D. Duarte, Leal conselheiro

D, Duarte (1391-1438), 11.º rei de Portugal (1433-1438), filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, foi responsável, como soberano, pela promulgação da Leal Mental (1434) e pelo mais significativo avanço do texto legal que viria a ficar conhecido como Ordenações Afonsinas. No seu reinado ocorreu ainda o desastre de Tânger (1437), ao mesmo tempo que os navegadores portugueses prosseguiam o avanço na costa ocidental africana, tendo sido relevante a ultrapassagem do Cabo Bojador (1434).

D. Duarte foi igualmente autor de diversas obras, entre as quais Leal conselheiro. Redigido por volta de 1438, levado para fora de Portugal por sua viúva, a rainha D. Leonor de Aragão, manteve-se inédito até meados do século XIX, quando foi localizado na Biblioteca Nacional de Paris. Já no século XX, conheceu outras edições. Num texto que o próprio autor classificou como um ABC da lealdade, são abordados, em 103 capítulos, temas como pecados, vícios, virtudes e sentimentos individuais, numa linha dos chamados espelhos de príncipes. A originalidade do Leal conselheiro reside na forma como expõe as vivências individuais do autor.

 

Frei António de Beja, Breve doutrina e ensinança de príncipes

Frei António de Beja (nascido cerca de 1493 e falecido em data incerta), capelão da corte, professou posteriormente na ordem de São Jerónimo. Foi autor de Contra o juízo dos astrólogos (1523) e da Breve doutrina e ensinança de príncipes (1525). Nesta, dedicada a D. João III, e com claras influências do humanismo de Picco della Mirandola, o autor considerou que o príncipe, à semelhança de Cristo, deveria ter três grandes virtudes – sabedoria, justiça e prudência. Trata-se de uma de muitas obras de teoria política, na linha das de Álvaro Pais, Diogo Lopes Rebelo e Lourenço de Cáceres.

 

João de Barros, Diálogo de preceitos morais com prática deles em modo de jogo

O Diálogo de preceitos morais com prática deles em modo de jogo (1540) de João de Barros. Embora não se trate de um tratado estritamente pedagógico, este opúsculo, em forma de diálogo, à semelhança dos diálogos de Platão e Cícero, pretende contribuir, de forma lúdica, para a educação dos filhos do autor renascentista e humanista, através dos chamados «preceitos morais». Além de Platão e Aristóteles, o tebano Cebes, também discípulo de Sócrates, como Platão e personagem interlocutora no seu Fédon, foi, segundo Diógenes Laércio, autor de três diálogos: o Frínico, o Símia e a Tábua da vida humana. Perdidos os dois primeiros, resta-nos o último, que grande importância representou para os humanistas europeus, entre os quais João de Barros, que nele se inspirou para escrever este opúsculo pedagógico-moral e lúdico. O Diálogo com dois filhos seus sobre preceitos morais em modo de jogo insere-se na vertente pedagógico-didática das preocupações humanistas de João de Barros, de que fazem parte a Gramática da língua portuguesa com os mandamentos da santa madre Igreja, também conhecida por Cartinha, ou Cartilha (1539), o Diálogo da viciosa vergonha (1540), o Diálogo em louvor da nossa linguagem e a Ropicapnefma. A representação alegórica das virtudes morais em árvore inspira-se na apresentação triádica de Aristóteles, na sua Ética a Eudemo, reduzindo o escritor português as catorze virtudes a doze, sem seguir a mesma ordem.