D. Fr. IOAÕ DA MADRE DE DEOS. Naceo em Lisboa, e depois de estudar a lingua Latina, e o Canto de Orgaõ no Real Convento de S. Francisco da sua patria afeiçoado a este instituto o professou no Convento de Santarem. Apredidas as sciencias escholasticas de cujos progressos, que nelles fez o seu agudo talento, formou degraos para subir ás Cadeiras, e naõ menos aos pulpitos alcançando a merecida fama de insigne Letrado, e famoso Pregador. Com tanta energia exercitou este evangelico ministerio, que sendo seu ouvinte ElRey D. Ioaõ o IV. em a Capella Real o nomeou seu Pregador cujo lugar conservou em os Reynados de D. Affonso VI. e D. Pedro II. dispendendo o ordenado, que percebia em obsequio do divinissimo Sacramento. Havendo sido Guardiaõ dos Conventos de Coimbra, e Lisboa foy assumpto a Provincial a 19 de Novembro de 1675. em o Capitulo em que prezidio o Comissario Geral Fr. Diogo Fernandes de Angulo. No tempo do seu governo se consumou o edificio do Collegio de S. Boaventura de Coimbra, e se tresladaraõ do Convento Velho para o novo as Religiosas de Santa Clara da mesma Cidade com o corpo da Raynha Santa Izabel. Elevada a Cathedral da Bahia a Metropole atendendo aos seus merecimentos o Principe Regente D. Pedro o nomeou primeiro Arcebispo daquella Diocese a 13 de Janeiro de 1682. e foy sagrado na Capella mór do Convento de S. Francisco a 23 de Setembro do dito anno pelo Illustrissimo Nuncio Apostolico Marcello Durazzo Arcebispo de Calcedonia. Fez a entrada publica na Bahia a 20 de Mayo de 1683. Onde dezempenhou as obrigaçoens de insigne Pastor emendando culpas com prudencia, reformando abuzos com severidade, e dispendendo esmolas com frequencia. Sentindo-se acometido do mal epidemico, que devastava o Estado da Bahia fez doaçaõ de tudo quanto possuia, e recebidos os Sacramentos com grande compunçaõ espirou a 13 de Junho de 1686. Foy universalmente sentida a sua morte principalmente pelo Cabbido, que em memoria do seu afesto lhe celebrou magnificas exequias em que orou o V. Padre Alexandre de Gusmaõ Provincial da Companhia de IESUS, e Fundador do Seminario de Belem. Jaz sepultado junto dos degraos, que sobem para a Capella mòr da Cathedral, e na Campa estaõ abertas as Armas da Religiaõ Serafica com huma Cruz na parte inferior que tem o seguinte Epitafio.

Sepultura do Illustrissimo D. Fr. Ioaõ da Madre de Deos primeiro Arcebispo, que veyo a este Estado. Falleceo a 13 de Junho de 1686.

Compoz.

De Incarnatione. fol. M. S.

De Sacramentis in genere. fol. M. S.

Estes dous volumes, como escreve Fr. Fernando da Soledade Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 5. liv. 4. cap. 40. naõ viraõ a luz do Prelo que tambem faltou aos seus Sermoens dos quaes existem 89 em hum Tomo. M. S. que se conserva na Bibliotheca do Convento de S. Francisco da Cidade.

Aguia de Esdras. He huma interpretaçaõ, e Commento das visoens, que Esdras refere no cap. 11. 12. e 13. do 4. livro. Este tratado he dividido em 3. Partes. a 1. trata dos Sonhos, e visoens, que Esdras teve, e da explicaçaõ, que Deos lhe deu. Na 2. trata do Reyno, Reys, e sucessos do mesmo Reyno mostrando, que Reyno, e que Reys saõ estes? Na 3. trata do Leaõ em que falla nestes sonhos Esdras mostrando quem seja este Leaõ, e como nelle se verificaõ os Vaticinios de Esdras. 4. M. S. Conservase na mesma Bibliotheca.

Duas Censuras por ordem do Dezembargo do Paço ao 1. e 2. Tomo dos Sermoens do Padre Antonio Vieyra; a 1 a 29 de Agosto de 1678. e a 2 a 26 de Fevereiro de 1682. Sahiraõ impressas no principio destes dous Tomos. A 1. Lisboa por Joaõ da Costa. 1679. 4. e a 2. ibi por Miguel Deslandes. 1682. 4. Nellas se admira a elegancia, e discriçaõ de D. Fr. Ioaõ da Madre de Deos hum dos mayores Oraculos do pulpito Luzitano no seculo passado como delle escreve Sebastiaõ da Rocha Pitta Hist. da Americ. Portug. liv. 7. § 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]