Garcia de Orta, Colóquio dos simples e drogas da Índia

A nossa espécie utiliza plantas medicinais quase desde que apareceu na Terra. Conhecem-se documentos sobre plantas medicinais há mais de cinco mil anos, como são os documentados sistemas médicos chineses e o «ayurvédico» indiano. Antes da fabricação dos medicamentos pela indústria farmacêutica, que não tem mais do que século e meio, as enfermidades eram tratadas diretamente com «mesinhas» das plantas ou dos animais. Foi, por isso, que, a 5 de outubro de 1773, o Marquês de Pombal escreveu ao então reitor da Universidade de Coimbra a rejeitar o grandioso plano para o Jardim Botânico de Coimbra, que este lhe enviara, dizendo: «Debaixo d’estas regulares medidas deve, V. Ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido somente ao numero de hervas medicinais que são indispensáveis para os exercícios botânicos, e necessaras para se darem aos estudantes as instruções precisas para que não ignorem esta parte da medicina». O tratado De materia medica» (64 d.C.) de Pediamos Dioscórides (40-90 d.C), célebre físico (cirurgião) grego, considerada uma das obras mais antigas sobre plantas, onde se descrevem os atributos (cerca de 1000) de cerca de 600 espécies de plantas, foi o «guia» da «medicina» durante mais de 16 séculos, o que implicou um reduzidíssimo progresso da fitoterapia, pois, além de traduções (algumas com erros graves que se repetiram durante séculos) para várias línguas, muitas publicações (mesmo atuais) sobre plantas medicinais limitaram-se a «parafrasear» esta obra de Dioscórides. Aliás, a maioria dos nomes utilizados por Dioscórides tinham sido utilizados por Hipócrates de Cos (ca. 460-370 a.C.) no seu catálogo De herbis com mais de 230 nomes de plantas, mais tarde descritas por Crataevas (120-60 a.C.) em Rhizotomicon, assim como Theophrasto de Eresos (370-285 a.C.) no livro XVI da sua Historia plantarum. Assim, no século XVI, as plantas mais conhecidas e citadas na literatura, não eram tanto as plantas comestíveis ou ornamentais, mas mais as plantas medicinais.

Garcia da Orta (1501, Castelo de Vide-1568, Goa) foi um reputado médico português, tendo-se licenciado em Espanha (1523) e exercido medicina em Castelo de Vide (1523-1526), Lisboa (1526-1533), onde foi médico de D. João III e professor na Universidade de Lisboa e, finalmente, em Goa (1534-1568). Garcia da Orta conhecia, seguramente, não só obras gregas sobre plantas, particularmente o tratado De materia medica (64 d.C.) de Pediamos Dioscórides, como também os sistemas médicos chineses e o «ayurvédico» indiano. Por isso, os Colóquios dos simples, e drogas da Índia (dois volumes) constituem uma obra extremamente relevante e marcante não só para a época, como também posteriormente, até finais do século XX, com o fabrico dos medicamentos.