D. IOAÕ DA COSTA primeiro Conde de Soure Alcayde, e Commendador mòr de Castro marim, de S. Pedro de Varzeas, e de Santa Maria de Bezelga em a Ordem de Christo naceo em Lisboa no anno de 1610. e foy filho de D. Gil Eannes da Costa Commendador, e Alcayde mòr de Castro marim, e D. Francisca de Vasconcellos filha herdeira de D. Rodrigo de Souza dos Alcaydes mores de Thomar. Sendo unico por disposiçaõ da natureza, se fez singular pellas virtudes com que ornou o seu espirito. Ainda contava poucos annos quando no Palacio de Madrid servindo de braceiro da Raynha D. Izabel de Borbon mulher de Filippe IV. mostrou a madureza do juizo illustrada com a modestia do semblante. Restituido à patria sem faltar ao decoro da pessoa regulava o publico luzimento pelos emolumentos da sua Caza. Logo que cingio espada passou à Praça de Tangere onde pelo espaço de tres annos deixou gloriosas memorias de seu valor heroico. Mayores foraõ os argumentos da sua militar disciplina na batalha do Montijo no qual sendo General da artilharia comprou com o proprio sangue a liberdade da patria tyranizada pela ambiçaõ Castelhana. Com o posto de Mestre de Campo General alcançou felices sucessos na Provincia do Alentejo onde sendo Governador das Armas mostrou que a prudencia do juizo competia com a heroicidade do coraçaõ. Em o Concelho de Guerra sempre os seus votos eraõ em beneficio dos interesses politicos, e no Conselho Ultramarino de que foy Presidente experimentaraõ as Conquistas os efeitos das suas prudentes maximas. Foy nomeado no anno de 1659. Embaxador Extraordinario à Corte de França, e posto que o tempo era contrario ás conveniencias desta Coroa valendose da sua profunda politica, e sagaz actividade triunfou das industrias dos Ministros Castelhanos, e Francezes cauzando naõ pequena admiraçaõ ao penetrante juizo do Cardial Mazarino primeiro Ministro da Monarchia de França a sagacidade com que o Conde concluira a sua negociaçaõ, e tal foy o conceito que formou do seu talento que pedio ao Cardial de Rets lhe fallasse antes de partir para Portugal para conhecer a hum Varaõ consumado. Restituido a Portugal a 13 de Novembro de 1660. Exercitou o lugar de Gentilhomem da Camara do Infante D. Pedro merecendo particulares distinçoens deste Principe. Foy dotado de grande eloquencia, graça natural, e summa promptidaõ para escrever. Na amizade foy constante, e sendo algumas vezes provocado antepóz a ley divina aos impulsos da natureza. Teve a estatura mediana, o rostro branco, e corado, olhos grandes, e verdes, cabello negro, e composto. Foy cazado com D. Francisca de Noronha que depois de Viuva foy Marqueza de Soure Aya, e Camareira mòr da Senhora Infanta D. Izabel Iozefa, a qual era filha de D. Pedro de Noronha XII. Senhor de Villa Verde, e de D. Iuliana de Noronha filha herdeira de Vasco Martins Monis Senhor de Anjeja quem teve a D. Gil Eannes da Costa 2. Conde de Soure Vereador da Camara de Lisboa que morreo a 26 de Ianeiro de 1680. D. Pedro da Costa que falleceo na tenra idade de tres annos; D. Alvaro da Costa em a de seis annos: D. Rodrigo da Costa Governador, e Capitaõ General da Ilha da Madeira, e do Estado do Brazil, e Vicerey da India o qual morreo a 16 de Dezembro de 1722, e foy cazado com D. Leonor Iozèfa de Vilhena Dama das Rainhas D. Maria Francisca de Saboya, e D. Maria Sofia Izabel de Neoburg, a qual era filha de Manoel de Mello Porteiro mòr de quem teve descendencia: D. Iuliana de Noronha que cazou com Ioaõ da Sylva Tello 3. Conde de Aveiras; e D. Helena de Noronha que morreo de tenra idade. Falleceo D. Ioaõ da Costa a 22 de Ianeiro de 1664. Iaz enterrado na Cappella do Collegio de Santo Antaõ de Lisboa dos Erimitas de Santo Agostinho em cuja sepultura se lhe deve gravar por epitafio o seguinte soneto composto por Andre Nunes da Sylva impresso nas suas Poezias varias pag. 65.

Vista sombras o dia, lutos corte

O valor, cada qual triste, e turbado,

Pois que falta à Campanha tal soldado

Pois que tal Cortezaõ falta da Corte.

Triumfou cruel da valentia a sorte;

Fragil cedeo a gentileza ao fado,

He o despojo ao triumfo vinculado

O mòr abono do poder da morte.

Morreo aquelle Costa em cujo alento

O pezo descansou do nosso polo;

Portugal o suspira em toda a parte;

Pois contemplo no tragico lamento

A Corte triste, sem o seu Apollo

A Campanha infeliz, sem o seu Marte.

Á sua memoria se dedicaraõ elegantes elogios. D. Luiz de Menezes Conde da Ericeira Portug. Restaur. Tom. 2. desde pag. 658. até 660. onde acaba. Teve todas aqùellas qualidades de que virtuosamente se deve compor hum Varaõ perfeito. Franc. de S. Mar. Diar. Portug. p. 107. Foy amantissimo da honra, e naõ menos da conservaçaõ da patria. Constante nas amizades, discreto na conversaçaõ, liberal, compassivo, e generoso. Salaz. e Castro Hist. Gen. da Caz. de Sylv. Part. 2. liv. 8. cap. 15. Clede Hist. de Portug. Tom. 2. p. mihi 677. e 690. Souza Apparat. à Hist. Gen. da Caz. real Portug. p. 112. §. 120. Varaõ grande em quem concorreraõ excellentes virtudes, ou fosse na Campanha, ou no Gabinete, e em huma, e outra  couza mostrou constancia, resoluçaõ, e grande talento. e no Tom. 7. da Hist. Gen. liv. 7. p. 349. do qual era taõ conhecido o valor, como o talento para os negocios politicos.

Compoz

Discurso politico que deu ao Cardial Mazarino em S. Ioaõ da Luz nas vistas que teve com D. Luiz de Haro primeiro Ministro de Castella quando começou a tratar a paz mostrando por vinte e sete razoens forçosissimas como França por justiça, e conveniencia naõ devia fazer a Paz sem inclusaõ de Portugal. Lisboa por Henrique Valente de Oliveira. 1661. 8.

Este Manifesto fez tal consternaçaõ em França, que o Cardial Mazarino o mandou recolher, e que fossem prezos o impressor, e Tradutor que o passara da lingua Portugueza para a Franceza os quais buscaraõ por azilo a Caza do Embaxador.

Memorial a ElRey D. Ioaõ o IV. sobre a conservaçaõ do Reyno escrito no anno de 1642. Conservase na Livraria do Excellentissimo Duque de Lafoens, que foy do Emminentissimo Cardial de Souza.

Familias do Reyno. 4. Tom. fol. M. S.

Cartas fol. 3. Tom. Estaõ na Livraria do Excellentissimo Marquez do Louriçal.

Varios papeis politicos. fol. M. S. Existem na Livraria do Excellentissimo Duque do Cadaval, onde os vio o P. D. Antonio Caetano de Souza como escreve no Apparat. à Hist. Gen. da Caz. Real Portug. p. 112.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]