João de Barros, Crónica do imperador Clarimundo

A Crónica do imperador Clarimundo é, plausivelmente, o primeiro romance de cavalaria escrito em língua portuguesa e um dos primeiros livros de temática profana impressos em Portugal.

O seu autor, João de Barros, redigiu-o quando era ainda um jovem fidalgo da corte de D. Manuel I. Apresentada ao rei em 1520, a «crónica» ter-lhe-á agradado a ponto de não só se encarregar das custas de impressão do livro, como também de vir a atribuir a João de Barros a honrosa incumbência de compilar os feitos dos portugueses na Ásia. Com efeito, no prólogo das suas Décadas da Ásia, Barros apresenta a Crónica do imperador Clarimundo como um «debuxo» realizado com o intuito de «aparar o estilo» para uma obra maior. Todavia, os nexos entre Clarimundo e as Décadas da Ásia não se limitam à pena ou ao estilo do seu autor: eles reportam-se também à ideologia imperialista formulada na corte de D. Manuel.

Barros apresenta a sua Crónica do imperador Clarimundo como uma tradução adaptada de parte de uma suposta crónica húngara em que se demonstraria que a primeira dinastia portuguesa entroncava nas realeza do leste da Europa, aquela mesma linhagem de príncipes que durante o século XV se vinha dedicando à cruzada contra o Turco. Ao longo dos mais de 100 capítulos, em que assistimos às aventuras de Clarimundo narradas ao estilo de Amadis de Gaula, Barros dispõe, de forma calculada, um discurso que excede a narrativa de cavalaria, convergindo com o ideário providencialista e de cruzada que fermentava então na corte manuelina.

Para além do comprometimento de Barros com o ideário político-religioso do seu tempo e dos artifícios narrativos que desenvolve em seu serviço, Clarimundo é também um monumento da língua e da cultura portuguesas do seu tempo. Sob a máscara formal do quotidiano medieval e cavaleiresco em que decorre a ficção, não é estranho encontrarmos léxico ou parágrafos inteiros que evocam a navegação, o comércio, o conhecimento de terras além-mar ou a evangelização.

A versão que apresentamos é a primeira edição contemporânea realizada a partir da editio princeps de 1522.

 

Bernardim Ribeiro, Menina e Moça

Completaremos o vol. 10 com a célebre Menina e Moça. Esta novela sentimental – a primeira, na literatura portuguesa – apresenta um recorte literário que supera a larga tradição do género, que vigorou em Espanha desde o século XV. Em português, surge pela pena de Bernardim Ribeiro (c. 1490 – c. 1542), um autor cuja biografia, ainda hoje, se encontra imersa na mais desconcertante incerteza, apesar das muitas, mas incongruentes, especulações de Teófilo Braga, Carolina Michaëlis ou Teixeira Rego. Sabe-se que nasceu na vila de Torrão, no Alentejo, e que terá sido amigo de Sá de Miranda, outro dos grandes nomes da literatura portuguesa de que muito se ignora. Também com Sá de Miranda terá colaborado no Cancioneiro Geral compilado por Garcia de Resende (Lisboa 1516), tendo sido poeta da corte de D. Manuel I e de D. João III, de quem poderá ter sido ainda “escrivão da Câmara”. Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, foi pela primeira vez impressa em 1554, em Ferrara, com o título História de Menina e Moça. Esta editio princeps só foi redescoberta no final do séc. XIX, sendo decisiva para reconfigurar o original manuscrito desaparecido. De todos os manuscritos hoje conhecidos, nenhum deles é autógrafo, sendo o mais antigo o que hoje existe na Biblioteca Nacional de Lisboa, mas que não coincide em absoluto com o que terá estado na base da edição de Ferrara. Tratando-se de uma novela sentimental, nela convergem também elementos dos códigos cavaleiresco e pastoril, todos eles reforçando, no seu conjunto, o trajeto e a filosofia próprias da novela sentimental, em que amor e amador se apresentam sob fisionomia muito própria. A obra estrutura-se em três histórias, precedidas de preâmbulo, sendo a última delas subitamente interrompida, anunciando as palavras que um cavaleiro dissera ao pai da rapariga indefesa que contava a sua história. Mesmo assim, sem que a continuação fosse até hoje encontrada, os editores de Ferrara não hesitaram em publicar a obra, que é talvez uma das mais belas produções da literatura portuguesa de todos os tempos. Em 1557, Menina e Moça foi editada em Évora, com o título Saudades, numa versão que se supôs, durante séculos, que fosse a obra completa de Bernardim Ribeiro. A continuação foi encomendada a outras mãos, tendo sido dada à obra uma solução que, de alguma forma, desvirtua a singularidade da parte exclusiva de Ferrara e do seu autor, orientando o desfecho na direção dos códigos de cavalaria. Menina e Moça é, pois, lugar de convergências e diálogos múltiplos, com influências de Petrarca e de Boccacio, numa abertura da narrativa ao subjetivismo da poesia e configurando aspetos que fazem desta obra e do seu autor precursores incontornáveis da narrativa moderna.