Horto do Esposo

A proporcionar um vívido panorama da espiritualidade em que se forjara o carácter do infante, propõe-se o chamado Horto do Esposo, escrito entre 1383 e 1417. Coube a Mário Martins o mérito de desmontar a «lenda literária» da tradução deste que foi, na realidade, o nosso protótipo em vernáculo de tratado de espiritualidade. Inscrevendo-se ainda no género da recolha e compilação de exempla em função parenética, na sua ambiguidade ou transição entre manual de oratória sagrada e leitura espiritual individual, o autor, anónimo alcobacence contemporâneo de Fernão Lopes (c. 1380- c. 1460), marca um momento fundacional da literatura portuguesa.

 

Vida do infante D. Fernando

A Vida do infante D. Fernando, de seu título completo, Tratado da vida e feitos do muito virtuoso senhor infante D. Fernando, foi redigido por frei João Álvares (séc. XV-c. 1490), seu secretário, que testemunhou presencialmente todos os factos narrados e com ele partilhou o cativeiro em Fez. Esta crónica biográfica do Infante Santo foi encomendada pelo Infante D. Henrique, protetor de frei João Álvares após o resgate deste. A obra relata a vida e os feitos do Infante Santo, exalta as qualidades morais e as virtudes do biografado e narra a expedição a Tânger, bem como os eventos que se lhe seguiram. Lido a par do seu congénere latino, Martytium et gesta, representa os primeiros passos de uma literatura hagiográfica em vernáculo e de raiz inteiramente portuguesa.

 

João de Barros, Ropicapnefma         

Intitulada com «desconchavado» neohelenismo, fruto de uma «pouco auspiciosa incursão do autor no domínio dos compostos gregos», a Ropicapnefma (1532) do novelista, gramático, pedagogo e moralista, João de Barros (c. 1490-1570), que é mais conhecido por ser o historiador das Décadas da Ásia, cujas fontes possuía na Casa da Índia, de que foi tesoureiro e feitor (assim como foi tesoureiro das casas da Mina e Ceuta), esperou mais de quatro séculos por uma edição moderna (1952-1955), quando, segundo Marcel Bataillon, é «o mais original texto de prosa filosófica impresso em Portugal no séc. XVI». A representação alegórica das virtudes morais em árvore inspira-se na apresentação triádica de Aristóteles, na sua Ética a Eudemo, reduzindo o escritor português as 14 virtudes a 12, sem seguir a mesma ordem. Em colóquio de acentos erasmianos dialogado pela Vontade, Entendimento, Tempo e Razão, esta última examina a mercadoria espiritual ou vícios daqueles, em trânsito para a Morte. Se a ortodoxa Razão conclui pela imortalidade da alma (negada pelo averroísmo paduano) e prémios e castigos no Além, a crítica social e linguagem mordaz próximas de um certo Gil Vicente podem explicar a inclusão desta obra no Index de 1581. Seguimos a edição fac-similada da Biblioteca Nacional de Portugal (1981), que reproduz a editio princeps.

 

João de Barros, Espelho de Casados

O Espelho de Casados, do homónimo João de Barros (1522 – 1553) – jurista e «cidadão da Cidade do Porto», que não deve ser confundido com o seu contemporâneo. O João de Barros portuense publicou em 1540 um livrinho intitulado Espelho de casados em o qual se disputa copiosamente quão excelente proveitoso e necessário seja o casamento e se metem muitas sentenças, avisos e doutrinas e dúvidas necessárias e finalmente os requisitos que há de ter o casamento para ser em perfeição e serviço de Deus. Este Espelho de casados reproduz amiúde textos estrangeiros, mas não deixa de ser obra pioneira no nosso país uma vez que integra dados originais, tanto nas conceções como nas práticas. Foi a primeira vez que em português se produziu um discurso sobre o casamento, as funções de marido e mulher e o seu relacionamento. O interesse do livro reside também na data em que surgiu, quando se conheciam os debates de humanistas católicos e protestantes sobre o casamento e estando ainda por erigir o dogmatismo católico pós-tridentino. Registe-se, por fim, que terá sido a primeira obra a ser impressa no Porto.