IOAÕ FRANCO BARRETO Naceo em a Cidade de Lisboa em o anno de 1600. onde teve por Pays a Bernardo Franco, e a Maria da Costa Barreto de igual nobreza à do seu Consorte. Aprendeo as letras humanas em o Collegio patrio de Santo Antaõ em que teve por Mestre ao insigne Francisco de Macedo de cujo magisterio bebeo com tanta afluencia as aguas da Hipocrene, que sahio consumado Poeta latino, e vulgar. Com igual comprehensaõ penetrou as dificuldades da Filosofia, e como a natureza o ornara de igual capacidade para governar a penna, que manejar a espada navegou na armada expedida no anno de 1624. para a restauraçaõ da Bahia, que tyranamente dominavaõ os Olandezes em cuja expediçaõ obrou açoens dictadas pela actividade de seu brioso espirito. Voltando para a patria deixou o exercicio militar pelo litterario estudando Direito Pontificio em a Universidade de Coimbra, e havendo com enveja dos seus condiscipulos frequentado quatro annos esta Faculdade lhe foy preciso deixar a Universidade no anno de 1640. para acompanhar aos filhos de Francisco de Mello Monteiro mòr do Reyno dos quais era Mestre de letras humanas quando vieraõ beijar a maõ a ElRey D. Ioaõ o IV. exaltado ao trono de seus augustos predecessores. Pela summa prudencia, e vasta noticia de sucessos bellicos, e politicos de q era dotado, e instruido o elegeo por seu Secretario Francisco de Mello quando no anno de 1641. partio com o Caracter de Embaxador a ElRey Christianissimo esperando da sua capacidade, e madureza, conselho, e direçaõ em os negocios mais arduos, cuja eleiçaõ se vio pela experiencia felismente dezempenhada. Restituido à Corte como se visse livre dos vinculos do Matrimonio, que contrahira em a Villa de Redondo do qual teve hum filho, que professou o instituto de S. Paulo primeiro Ermitaõ, e huma filha, que morreo donzella se ordenou de Presbitero, e obtendo hum Beneficio na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Encarnaçaõ da Villa de Redondo onde assistio alguns annos passou para a Villa do Barreiro no anno de 1648. onde foy Vigario da vara. Neste tempo em que pelo tumulto da guerra agitada entre este Reyno, e o de Castella se experimentavaõ em toda parte diversas inquietaçoens, lograva de hum animo imperturbavel dedicando todas as horas ao estudo, e composiçaõ das suas obras com que tanto illustrou o seu nome, e perpetuou a sua fama, sendo o Cathalogo das impressas o seguinte.

Cyparisso. Fabula Mythologica. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1631. 4. He em 8. Rima. Em aplauzo desta obra cantou D. Francisco Manoel de Mello.

Este Cypres levantado

Sobre vuestra erudicion

Antes acà admiracion

Que a la fama consagrado;

Lo que en el yò tengo hallado

No cabe en solo un papel;

Acá se lo dire a el;

Que pues tal gala se viste

Arbol, yá nò será triste

Despues que cantasteis del.

Relaçaõ da Viagem que a França fizerão Francisco de Mello Monteiro mòr do Reyno, e o Doutor Antonio Coelho de Carvalbo hindo por Embaxadores Extraordinarios delRey D. Ioaõ o IV. de gloriosa memoria a ElRey de França Luiz XIII cognominado o Iusto anno 1641. Lisboa por Lourenço de Anueres. 1642. 4. Nesta obra promete a pag. 56. outra, que consta dos Officiaes da Caza Real de França.

Cathalogo dos Christianissimos Reys de França, e das Raynhas suas Espozas prozapia, annos da sua vida, de seu Reynado, e onde estaõ enterrados. Lisboa por Domingos Lopes Roza. 1642. 4.

Offerecido a D. Manoel da Cunha Bispo de Elvas, e Capellaõ mòr.

Eneida Portugueza 1. Parte. Lisboa por Antonio Crasbeeck de Mello. 1664. 12.

2. Parte. Ibi pelo dito Impressor. 1670. 12.

He o poema de Virgilio vertido com summa felicidade em Outavas Portuguesas, cuja obra exalta com o seguinte Elogio o Padre Antonio dos Reys no Enthus. Poetic. n 43.

……………… Pari Phaebus dignatus honore

Barretum est, versa qui tota Aeneide, Luso

Virgilium facit ore loqui (si sermo Latinus

Discrepat à Luso, quod, qui nescivit utrumque Concessisse potest tantùm)

Orthographia da lingua Portugueza. Lisboa por Ioaõ da Costa. 1670. 4.

Flos Sanctorum. Historia das vidas, e obras insignes dos Santos pelo Reverendo Padre Pedro de Ribadaneira da Companhia de JESUS, e de outros Authores traduzida de Castelhano em Portuguez. Lisboa por Antonio Crasbeeck de Mello. 1674. fol.

Index de todos os Nomes proprios, que estaõ no Poema de Luiz de Camoens impresso em Lisboa por Antonio Crasbeeck de Mello. 1669. 4. Esta ediçaõ preparou, emendou, e distribuio em tres volumes Joaõ Franco Barreto acrecentandolhe alem do Index, que se pode chamar Diccionario Historico, Poetico, e Geografico, os Argumentos de cada canto em Outava Rima.

Elegia, e Soneto à morte de Ioaõ Perez de Montalvaõ. Sahiraõ impressos nas Lagrim. Panegyr. à mort. deste grande Poeta a fol. 64. e 65. Madrid. 1639. 4.

Obras M. S.

Bibliotheca Portugueza. Esta obra da qual fazem mençaõ Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. p. 329. col. 2. e o Licenciado Iorge Cardozo Agiol. Lust. Tom. 3. pag. 74. no Comment. de 4. Mayo letr. 1. principiou na Villa de Redondo à instancia do insigne Antiquario Manoel Severim de Faria. Consta de hum grande numero de Authores Portuguezes, que escreveraõ em todas as Faculdades cujo Original, que estava com todas as licenças prompto para a impressaõ se conserva na Livraria do Excellentissimo Duque de Lafoens, que foy do Emminentissimo Cardial de Souza. Huma copia desta obra, que está na Bibliotheca do Excellentissimo Duque do Cadaval Estribeiro mòr de S. Magestade me foy comunicada donde extrahi muitas noticias, que seu Author colhera com incansavel disvelo.

Historia dos Cardeaes Portuguezes. fol. Desta obra como da precedente se  lembra o Padre Antonio de Macedo no Prologo da Lusitania Insu1. & Purpur. dizendo Joannes Franco Barreto vir plane eruditus misso ad me in urbem M. S. de Cardinalibus Lusitanis libello. Ejus Bibliothecam Lusitanam propediem typis mandandam videre non licuit.

Historia Ecclesiastica da Cidade de Evora. fol.

Olhos suas virtudes, e seus vicios 4.

Odes de Horacio em Verso Portuguez. 4.

Todas estas tres obras se conservaõ na Bibliotheca do Excellentissimo Duque de Lafoens.

Relaçaõ da Viagem, que a armada de Portugal fez à Bahia de todos os Santos, e da restauraçaõ da Cidade de S. Salvador ocupada das armas Olandezas escrita anno de 1642. 4. Narra circunstancias dignas de estimaçaõ por ser testemunha ocular de quanto escreveo.

Discurso apologetico sobre a visaõ do Indo, e Ganges introduzido com excellente Prosopopeya pelo insane, e heroico Poeta Luiz de Camoens em o Canto 4. dos seus Lusiadas.

Batrachomyomachia de Homero ou guerra de ratos, e rans naõ traduzida, mas imitada em 112. Outavas Portuguezas oferecidas a seu Amigo Cosme Ferreira de Brum no anno de 1637.

Genealogia dos Deuses Gentilicos. Obra muito erudita, e dilatada donde podem os Poetas extrahir grandes noticias para copia, e ornato das suas compoziçoens.

Rimas Varias. 4. que formaõ hum Volume de justa grandeza. Fazem delle honorifica memoria alem dos Authores allegados Ioan. Soar. De Brit. Theatr. Lusit. Liter. lit. 1. n. 39. Morery Dicion. Historique Verb. Franco Barreto. D. Emman. Caiet. de Souza Exped. Hispan. S. Iacob. Part. 2. p. 1324. §. 365.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]