IOAÕ DE BARROS Teve por patria a Cidade de Viseu em a Provincia da Beira onde sahio à luz do mundo em o anno de 1496. e por Pay a Lopo de Barros de geraçaõ nobre por ser neto de Alvaro de Barros Senhor do Morgado da Moreira junto a Braga, o qual foy neto de Martim Martins de Barros hu dos mais antigos Fidalgos desta geraçaõ, cujos ascendantes tomáraõ o appellido do lugar de Barros entre Douro, e Minho onde possuiraõ Morgados, e Lugares com jurisdiçaõ. A escola em que recebeo as primeiras instruçoens foy o Palacio delRey D. Manoel onde naquella idade era custume doutrinar os moços fidalgos em as artes liberaes, e exercicios virtuosos de cuja disciplina sahio Ioaõ de Barros egregiamente instruido na lingua Latina, e Grega, letras humanas, e sciencias Mathematicas. Entre os Poetas elegeo por exemplares a Virgilio, Lucano, e entre os Historiadores a Livio, e Salustio dos quais exactamente imitou a sublimidade do estilo, e a elegancia da narraçaõ. Ornado na idade da adolescencia com tantos dotes scientificos o nomeou ElRey D. Manoel por Moço da Guarda roupa de seu filho o Principe D.Joaõ quando lhe assetou Caza, e como toda a sua inclinaçaõ era a cultura das sciencias nas horas vagas do serviço do Principe compoz no breve espaço de outo mezes a Historia fabulosa do Emperador Clarimundo, que lhe servio de preludio para exercitar o estilo em composiçaõ de mais sublime assumpto. Esta obra ideada, e escrita quando contava vinte annos foy recebida com tanto agrado delRey D. Manoel assim pelo artificio, como pela locuçaõ, que lhe cometeo a alta empreza de narrar as heroicas façanhas, que os Portuguezes tinhaõ obrado em as Regioens Orientaes. Ao tempo que começava abrir os alicesses de taõ magestozo edificio sucedeo passas de mortal a eterno elRey D. Manoel ficando por esta cauza suspensa taõ famosa incumbencia. Entre os Criados de mayor distinçaõ, que no principio do seu Reynado despachou D. Ioaõ 3. foy Ioaõ de Barros nomeando-o Capitaõ de S. Iorge da Mina situada na Africa Austral para onde partio no anno de 1522. Donde voltando com grande credito da fiel administraçaõ da Fazenda Real lhe deu o mesmo Principe no anno de 1525. o Officio do Thezoureiro da Caza da India, Mina, e Ceuta, que servio com summo desinteresse até o anno de 1528. Obrigado do contagio, que no anno de 1530. devastava grande parte dos moradores de Lisboa se retirou para a sua Quinta da Ribeira de Alitem junto da Villa do Pombal onde ocupou o tempo escrevendo algumas obras moraes, e politicas que depois se fizeraõ publicas pela impressaõ. Extincto o contagio se restituhio a Lisboa, e atendendo ElRey D. Ioaõ ao seu merecimento o nomeou Feitor proprietario da Caza da India, e Mina no anno de 1532. cujo officio era de igual authoridade, que rendimento pelo comercio da Asia, e da Africa, porèm ainda que esta ocupaçaõ lhe levava a mayor parte do tempo com a expediçaõ das Armadas, e outros negocios em que era interessada a Coroa, nunca deixou de interromper a liçaõ dos livros para a qual naturalmente era inclinado, de tal sorte que oferecendose a ElRey para escrever a Historia da India, que lhe tinha encomendado seu augusto pay naõ somente lhe aceitou a offerta, mas com honorificas expressoens o estimulou a emprender taõ grande obra que infructuosamente tinha cometido a Lourenço de Caceres Mestre do Infante D. Luiz. Para dezempenhar taõ ardua empreza que facilitava o amor da patria, e a inclinaçaõ ao estudo dedicou todo o tempo que lhe restava das precisas obrigaçoens, e no espaço de onze annos publicou tres Tomos que intitulou Decadas imitando a divisaõ, que Titolivio fizera na Historia Romana, e delle foraõ depois sequazes nas Historias Orientaes, e Ocidentaes Diogo do Couto, e Antonio de Herrera. Mereceo esta obra o mayor aplauzo em toda a Republica literaria pois nella se vem religiosamente observadas todas as leys integrantes da Historia quais saõ verdade, clareza, e juizo. Para naõ ser acuzada a sua penna de menos verdadeira examinou as Chronicas dos Principes do Oriente escritas na propria lingua; extrahio das Cartas dos Vicereys, e Capitaens os sucessos em que a fortuna se mostrou prospera, ou adversa às nossas armas; informouse dos Pilotos mais experimentados em a navegaçaõ daquelles mares, e situaçaõ dos portos de que naceo emendar em diversas partes a Ptolomeo, e Arriano Geografos antigos; narrou com magestosa frase, e elegante pompa as batalhas, os assedios, e as Embaxadas; descreveo as Ilhas, Cidades, e Provincias com tanta certeza das suas alturas que saõ escuzadas as Taboas Geograficas para se saber onde existem. Com summa liberdade reprova os vicios, e louva as virtudes naõ se dexando preocupar de algum afecto lizongeiro como elle protesta na 1. Decad. liv. 3. cap. 12. Pois a Deos aprouve que naõ por officio, mas por inclinaçaõ, naõ por premio, mas de graça, e mais offerecido, que convidado tomasse o cuidado de escrever as couzas, que passaraõ neste descubrimento, e Conquista do Oriente, naõ permitirá, que eu perca algum premio, se o deste trabalho posso ter, trocando, ou negando os meritos de cada hum. As digressoens saõ poucas, mas cheyas de exemplos raros, dos quais se aproveitou Ioaõ Botero nos seus Apothegmas Os discursos abundantes de sentenças politicas, e dellas extrahio Fernando Alvia de Castro huns Aforismos que competem com os de Tacito. Finalmente pela excellencia desta obra mereceo a honorifica antonomazia de Livio Portuguez com que o intitulaõ o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha in Decret. ad cap. Qui de mensa dist. 37. n. 2. D. Franc. Manoel de Mello Epanaf. de Var. Hist. pag. 274. Ioan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Liter. lit. 1. n. 17. Valdes de dignit. Reg. Hisp. cap. 12. n. 7. Fr. Ant. de S. Roman Prolog. da Hist. da Ind. Orient. Cardos. Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 373. letr. A. Telles Chron. da Comp. de Ies. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 6. cap. 9. Fr. Iacint. de Deos Vergel de Plant. cap.1 . pag. 5. Madeira Nov. Philosoph. Part. 1. Tom. 2. disp. 8. n. 8. et dubit. 5. §. 20. Portugal de Donat. Regiis. Tom. 2. Part. 3. cap. 8. n. 71. Fonceca Evor. Glorios. p. 337. Havendo Ioaõ de Barros alcançado taõ gloriosa fama pelos seus escritos, como se sentisse combatido de achaques que se faziaõ mais graves pelos seus annos para gozar do descanso apetecido renunciou no anno de 1567. o Officio de Feitor da Caza da India, cuja dimissaõ lhe aceitou elRey D. Sebastiaõ remunerando o seu merecimento com o foro de Fidalgo da sua Caza com dous mil reis de moradia, e huma Tença de mil cruzados de rende em sua Vida com faculdade de mander vir da India fazendas das quais lhe ficassem liquidos quatro mil cruzados com izençaõ dos direitos, e fretes, e por sua morte sincoenta mil reis de Tença a sua mulher, e cento e sincoenta a seu filho Ieronimo de Barros em quanto o naõ provesse em huma Comenda de mayor quantia. Concluidos estes despachos no principio do anno de 1568. se retirou à sua Quinta da Ribeira de Alitem junto à Villa do Pombal onde pelo espaço de tres annos privado do comercio humano viveo para si obrando açoens merecedoras de premio eterno até que chegada a ultima hora falleceo piamente a 20 de Outubro de 1570. quando contava 74 annos de idade. Foy sepultado na Ermida de Santo Antonio situada alem do rio Arunca no termo da Cidade de Leyria. Teve o rosto alvo, e veneravel, olhos vivos, nariz aquilino, barba comprida, e toda branca, estatura mediana, e delgada, conversaçaõ deleitoza, e juntamente grave, entendimento agudo, erudiçaõ vastissima, feliz memoria que ajudava com a artificial, animo livre, fidelidade summa, e grande desinteresse de tal sorte que podendo com os Officios que administrou deixar ricos a seus filhos antes quiz que fossem legatarios das suas virtudes, que dos bens caducos da fortuna como judiciosamente escreveo em o Dialog. da vicios. vergonh. a seu filho Antonio de Barros. Trabalhei por te naõ envergonhar com edificios que tem a magestade, e  opiniaõ da Torre de Babilonia os quais depois de compostos vem a confusaõ eterna que os divide em tantas linguas, quantas foraõ as achegas de que se fundaraõ, e daqui vem  quantas heranças vemos sem proprios herdeiros, porque como se ajuntaraõ de estranhas fazendas, estranhos as herdaõ. Creme que nunqua alguem perdeo o proprio; e por isso me ficaõ deste meu trabalho duas esperanças, huma que nunqua por elle serás citado pois saõ noites minhas veladas, e a outra que tempo virà em que serei julgado por homem zeloso do bem da patria. Cazou com Maria de Almeyda filha de Diogo de Almeyda do Pombal de quem teve Ieronimo de Barros, Antonio de Barros, e Ioaõ de Barros moços Fidalgos por merce delRey D. Ioaõ o III. dos quais o primeiro se despozou com D. Luiza Soares de quem naõ teve descendencia, e o terceiro morreo na infeliz batalha de Alcacer; Diogo de Barros morto pelos mouros na India; Lopo de Barros Capitaõ de Baçaim, que cazou com D. Maria de Siqueira de quem teve a D. Catherina de Barros mulher de Pedro Peixoto da Sylva; D. Maria de Almeyda; D. Izabel de Almeyda cazada com Lopo de Barros fidalgo da mesma familia; D. Catherina de Barros mulher de Christovaõ de Mello filho de Diogo de Mello da Sylva Vedor da Rainha D. Catherina, e outras duas filhas. Passados quarenta annos que jazia o cadaver deste insigne Varaõ na Ermida de Santo Antonio lembrado o Illustrissimo Capellaõ mór D. Iorge de Attayde Commendatario perpetuo do Mosteiro de Alcobaça de que Ioaõ de Barros fora seu padrinho no bautismo o mandou tresladar para a Capella mór da Igreja Parochial da Villa de Alcobaça onde intentava com generosa idea levantar hum soberbo mausoleo às suas cinzas porem impedido da morte o naõ póde concluir deixando o Epitafio, que nelle se havia gravar, de cuja elegancia se argumenta a magnifica obra, que meditava.

Ioanni Barros cujus scriptorum maiestate non minus Lusitaniae Regibus blandita est Fortuna, quám perfractis Indici Oceani claustris, & subacto Oriente, ne humili solo inter suos delitesceret mortuus, qui exteris nationibus notissimus in omnium ore, atque sermone meritò virtutis, et studiorum laude vivit, Georgius Visiensis Episcopus duorum Philipporum Primi, & Secundi major Capellanus, amico paterno, ac suo optime merenti libens posuit anno 1610. A fama do seu nome se dilatou com tal excesso pelo mundo todo, que mandou o Papa Pio IV. collocar o seu Retrato no Vaticano junto de Ptolomeo, e semelhante lugar lhe deraõ os  Venezianos entre os Varoens mais insignes em literatura. Naõ saõ menores os elogios que à sua penna dedicaraõ celebres Escritores. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. p. 498. col. 1. Virum quidem eximia mentis acie, memoriaque, ac multa bonorum authorium lectione, quorum fidem, judicium, perspicuitatem, atque elegantiam praeter alias virtutes in contexenda Historia Lusitani sui idiomatis fere principe, fuit imitatus. Macedo Flor. de Espan. Cap. 8. Excel. 9. En el historiar fue excellentissimo por la verdad, clareza, y juizo, que en sus Decadas guardò e na Eva, e Ave Part. 1. cap. 42. n. 3. grande Historiador. Fr. Sim. Coelho Chron. do Carm. liv. 2. cap. 6. muy docto, e elegante Pineda de reb. Salom. liv. 4. cap. 1 1 Praeclarum. Pacheco Vid. de la Inf. D. Mar. liv. 1. cap. 4. Gran Escritor, e cap. 7. Insigne Historiador. Maffeo Hist. rer. Ind. lib. 1. gravis author D. Franc. Manoel Epanaf. de Var. Hist. p. 226. famoso Historiador, e Filosofo. Ant. Lud. Tract. de Pudor. que lhe dedicou. Tu eruditione, et nobilitate pruaestas: nulli otii, & negotii ratio magis quam tibi uni constat & perire omne opus arbitraris, quod in libris, literisque non insumatur; dies reipublicae impendis, noctem cum Musis, & ingenuis commentationibus commutas, maioremque omnino partem studio, quám somno tribuis: tuoque ex ore (quod de Nestore scripsit Homerus) melle dulcior profluit oratio. Fr. Manoel da Esperan. Histor. Seraf. da Prov. de Portug. Tom. 2. liv. 12. cap. 24. n. 5. com pena sobre todos elegante fez voar pela largueza do mundo a fama miraculosa do esforço Portuguez. Faria Asia Portug. no Prolog. da 1. Part. n. 6. Varon de antiga capacidad en sciencia, e elegancia. Gandavo Hist. da Prov. de Santa Cruz. cap. 1. Illustre, e famoso escritor. Ambrozio de Morales Chron. De Espan. liv. 1 2. cap. 38. digno de ser mucho alabado por su ingenio, muchas letras y gran juizio. Solorzan. de Jure Ind. Tom. 1. lib. 1. cap. 3 . n. 48. Egregium Scriptorem. Souza Hist. Gen. da Caza Real Portug. Tom. 8. no fim pag. 27. Insigne Escritor… Varaõ verdadeiramente grande. Mem. Hist. dos Escrit. do Carm. pag. 322. celebre, e erudito Escritor. Severim Disc. Var. Polit. pag. 23. Trabalhando toda a vida por illustrar a patria, e deixar de seus naturaes gloriosa memoria.

Compoz.

Chronica do Emperador Clarimundo donde os Reys de Portugal descendem. Coimbra por Ioaõ da Barreira. 1520. fol. & ibi pelo mesmo Impressor. 1553. fol. E Lisboa por Antonio Alvares. 1601. fol. & ibi por Francisco da Sylva. 1742. fol.

Primeira Decada da Asia dos feitos, que os Portuguezes fizeraõ no descubrimento, e Conquista dos mares, e terras do Oriente. Lisboa por Germaõ Galharde aos XXIV. dias de Março de M.D.LIII. fol.

Segunda Decada da Asia. &c. Lisboa pelo dito Impressor, e no mesmo anno fol.

Estas duas Decadas sahiraõ traduzidas em Italiano por Affonso Ulhoa com este titulo.

L’ Asia del S. Giovanni di Barros consigliero del Christianissimo Re di Portugallo de fatti de Portoghesi nello scoprimento, e Conquista de Mari, e Terre di Oriente. Venetia apresso Vincenzo Valgrisio. 1562. 4. 2. Tom.

Terceira Decada da India &c. Lisboa por Ioaõ Barreira. 1563. fol. Sahiraõ estas Tres Decadas reimpressas primorosamente por ordem do Senado de Lisboa. ibi por Iorge Rodrigues. 1628. fol. Absolutissimum caelatumque novem Musis opus, ut Horatio utar (saõ palavras com que o grande Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. pag. 498. col. 2. exalta esta Historia) mansurumque in omnem aetatem cum laude maxima sui artificis. In quo eminet incorrupta fides, luculenta Oratio Livianae aemula, Geographiaeque totius earum partium, quas describit stylo, multa adeo, & accurata cognitio.

Quarta Decada da India. Madrid em a Impressaõ Real 1613. fol. Esta Decada, que ficou imperfeita conservava Luiza Soares nora de Ioaõ de Barros, e viuva de Ieronimo de Barros seu filho mais velho de cujo poder a extrahio no anno de 1591. Filippe I. de Portugal mandando-lhe dar quinhentos mil reis, e cometendo a D. Fernando de Castro Pereira fidalgo de grande talento, e depois a Duarte Nunes de Leaõ muito versado na Historia a coordinaçaõ desta Decada, e como assim hum, como outro naõ efeituassem o intento delRey, foy dada esta incumbencia por Filippe II. a Ioaõ Baptista Lavanha Cosmografo mór do Reyno, que naõ sómente a ordenou, mas illustrou com doutas Notas, e Taboas Geograficas.

Cartinha para aprender a ler. No fim tem estas palavras. A Louvor de Deos;  a da gloriosa Virgem Maria. Acabase a Cartinha com os preceitos, e Mandamentos da Santa Madre Igreja, e com os Mysterios da Missa, e Responsorios della. Imprimida em a muy nobre, e sempre leal Cidade de Lisboa por auctoridade da Santa Inquisiçaõ em Caza de Luis Rodrigues livreiro delRey Nosso Senhor com privilegio Real aos 20. de Dezembro de 1539 4. Nesta obra ensina a ler, e para mayor clareza dos principiantes traz a cada letra do Alfabeto huma figura, que principie pela mesma letra para que fique mais fixa na memoria. Sobre o A huma Arvore, sobre o B huma Bésta e assim em as que se seguem. Foy dedicada ao Principe D. Filippe filho delRey D. Ioaõ o III. que aprendeo a 1er por elle, e como tivesse anexa a Cartilha de D. Fr. Ioaõ Soares Mestre do dito Principe imaginaraõ muitos, que era obra sua, sendo certamente de Ioaõ de Barros.

Grammatica da lingua Portugueza. Olyssipone. apud Ludovicum Rotorigium Typog 1540. 4. No prologo diz. Em a Cartinha passada demos arte para os mininos facilmente aprenderem a ler… fica agora darmos os preceitos da nossa Grammatica de cujo titulo intitulamos a Cartinha &c. Nesta obra traz hum Tratado da Ortografia da lingua Portugueza a fol. 40. e Dialogo em louvor da nossa linguagem &c.

Dialogo da viciosa Vergonha. Olyssipone apud Ludovicum Rotorigium. 1540. 4. No fim. Imprimido em caza de Luiz Rodrigues livreiro delRey Nosso Senhor com privilegio Real aos 12 de Ianeiro de 1540. .4. Nesta obra instrue a puericia com doutrinas oportunas à esta edade, e posto, que era o argumento moral pedio ao insigne Medico, e Filosofo o Doutor Antonio Luiz de quem se fez larga mençaõ em seu lugar, que lhe ministrasse as noticias pertencentes à materia de que escrevia extrahidas da Filosofia natural. A esta suplica satisfez Antonio Luiz compondo o Tratado de Pudore, que ao mesmo Ioaõ de Barros dedicou.

Dialogo de preceitos moraes com pratica delles em modo de jogo. Lisboa por Luiz Rodriguez livreiro delRey N. Senhor. 1540. 4. Saõ interlocutores o author com seus filhos Antonio, e Catherina. Dedicado à Princeza D. Maria, que depois cazou com Filippe Prudente, a qual jogava com seu Pay ElRey D. Ioaõ o III. este jogo de Tabolas reduzindo a elle as Ethicas de Aristoteles onde se introduziaõ as virtudes, e vicios por excesso, ou defeito. Teve intentos de regular a Economia pelo jogo das Cartas, e a Politica pelo Xadres por serem estes jogos os mais communs.

Rhopica Pneuma, ou Mercadoria espiritual. He hum Colloquio metaphorico em que saõ interlocutores o Entendimento, e a Vontade. Lisboa. 1532. 4. Dedicado a Duarte de Resende seu parente. Foy taõ estimada esta obra pelo eruditissimo Luiz Vives, que dedicou a Ioaõ de Barros no anno de 1535. O seu Tratado Exercitationes animi in Deum, e na Dedicatoria lhe diz estas palavras.

Christophorus Mirandus meus declaravit nobilitatem tui generis, tum ingenium, eruditionem, et probitatem, quae ego ex opusculo quodam tuo vestrati lingua conscripto facile perspexi non potui non complecti, et suscipere dotes animi exercitas inter negotia, tam varia, et magna &c.

Panegyrico a muy alta, e esclarecida Princeza Infanta D. Maria Nossa Senhora. Consta de 80 §§. Sahio a primeira vez impresso em as Noticias de Portugal compostas pelo eruditissimo Chantre de Evora Manoel Severim de Faria. Lisboa na Officina Crasbeeckiana. 1655. fol. Segunda vez se imprimio na Vida da mesma Princeza escrita por Fr. Miguel Pacheco religioso da Ordem militar de Christo. Lisboa por Ioaõ da Costa 1665. fol. desde fol. 143. v.° até 164. o qual assim à obra, como a seu author fez o seguinte Elogio. Hizo Barros esta obra con tanta erudicion, y lugares de la Escritura divina, y humana, que haviendo muchas y sus Decadas tan celebres en Europa, la presente en su genero vence todas y la igualan algunos al Panegyrico, que escrivio Plinio a Trajano, que se estima por lo mejor de todo lo que se halla deste gran ingenio, y juizo. Sahio 3. vez em a segunda impressaõ das Notic. de Portug. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonceca. 1740. fol. desde pag. 395. até 430.

Ao muito alto, e muito poderoso Rey de Portugal D. Ioaõ III. deste nome Panegyrico em o anno de 1533. Sahio na segunda Impressaõ das Notic. De Portug. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonceca 1740. fol. desde pag. 287. até 380. He muito extenso, e ornado de erudiçaõ sagrada, e profana.

Obras M. S.

Problemas Moraes. Allega esta obra no Dialogo da viciosa Vergonha.

Exclamaçaõ contra as opinioens, e abuzos do mundo prezente. He obra muito sentenciosa, e cheya de Filosofia moral escrita em mais de 460. Redondilhas derigida com hum largo discurso a seu grande amigo Ioaõ Rodrigues de Sá, e Menezes Senhor de Sever, e Matozinhos, e Alcayde mór da Cidade do Porto, em o anno de 1561.

Começa.

Aquella eterna Mente

Alta luz inacessivel,

En si mesma permanente,

Sem moto, ou accidente,

Naõ sendo comprehensivel,

Por Fé cremos firmemente.

Decada da Africa. Faz memoria desta obra na Dec. 3. de Asa liv. 5. cap. 8. E a teve em seu poder o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha Arcebispo de Lisboa como afirma Manoel de Faria, e Souza no Cathalog. dos livros, que traz ao principio do primeiro Tom. da Asia Portug. n. 81 .

Geographia Universalis. Desta obra fez repetida memoria na Decad. 1. cap. 1. e liv. 4. cap. 2. e Decad. 2. liv. 1. cap. 3. e liv. 8. cap. 4. Era huma combinaçaõ da Geografia antigua com a moderna descrevendo primeiramente dos instrumentos da Navegaçaõ, e depois as situaçoens das Provincias, arrumaçoens das terras, e custumes de seus habitadores. Hum fragmento desta obra conservava seu filho Jeronimo de Barros, que offereceo a ElRey D. Sebastiaõ, e infelismente se perdeo como escreve Faria no Cathal. dos livros collocado ao principio do 1. Tom. da Asia Portug. n. 81. e no Comment. às Lusiad. de Cam Cant. 8. Estanc. 5. afirma, que conservava alguns fragmentos da dita Geografia da qual fez mençaõ o moderno addicionador da Bib. Geograf. de Antonio de Leaõ Tom 3. col. 1319.

Historia natural do Oriente, que consta de plantas, e animaes daquellas Provincias, e das obras artijiciaes pertencentes à comutaçaõ, e comercio de ambas estas materias. Desta obra se lembra na Decad. 1. liv. 6. cap. 4.

Summario, que trata das Provincias do mundo em especial das Indias assi de Castella, como das de Portugal; e trata largamente da arte de marear Juntamente com a espera em romance com o regimento do sol, e do Norte, e outras derrotas, e alturas das terras, e com outras muitas outras couzas necessarias aos Navegantes. fol. Conserva-se na Livraria do Excellentissimo Marquez de Abrantes, e parece ser o Original. Começa. Aveis de saber, que assi como os circulos dos Orizontes. &c.

Historia dos Reys da Persia, Graõ Tamorlaõ, e Preste Ioaõ. Ficou incompleta, e se conserva na Bib. Real.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]