Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis

Esmeraldo de Situ Orbis é a primeira descrição sistemática da costa ocidental africana escrita por um português, incluindo testemunhos de contactos com as populações africanas. Redigida no início do século XVI, esta obra descreve as principais zonas de comércio da orla costeira, explica a evolução do comércio com os africanos ao longo do século XV e mostra-nos o modo como os navegadores portugueses percecionavam o mundo e como admitiam o maravilhoso. É neste texto que Duarte Pacheco Pereira afirma que «a experiência é a madre de todas coisas» –, mas, como a experiência o habituara a ver coisas incríveis, o autor continuava a acreditar em hipóteses fantásticas como a existência de homens com cara de cão ou cobras com um quarto de légua de comprimento.

 

Duarte Nunes de Leão, Descrição do reino de Portugal

Em 1610, Gil Nunes do Leão publica a Descrição do reino de Portugal, referindo que a obra, editada em 1610, corresponde na sua forma geral e conteúdo, ao que o tio deixara, quando a acabou de compor, no ano de 1599, estando recolhido em Alverca, por causa da peste, pese embora as referências a datas posteriores (1601) feitas no seu interior e que apontam para acrescentos do autor. Existem apenas três edições da Descrição do reino de Portugal de Duarte Nunes do Leão. A de 1610, impressa em Lisboa por Jorge Rodriguez e dedicada a D. Diogo da Sylva, duque de Francavilla e conde de Salinas e Rivadeo, e a de 1785, realizada em Lisboa, na oficina de Simão Thaddeo Ferreira e dedicada a D. Francisco Rafael de Castro, principal da Igreja de Lisboa, e a de 2002, da responsabilidade de um grupo de investigadores do Centro de História da Universidade de Lisboa. Este é um texto pioneiro pelo carácter multiforme, de grande riqueza nos campos geográfico, das mentalidades e da história, conjugando ainda a corografia, a economia, a administração pública, a genealogia e a hagiografia.

 

José Bonifácio de Andrade e Silva, Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal

José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), naturalista e estadista, poeta e soldado, cientista e humanista, diplomata e pensador, companheiro de Humboldt e Lavoisier, aluno de Gottlieb Werner e Alessandro Volta, cosmopolita e «Patriarca da Independência» do Brasil, não foi apenas uma figura ímpar do mundo intelectual luso-brasileiro. Dele se poderá dizer, sem receio de errar, que encarnou de modo genial, na sua constelação heroica e esforçada de talentos e interesses, o perfil pluralista de um verdadeiro homem das Luzes, amadurecido já na forja política, científica e tecnológica da Modernidade.

Na sua obra Memória sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, datada de 1815, apresentada à Academia Real das Ciências de Lisboa, Andrada e Silva alertou para a necessidade de uma ousada política de fomento de bosques e florestas no território continental português, de forma a evitar a repetição das situações de desertificação provocadas pela incúria humana em outros lugares e momentos da história, como foram os casos da Síria, Fenícia, Palestina e Chipre. E, ao fazê-lo, através da sua rigorosa e original compreensão das interações mútuas entre as leis físicas e o agir intrusivo do homem sobre a «economia geral da natureza», Andrada e Silva antecipou em muitas décadas o próprio conceito de ecologia, assim como a complexa dinâmica da crise global do ambiente, que é a maior ameaça à sobrevivência da civilização humana neste tormentoso século XXI.