V. P. IOAÕ DE BRITO chamado no seculo Ioaõ Heytor de Brito terceiro, e ultimo filho de Salvador de Brito Pereira Fidalgo da Caza delRey D. Ioaõ o IV. e seu Trinchante ao tempo, que subio ao Trono de Portugal, e de D. Brites Pereira naceo em a Cidade de Lisboa no primeiro de Março de 1647. No Palacio, onde tinha o exercicio de moço Fidalgo era tal a modestia de seu semblante, e a compustura das suas palavras, que servia de exemplar aos Aulicos, e de admiraçaõ aos Principes. Atrahido suavemente da vida religiosa como mais conforme ao seu espirito abraçou o instituto de Jesuita em o Noviciado de Lisboa a 17 de Dezembro de 1662. quando contava a florente idade de 15 annos. Estudada Filosofia em o Collegio de Coimbra dictou letras humanas em o de Lisboa, e como a sua mayor inclinaçaõ era annunciar o Evangelho nas vastissimas regioens do Oriente se embarcou com faculdade dos Superiores a 24 de Março de 1673. Chegando a Goa se aplicou ao estudo da Theologia em que sahio egregiamente instruido, e querendo os Prelados que dictasse Filosofia em Goa se escuzou dizendo, que naõ viera à India buscar aplauzos das Cadeiras, mas trabalhos das Missoens. Acompanhado do Padre Antonio Freyre partio de Goa para Ambalacata nas terras do Malabar, e depois de tolerar por todo o caminho, que era summamente fragozo, diversas molestias chegou a Madurè destinada baliza dos seus apostolicos disvelos. A primeira cultura, que emprendeo foy a Christandade da Residencia de Colley, e do Reyno de Tanjaor levantando huma Igreja em Tatuanqueri onde com ruina de muitos idolos fez adorar o verdadeiro Deos, sofrendo com animo constante a perseguiçaõ de alguns Regulos, e a infidelidade de muitos Gentios, que furiosos o buscavaõ para o privarem da vida. Ao tempo, que assistia em Catur no Reyno de Ginga passou à Costa da Pescaria lugar que muito venerou por ter sido sanctificado com a prezença do Apostolo do Oriente S. Francisco Xavier donde partio para Travancor, e no principio do anno de 1683. estando na Provincia do Cabo que he do Maravá disputou com dous letrados da Gentilidade os quais vendose convencidos o trataraõ com graves ignominias. Envejozo o inimigo comum das muitas almas, que do seu infernal poder extrahia este insigne Varaõ, concitou contra elle horriveis perseguiçoens de que eraõ impios executores os idolatras das Provincias de Vetavanaõ, Tirumualey, e Xengama, sendo a mais sensivel a que padeceo no Reyno do Maravá onde prezo com sinco Catequistas pelas mãos, e pés com grossos grilhoens passou sem comer o espaço de dous dias sendo ludibrio de toda a gentilidade que o aborrecia como instrumento da ruina, e abatimento dos seus idolos. Conduzido da prizaõ à prezença do Rey que o tinha condenado à morte de tal modo se penetrou da vehemente energia com que o Varaõ apostolico lhe explicou os mysterios da nossa Fé, que promptamente revogou a sentença contra elle fulminada. Chamado pelo Provincial do Malabar lhe significou como era precizo passar a Roma para informar ao Geral dos progressos da Missaõ de Maduré. Chegou a Lisboa a 8 de Setembro de 1688. onde foy recebido pela magestade delRey D. Pedro II. com distintas significaçoens de agrado naõ somente pela memoria que conservava do tempo em que no Paço fora moço Fidalgo, mas do apostolico zelo com que tinha promovido a conversaõ da Gentilidade. Determinou o mesmo Monarcha que fosse Mestre de seus serenissimos filhos, porèm agradecendo a honra do ministerio a naõ aceitou protestando a ElRey que o seu magisterio estava destinado para aquellas almas, que jaziaõ sepultadas no abismo da idolatria sendo esta incumbencia a mais nobre, e illustre que todas as dignidades do mundo. Dezenganado de hir a Roma por motivos politicos que lhe impediraõ a jornada resolveo partir sem demora para a India, e vencidos fortes obstaculos armados contra esta resoluçaõ se embarcou no anno de 1690. em cuja viagem experimentaraõ os navegantes os efeitos de seu compassivo coraçaõ assistindo a huns como Confessor, a outros como Medico, e Enfermeiro sem atender ao risco da saude, e ao perigo da vida que quazi esteve agonizante de huma gravissima doença cauzada do continuo trabalho. Tanto que chegou a Goa se embarcou para o Malabar donde se introduzio no Reyno do Maravà situado entre Madurè, e a Costa da Pescaria, do qual era Soberano o Regulo Rauganada-deven, que perfidamente usurpara a seu Sobrinho o Principe Taria-daven. No espaço de quinze mezes foy copiozo o fruto, que o seu ardente zelo colheo nesta agreste vinha pois entre outo mil Cathecumenos, que purificou com as aguas do bautismo, foy o Principe Taria-daven o qual querendo recuperar a saude do corpo, conseguio felismente a da alma. Estimulados os Bramanes desta conversaõ propuzeraõ ao Regulo do Maravà a fatal guerra, que tinha movido contra o culto dos Deoses, e veneraçaõ dos Pagodes aquelle Pregador do Occidente pois se lhe naõ mandava tirar a vida, certamente se extinguia a Ley taõ religiosamente observada por seus Mayores. Condescendeu a estas palavras o Tyrano ordenando que fosse conduzido o Ven. Padre à Corte, e depois de estar prezo vinte, e tres dias em que tolerou as mayores afrontas o mandou vir à sua prezença, e provada com diversos exames a constancia da Fé que pregava, receando algum tumulto o remeteo à Cidade de Urgur distante duas jornadas da Corte. Levado a hum Outeiro eminente ao rio Pamparru foy despojado dos seus vestidos por sinco algozes, que vendo pendente do pescoso hum relicario imaginaraõ ser depozito dos feitiços com que encantava aos convertidos por cuja cauza receando se o tocassem, serem atrahidos do malificio, hum delles cortou com a espada o cordaõ de que pendia, recebendo em hum lado huma penetrante ferida de que começou a manar copioso sangue. Sem demora arremeteraõ furiosamente a prender aquella innocente victima, e atando-lhe as mãos, e barba, que era muito comprida, foy degollado de hum golpe cuja cabeça, mãos, e pés cortados suspenderaõ da cintura do cadaver que arvorado em hum altissimo pao, e exposto por outo dias à inclemencia do tempo, foy comido pelas feras como tinha vaticinado. Com este genero de martyrio consumou a sua apostolica vida o Ven. P. Ioaõ de Brito a 4 de Fevereiro de 1693 confirmando Deos com grande numero de milagres quanto lhe fora agradavel o sacrificio deste seu servo, cuja Beatificaçaõ se espera com devota impaciencia por estar muito propinqua a sua declaraçaõ. Escreveo com estilo elegante a sua vida seu Irmaõ Fernando de Brito Pereira de quem já fizemos mençaõ em seu lugar, a qual sahio impressa. Coimbra no real Collegio das Artes 1722. fol. Delle se lembraõ honorificamente o P. Franco Imag. de Virtud. em o Nov. de Lisboa liv. 4. cap. 15. até 32 e Ann. Glor. S. I. in Lust. p. 55. O P.Manoel Coimbra Epit. da Vid. e morte do V. P. O P. Francisco Laynes Superior da Missaõ de Madurè em huma larga Carta aos Padres da Companhia, que trabalhaõ na dita Missaõ escrita de Madurè a 10 de Fevereiro de 1693 onde relata individualmente as circunstancias do martyrio deste insigne Varaõ. Sahio traduzida em Frances nas Letres Edifiantes, e curieuses, ecrites des Missions Etrangeres. Part. 2. desde pag. 1. até 56. Escreveo o Ven. P. Carta escrita da prizaõ de Maravà estando condenado à morte ao P. Provincial do Malabar o P. Manoel Rodrigues em 30 de Iu1ho de 1686. Sahio na Imag. Da Virtud. assima allegada p. 807. e na Vida do mesmo servo de Deos. escrita por seu Irmaõ. p. 247.

Carta escrita do carcere a 3 de Fevereiro de 1693. ao Padre Francisco  Laynes. Sahio na Imag. da Virtud. p. 833. e na Vida do mesmo servo de Deos escrita por seu Irmaõ. p. 199.

Carta ao P. Ioaõ da Costa Missionario do Malabar escrita do carcere a 3 de Fevereiro de 1693. Sahio na Imag. da Virtude p. 833. e 834.

Quatro Cartas escritas a seu Irmaõ Fernando Pereira de Brito quando veyo da India a Portugal por Procurador Geral da Missaõ. Sahiraõ impressas no fim da Vida do dito Padre escrita por seu Irmaõ pag. 240. até 242.

Carta escrita a seu Irmaõ de Goa a 26 de Ianeiro de 1691.

Carta escrita da Missaõ a seu Irmaõ em 22 de Setembro de 1692.

Sete cartas escritas ao P. Ioaõ da Costa Missonario do Malabar.

Carta ao P. Luis Pereira da Companhia de Iesus escrita de Maduré a 23 de Mayo de 1692.

Carta escrita do carcere ao P. Francisco Laynes Superior da Missaõ de Madurè a 3 de Fevereiro de 1693. He diferente da outra que està assima posta.

Todas estas Cartas estaõ impressas na Vida deste Ven. P. escrita por seu Irmaõ desde pag. 245. até 250.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]