P. IOAÕ DE LUCENA. Naceo em a Villa de Trancoso do Bispado de Vizeu, e teve por Pays ao Licenciado Manoel de Lucena Ouvidor de Barcellos criado dos Serenissimos Duques de Bragança D. Theodozio primeiro, e D. Ioaõ o primeiro, e a Izabel Nogueira Sarayva de igual nobreza à de seu Consorte, e por irmaõ a Affonso de Lucena Commendador de S. Tiago de Coelhoso, Alcayde mòr de Portel, e Evora Monte, e Secretario da Serenissima Senhora D. Catherina Duqueza de Bragança, do qual se fez mais larga memoria em seu lugar. Em a tenra idade de quinze annos se alistou na Companhia de IESUS em o Noviciado de Coimbra a 14 de Março de 1565. Onde estudadas as letras humanas, e sciencias severas em que se distinguio pela delicadeza do juizo de todos os seus condiscipulos, dictou Filosofia em a Universidade de Evora com aplauzo, sendo mayor o que conciliou em o pulpito por ser ornado de todas as partes constitutivas de hum consumado Orador Evangelico cujo ministerio exercitou pelo largo espaço de vinte annos servindolhe de theatros os mayores Templos, e de auditorio as pessoas mais eruditas, que suavemente atrahidas da sua natural eloquencia, e apostolica eficacia romperaõ em vozes pedindo-lhe continuasse o Sermaõ quando lhes parecia o acabava. Observou com summa exaçaõ todos os preceitos do seu Instituto sendo benefico para os ingratos, charitativo para os pobres, constante nas adversidades, continuo na Oraçaõ, prompto na obediencia, panegirista das açoens alheas, e desprezador das proprias. Todos os dias se preparava com a confissaõ sacramental para celebrar o incruento sactificio da Missa onde derramava grande copia de lagrimas fervorosas testemunhas do incendio, que lhe abrazava o peito. Provada a sua heroica tolerancia com huma dilatada enfermidade se alegrou excessivamente com a noticia de ter chegado o termo da sua peregrinaçaõ, e recebidos os Sacramentos com espiritual ternura espirou placidamente em a Caza de S. Roque a 2 de Outubro de 1600. quando contava 52 annos de idade, e 37 de Religiaõ. He celebrado o seu nome pelas pennas de gravissimos Escritores. Manoel de Faria, e Souza Inform. sobre a Cens. às Lusiad. de Camoens. pag. 119. n. 28. doctissimo, e elegantissimo Theologo Christiano; e pag. 126. n. 40. Gran Escritor. e no Tom. 1. da Asia Portug. nas Advert. Escritor benemerito de toda estima por el juizio con que trata las cosas, y por la elegancia, y por el discurso. Telles Chron. da Comp. de Jes. Da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 2. cap. 1. n. 7. insigne Historiador. D. Franc. Man. Cart. dos AA. Portug. escrita ao Doutor Themudo Apostolico Pregador. Nadasi Annus Dier. Mem. S. J. Part. 2. pag. 199. col. 2. patientia, piis lacrymis, & in omnes charitate spectabilis. Fonceca Evor. Glorios. pag. 433. insigne Orador do seu tempo. Bib. Societ. pag. 470. col. 2. vir fuit omnibus ornatus virtutibus. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. 1. n. 47. Litterarum hamaniorum, ac Philosophiae laudatissimus Praeceptor fuit, sed lusitana eloquentia, arte que concionatoria longe clarissimus. Ant. de Leaõ Bib. Orient. Tit. 8. Abreu Vida de S. Quiteria cap. 8. grave, e douto Padre; e 180. grave Escritor. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. pag. 552. col. 1. Clarus imprimis eloquentia, facultateque Oratoria. Franco Imag. da Virtud. em o Nov. de Coimb. Tom. 1. liv. 3. cap. 85. Ainda que o seu engenho para tudo era cabal com tudo no talento, e prendas para o ministerio da pregaçaõ era raro; e no Ann. Glorios. S. J. in Lust. pag. 567. Fulsit proeclarissimo ingenio ad magisteria, & dotibus praecellentibus ad Sacra pulpita. Compoz com estilo claro, elegante, e puro pelo qual he numerado entre os mais celebres Historiadores deste Reyno por Antonio de Macedo Flor. de Espan. cap. 22. Excel. 6. Ioaõ Pinto Ribeiro Relac.1 n. 83. e o grande antiquario Manoel Severim de Faria Disc. Var. fol. 81. v.º Historia da Vida do P. Francisco de Xavier, e do que fizeraõ na India os mais religiosos da Companhia de IESUS. Lisboa por Pedro Craesbeeck. 1600 fol. Foy traduzida na lingua Italiana pelo P. Luiz Mansonio. Roma por Zanneti 1613 4. e em Castelhano pelo P. Affonso do Sandoval ambos da Companhia de IESUS. Sevilla por Francisco de Lyra. 1619 4. e em Latim como escreve Manoel Severim de Faria no lugar assima citado.

Commentaria in Mathaeum. M. S. fol. Desta obra que deixou imperfeita se lembra Fonceca Evor. Glorios. p. 433. e Franco Imag. da Virtud. do Nov. de Coimb. p. 785.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]