Fr. IOAÕ DE DEOS. Naceo em a Villa de Amarante a 23 de Fevereiro de 1618. e naõ a 20 de Setembro como escreve o P. D. Antonio Caetano de Souza Apparat. à Hist. Gen. da Caz. Real Portug. p. 126. §. 144. Teve por Pays a Ruy Cabral Barbosa, e D. Paula Barbosa sua Prima descendentes da principal nobreza de Entre Douro, e Minho, e por Tio a Manoel Barbosa Cabral Abbade de S. Tiago de Sandim no Conselho de Filgueiras Comissario do S. Officio, e Prothonotario Apostolico. Foylhe imposto o nome de Ioaõ de Deos por sua Avó D. Filippa Pinheira matrona ornada de excellentes virtudes em obsequio do insigne Patriarcha da Hospitalidade cujos milagres assombravaõ naquelle tempo ao mundo. Aprendeo os primeiros rudimentos com Miguel Cerqueira Doce Presbitero muito douto, e Poeta celebre em a lingua latina de quem em seu lugar se fará memoria mais larga, e as letras humanas em o Collegio de S. Paulo da Cidade de Braga dos Padres Iesuitas onde fez taes progressos a viveza de seu talento que admirando os Mestres os sazonados frutos, que produzia em idade taõ verde o convidaraõ para vestir a roupeta da Companhia, porem atrahido do exemplo de seus dous Tios Fr. Fernando do Espirito Santo, e Fr. Alexandre de Iesus religiosos da Serafica Provincia de Portugal que a illustraraõ como Mestres na Cadeira, e como Oradores em o Pulpito, se resolveo abraçar este sagrado instituto quando contava vinte annos, e onze mezes recebendo o habito no anno de 1639. em o veneravel Convento da Villa de Alanquer. Acabada a carreira dos estudos escholasticos em que foy emulo o seu grande engenho de dous grandes condiscipulos Fr. Ioaõ da Madre de Deos, e Fr. Antonio de S. Dionisio, este Bispo de Cabo Verde, e aquelle primeiro Arcebispo da Bahia, subio a ler Filosofia em o Real Convento de S. Francisco da Cidade com grande credito da sua literatura, cuja incumbencia foy obrigado interromper sendo eleito Procurador a Roma para pacificar os tumultos, que o Comissario Geral Fr. Martinho do Rosario tinha cauzado em todas as Provincias Seraficas deste Reyno. A 24 de Mayo de 1649. chegou à Curia, e fazendo patentes os dotes, de que se ornava o seu espirito, com tal arte conciliou os afectos das principaes pessoas daquelle famoso Theatro da politica Christaã, e Civil, que triumfou de todas as maquinas que tinha armado o indiscreto zelo do Comissario Geral contra a sua Provincia adquirindo para elle singulares indultos. Restituido a Portugal a 19 de Março de 1650. foy eleito Guardiaõ de Santo Antonio de Ferreirim donde foy assumpto aos lugares de Guardiaõ do Convento da Ponte de Coimbra em o anno de 1662. Definidor em 1669. e de Ministro Provincial eleito em 31 de Março de 1669. assistindo nesta eleiçaõ o Reverendissimo Fr. Affonso de Salizanes Ministro Geral da Ordem Serafica. Foy Presidente de dous Capitulos intermedios; o primeiro da Provincia dos Algarves a 21 de Iulho de 1674. sendo Provincial Fr. Diogo da Natividade Caldeira; o segundo da Provincia da Terceira Ordem da Penitencia a 7 de Setembro do dito anno sendo Provincial Fr. Bartholameu da Porciuncula o primeiro Definidor, que teve esta Provincia. Obteve os honorificos lugares de Qualificador do S. Officio, Examinador das Tres Ordens Militares, e Pregador delRey D. Affonso VI. de quem recebeo particulares favores. Naõ se limitou o seu estudo as especulaçoens escholasticas, dilatouse pelos vastos campos da Historia Sagrada, e profana sendo profundamente erudito em a do nosso Reyno. Entre os professores da Genealogia mereceo taõ universal respeito que afirmavaõ os mais peritos que de Coimbra para baixo entrava na classe dos primeiros Genealogicos, e de Coimbra para sima o naõ havia milhor, cujo axioma se verificou em as muitas obras, que escreveo desta taõ importante parte da Historia taõ cheyas de verdade sincera, como de indefessa investigaçaõ. Falleceo no Convento de S. Francisco da Cidade a 15. de Iulho de 1684. quando contava 66 annos de idade e 45 de Religiaõ. Delle fazem memoria Fr. Fernando da Soledade Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 5. liv. 4. cap. 32. §. 1162. e o P. Souza no lugar assima allegado. Compoz.

Sermaõ na solemne procissaõ que fez o Reverendo Cabbido, e Camara de Coimbra à Rainha Santa em acçaõ de graças pela gloriosa Restauraçaõ de Evora. Coimbra por Manoel Dias, 1664. 4. & ibi por Thome Carvalho Impressor da Universidade 1672. 4. Deste Sermaõ fez dous o P. Fr. Fernando da Soledade escrevendo no lugar assima allegado, que imprimira dous Sermoens hum da Restauraçaõ de Evora, e outro de Santa Izabel, quando no referido se

comprehendem estes dous argumentos.

Topographia das Terras de Portugal. Consta esta obra de huma Descripçaõ Historica Geografica, e Genealogica de todas as Cidades, Villas, Honras, Coutos, Julgados, e Igrejas do Reyno, sendo totalmente semelhante à Corografia Portugueza, que em tres volumes de folha publicou o Padre Antonio Carvalho da Costa. Conserva-se o Original na Livraria do Convento de S. Francisco da Cidade fol.

Theatro das Igrejas de Portugal, Cathedraes, Collegiadas, e Religioens Militares. M. S. fol. Conserva-se na Livraria do Excellentissimo Duque de Lafoens, que foy do Emminentissimo Cardial de Souza onde a vio o Padre Francisco da Cruz como afirma nas Mem. M. S. que deixou para a Bib. Portug.

Varios livros Genealogicos. fol. M. S. Destes se deraõ tres volumes ao Emminentissimo Cardial de Alencastre Inquisidor Geral destes Reynos, e outros ficaraõ em poder de Manoel Barbosa Cabral Abbade de S. Tiago de Sandim Tio do author, que depois os deu ao Padre Fr. Martinho Martiniano de Castro religioso de S. Ieronimo da Caza dos Excellentissimos Marquezes de Cascaes.

Arvores Genealogicas. fol. M. S. Conservaõ-se na Livraria do Excellentissimo Duque do Cadaval Estribeiro mór de S. Magestade como afirma o Padre Souza no Apparat. á Hist. Gen. da Caz. Real Portug. pag. 126. §. 144.

Memorias das Provincias Franciscanas de Portugal, e suas Conquistas. M. S.  4. Conserva-se esta obra na Livraria do Convento de S. Francisco da Cidade com a seguinte rubrica. Memorias destas Provincias da Ordem de N. Padre S. Francisco, que eu Fr. Ioaõ de Deos indigno religioso della fiz para os vindouros do que alcancei, vendo a pouca curiosidade dos antigos nesta materia.

Miscellanea Historica, e Genealogica. M. S. 4. Na mesma Livraria de S. Francisco da Cidade.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]