Um tratado português de arquitectura do século XVI (tese policopiada). Este «tratado» nunca foi publicado.

 

José Manuel Carvalho e Negreiros, Jornada pelo Tejo

José Manuel de Carvalho Negreiros (1752-1815) era filho de Eugénio dos Santos (1711-1760), o principal responsável pelo desenho da Lisboa pombalina, e neto materno de Manuel da Costa Negreiros (1702-1750), um dos mais notáveis arquitetos/engenheiros militares portugueses do tempo de D. João V. Como complemento da sua educação, viajou pela Europa vários anos demorando-se sobretudo em França e em Itália. Regressado em 1776, foi admitido como arquiteto do Senado da Câmara de Lisboa. Em 1788, tornou-se segundo arquiteto dos Paços Reais e, em 1805, passou a primeiro arquiteto das Obras dos Paços e do Mosteiro da Batalha. De entre os seus escritos destaca-se pela extensão e pela importância a Jornada pelo Tejo – Dividida em doze dias, em cada um dos quais se tratam diversas matérias concernentes à arquitetura civil e seus pertences, elaborada em 1792-93.

Trata-se da primeira teoria arquitetónica e urbanística, escrita em português, informada pelo iluminismo e enciclopedismo europeus, claramente propositiva e pretendendo abranger um espectro disciplinar alargado e que nunca foi publicada. A obra, escrita e desenhada, de Carvalho Negreiros encontra-se dispersa pela Biblioteca da Ajuda, pela Biblioteca Nacional, pela Academia Nacional de Belas Artes e pelo Museu Nacional de Arte Antiga, mas para a presente edição interessa principalmente o manuscrito da Biblioteca da Ajuda, eventualmente cotejado e complementado com elementos parciais de exemplares de outras bibliotecas.