Livro de marinharia de João de Lisboa

Na época das Descobertas, o ensino da arte de navegar baseava-se essencialmente na transmissão de conhecimentos práticos dos pilotos experientes para os jovens marinheiros que desejavam ascender à categoria de piloto. Seguia-se o modelo medieval de ensino dos ofícios, no qual o mestre transmitia os seus conhecimentos ao aprendiz. Alguns dos pilotos registavam por escrito as informações que consideravam úteis para o desempenho de seu ofício. Chegaram até aos nossos dias alguns desses manuscritos e a historiografia classificou este género de textos como «Livros de marinharia».

O Livro de marinharia de João de Lisboa é um manuscrito que se encontra na Torre do Tombo, cujo título se deve ao nome do piloto, João de Lisboa, que desempenhou funções na transição do século XV para o XVI e que aparece algumas vezes no texto. Pela análise interna deste percebe-se, contudo, que algumas das partes são posteriores à morte do piloto. Tal resulta do facto de estas informações circularem entre os pilotos, que copiavam os textos e os iam acrescentando. Este Livro de marinharia integra um dos textos que faz dele um dos mais antigos textos originais sobre a arte de navegar, apresentando igualmente um conjunto de informações que oferecem uma panorâmica abrangente dos assuntos que interessavam aos pilotos.

 

Fernando Oliveira, Arte da guerra do mar

Fernando de Oliveira era detentor de uma sólida formação académica. Exerceu funções letivas por diversas vezes, tendo sido professor dos filhos de alguns notáveis da sociedade portuguesa da época. A sua erudição está bem patente em alguns dos seus textos, como é o caso da História de Portugal ou da Gramática da linguagem portuguesa. Contudo, Oliveira foi também um homem que navegou bastante, como piloto, adquirindo conhecimentos que, na sua época, se transmitiam segundo a lógica dos ofícios mecânicos, de mestre para aprendiz. Frequentou portos do Mediterrâneo e do norte da Europa. Aí observou as similitudes e diferenças dos diferentes povos no modo de guiar os navios, de os construir ou de conduzir a guerra no mar. Redigiu textos sobre estes assuntos, nos quais alia o seu conhecimento prático às opiniões de autores clássicos que sobre isto se debruçaram.

O livro Arte da guerra do mar, publicado em 1555, é o primeiro tratado português de estratégia naval, podendo mesmo ser considerado pioneiro a nível europeu. Fernando de Oliveira vivenciou diversas situações de combate no mar, referindo frequentemente, ao longo da obra, essa sua experiência como exemplo para as ideias que defende.