P. IOAÕ DA FONCECA Naceo em a Villa de Viana do Alentejo do Arcebispado de Evora devendo à virtuosa educaçaõ de seus Pays Bartholameu Soudo, e Angela Coelha, a resoluçaõ de deixar em a tenra idade de 17 annos o seculo, e abraçar o instituto da Companhia de Iesus em o Noviciado de Evora a 19 de Ianeiro de 1649. professando solemnemente a 15 de Agosto de 1659. Aprendidas as letras humanas ensinou em a Universidade Eborense pelo espaço de quatro annos Filosofia com grande emolumento dos seus ouvintes. Impellido com o zelo da salvaçaõ das almas discorreo pelas Villas de Abrantes, Alcacer do Sal, Castello de Vide, e a Cidade de Beja exercitando com grande fervor, e copioso fruto o ministerio de Missionario Apostolico. Pela sua prudencia acompanhada de summa afabilidade foy Mestre do Noviciado de Coimbra, Visitador do Collegio da Ilha da Madeira, Perfeito dos Irmaõs do Recolhimento de Evora, e Reytor do Noviciado de Lisboa. De todas as virtudes religiosas foy observantissimo cultor. Vizitava frequentemente aos infermos nos Hospitaes, e aos prezos nas Cadeyas publicas alliviando as afliçoens de huns com santos conselhos, e a necessidade dos outros com repetidas esmolas. Ambicioso dos mayores desprezos levava muitas vezes pendente dos hombros a caldeira do comer dos pobres que se havia repartir na portaria. Para conservar illesa a flor da Castidade evitava practicas com mulheres ainda que fossem das mais illustres da Corte. Nunca murmurou de pessoa alguma, antes se ouvia tocar em materia prejudicial ao credito do proximo divertia com prudente modo a practica. Era muito observante do silencio fugindo quanto podia do comercio humano, e passando a mayor parte do tempo escrevendo as obras em que retratou o seu espirito. Com tanto rigor se disciplinava, que avizado o Superior pelo estrondo dos golpes lhe poz preceito para naõ uzar daquella penitencia que degenerava em tyrania. Foy cordial devoto do Santissimo Sacramento em cuja prezença grava horas continuas; sendo igual o afecto com que venerava a Maria Santissima cuja soberana proteçaõ experimentou repetidas vezes solicitada pelos seus rogos. Illustrado com a luz da profecia revelou muitos futuros, previo varios sucessos. Na ultima enfermidade se levantou da Cama para receber de joolhos o Sagrado Viatico conservando até o ultimo instante o juizo taõ perfeito, que dizendo hum dos circunstantes Benedictus Dominus, continuou Deus Israel quia visitavit nos. Acabadas estas palavras fictando os olhos em huma Imagem de Maria Santissima, que estava fronteira aonde jazia, expirou com grande serenidade em o Collegio de Santo Antaõ de Lisboa ao primeiro de Outubro de 1701. com 69. annos de idade, e 52 de Companhia. As suas pobres alfayas se repartiraõ como reliquias por varias pessoas. O Serenissimo Rey D. Pedro II. que o venerara vivo pedio alguma couza, que fosse do seu uzo, e para satisfaçaõ deste piedoso dezejo se lhe deraõ as contas por onde quotidianamente rezava. Descansaõ as suas veneraveis cinzas em huma sepultura aberta na parede da Ante Sancristia da parte do Evangelho do Collegio de Santo Antaõ com este elegante Epitafio.

Hoc conditur mausoleo V. P. Ioannes de Fonceca Societatis Jesu Vianensis in Provincia Transtagana omnium virtutum singulare exemplum: cujus doctrinam si quaeras, illius libros consule, hos cum edidit, suae virtutis fecit haeredes: Si Magisterium, uItra Philosophiam in Universitate Eborensi, Novitiorum egit pene per triginta annos tam Conimbricae, quàm Ullyssipone ea morum integritate, ac Sanctitate, ut Posteris omnibus norma possit esse, & archetypus. Praelucet ad Tumulum lucerna ardens: spirant etenim adhuc, et docent hac ex urna pietatem, et gratiam tanti viri vocales cineres, eos eodem modo inuitantis ad gloriam, quos olim informavit ad vitam. Obiit in hoc Collegio D. Antonii Magni primi Octobris. 1701 .

Fazem honorifica memoria deste Varaõ o Padre Antonio Franco Imag. da Virt. em o Novic. de Evor. liv. 4. cap. 14. até 28. e pag. 868. Varaõ todo de Deos, e muy esclarecido em Santidade. et Annal. S. J. in Lusit. pag. 410. §. 4. omni laude mayor; e no An. glorios. S. J. in Lusit. pag. 558. Fonceca Evor. glorios. pag. 432. Varaõ Santissimo, e Pay de toda esta Provincia por ter criado, e ensinado quazi todos os sogeitos della nos muitos annos em que foy Mestre dos Noviços. Compoz.

Norte espiritual da vida Christãa pela qual se deve governar o que dezeja acertar com o caminho da perfeiçaõ fiado na Divina Providencia, e conformando se em tudo com a divina vontade. Coimbra por Iozé Ferreira. 1687. 8. & ibi por Iozé Antunes da Sylva Impressor da Universidade. 1724. 8.

Espelho de penitentes. Trata de como hade fazer huma confissaõ bem feita o que trata de reformar a sua vida. Evora na Officina da Universidade. 1687. 8.

Escola da Doutrina Christãa em que se ensina o que he obrigado a saber todo o Christaõ. Evora na mesma Officina. 1688. 4.

Guia de Enfermos, moribundos, e agonizantes. Lisboa por Manoel Lopes Ferreira. 1689. 8.

Instrucçaõ espiritual para antes, e depois da Sagrada Comunhaõ. Lisboa por Miguel Manescal. 1689. 8.

Alivio de Queixosos da morte dos que amáraõ em vida. Lisboa por Manoel Lopes Ferreira. 1689. 8.

Antidoto da alma para medecina de escrupulos, remedio de tentados, e perservativo de enganos, e illusoens que pode haver em materias espirituaes. Lisboa por Miguel Manescal. 1690. 8.

Sylva Moral, e historica. Discursos moraes de diversas materias confirmados com seis Centurias de exemplos escolhidos, e historias selectas. Lisboa por Miguel Manescal. 1696. 4.

Satisfaçaõ de aggravos, Confissaõ de vingativos. Evora na Officina da Universidade. 1700. 4.

Deixou promptos para a impressaõ.

Sylva Moral, e historica &c. semelhante a que tinha publicado.

Meditaçoens dos Exercicios de Santo Ignacio.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]