Fr. IOAÕ DE S. BERNARDINO. Naceo na Cidade de Lisboa em o anno de 1577 para credito da Serafica Provincia de Portugal cujo penitente instituto abraçou no real Convento de S. Francisco da sua patria em o anno de 1594. quando contava desasete de idade onde exercitou a sua ardente charidade assistindo aos religiosos feridos do contagio, que devastava aos moradores de Lisboa. Teve por Mestre das sciencias severas a Fr. Bernardino de Sena que de Geral da Ordem passou à Mitra de Viseu bastando este discipulo para immortal credito do seu magisterio. Instruido eminentemente nos preceitos da Rhetorica, dificuldades da Filosofia, e mysterios da Theologia se aplicou ao estudo da lingua Hebraica para mais profundamente penetrar os textos da Sagrada Escritura, e sahindo taõ inteligente que nunca pregava sem que primeiramente consultasse o texto hebraico donde extrahia solidas doutrinas afirmando que era hum Reyno abundante de preciosos thesouros ocultos a muitos engenhos, que se naõ animavaõ à sua Conquista. Consumado o seu magisterio Theologico no anno de 1623. foy eleito Secretario de Fr. Bernardino de Sena seu Mestre, Comissario Geral naquelle tempo da Familia Cismontana. Igualmente na Cadeira como no pulpito brilhou o seu agudo talento naõ somente neste Reyno, e o de Castella, mas em a Curia Romana gostando muito da sua judiciosa conversaçaõ a Santidade de Urbano VIII. principalmente quando o ouvia na sua Capela a cuja elegante energia estava suspenso o Collegio Cardinalicio. Assumpto a Geral da Ordem Serafica Fr. Bernardino de Sena em o Capitulo celebrado no Convento de Aracaeli a 17 de Mayo de 1625. o nomeou Procurador Geral de toda a Ordem em cujo lugar mostrou a zeloza actividade do seu espirito defendendo os privilegios, e authoridade da Observancia contra as maquinas dos Claustraes, Recolletos de Espanha, e Religiosos de França intentando os primeiros que o Generalissimo da Observancia se naõ intitulasse Ministro Geral de toda a Ordem Serafica, e pertendendo os Hespanhoes, e Francezes separarse da sua obediencia, e posto, que foraõ protegidos pela soberania dos seus Principes naõ alcançaraõ os efeitos de seus injustos designios. Tendo exercitado pelo espaço de tres annos, e meyo o lugar de Procurador Geral se restituhio a Portugal onde em premio do zelo que practicara em beneficio da Religiaõ foy eleito Provincial a 25 de Novembro de 1629. em cujo ministerio deixou a mais prudente direçaõ para os seus sucessores. Exaltado ao trono de seus Avòs o Serenissimo Rey D. Ioaõ o IV. em o 1 de Dezembro de 1640. foy elle o primeiro Orador, que no dia da purissima Conceiçaõ da Senhora lhe deu em nome do Reyno os parabens da Coroa, que tinha cingido. Este Sermaõ, e outro que pregou no dia seguinte na Cathedral de Lisboa foraõ duas doutissimas Apologias que justificavaõ a acçaõ dos Portuguezes aclamadores da Magestade de D. Ioaõ o IV. contra os quais se armou inutilmente a penna dos defensores da intrusaõ Castelhana. Nas materias mais graves era sempre confultado pelas principaes pessoas da Corte seguindo sempre o seu voto por ser fundado em os dictames de huma conciencia timorata, e nas resoluçoens dos Doutores mais insignes. Nunca pertendeo lugar algum, antes os que exercitou na Religiaõ foraõ aceitos com manifesta repugnancia. Foy taõ austero no comer, como parco no fallar, de tal sorte que sendo provocado pela indiscreta loquacidade de alguns domesticos naõ proferia palavra, que indicasse a menor alteraçaõ do animo. Na vespera da Ascençaõ de Christo do anno de 1650. o acometeo huma parlesia que o privou do movimento de meyo corpo, e como lhe permitia passar o tempo com a liçaõ dos livros tolerava constantemente a gravidade do achaque até que passados sinco annos recebidos com summa piedade os Sacramentos expirou a 26 de Iulho de 1655 . no Convento de S. Francisco da Cidade quando contava 78 annos de idade e 61 de religioso. Fazem celle illustre memoria Fr. Manoel da Esperança Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 2. cap. 20. n. 6. e Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf. Part. 3. liv. 1. cap. 21. e Part. 5. liv. 3. cap. 33. Cardoso .Agiol. Lusit. p. 140. col. 2. Varaõ digno de todo o louvor, grande em sciencia, mayor em Religiaõ Reconhecido em toda Hespanha pela Predica o qual na Ordem obteve por muitas vezes os mais authorizados cargos della grangeados por sua muita prudencia, e suave governo. E certo, que se a Provincia de Portugal naõ tivera muitos sogeitos insignes em letras, este sòmente bastava para a acreditar, e honrar. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. I. n. 20. Vir doctus, & eruditus. Fr. Petr. de Alva Milit. Concept. col. 734. Fr. Ioan. a D. Ant. Bib. Francisc. Tom. 2. p. 136. col. 15. Compoz.

Sermaõ da Immaculada Conceiçaõ da Mãy de Deos feito na Capella Real assistindo nella a primeira vez S. Magestade outo dias depois da sua aclamaçaõ. Lisboa por Antonio Alvres Impressor delRey. 1641. 4.

Sermaõ do segundo Domingo do Advento nono dia de Dezembro, e da Aclamaçaõ delRey D. Joaõ o IV. Lisboa pelo dito Impressor. 1641. 4.

Foraõ traduzidos nas linguas Franceza e Italiana, e discorreraõ com aplauzo por toda a Europa como affirma Fr. Fernando da Soledade no lugar assima allegado n. 818.

Sermaõ das Exequias do Serenissimo Infante D. Duarte na Santa Sé Metropolitana de Lisboa. Lisboa por Antonio Alvres Impressor delRey. 1650. 4.

Constituiçoens dos Cavalleiros da Ordem Militar da Immaculada Conceiçaõ da Virgem Santissima, que debaixo da Regra de S. Francisco instituiraõ com authoridade Apostolica em o anno de 1625. Fernando Gonzaga Duque de Mantua, Carlos Duque de Nevers, e Adolpho Conde Althan, divididas em 10. Capitulos. Foraõ confirmadas pela Santidade de Urbano VIII. em o 3. anno do seu Pontificado. Dellas como de seu Author fez memoria Gubernatis Orbis Seraphic. Tom. 2. lib. 13. cap. 2. n. 12. pag. 931. Die 20 Maii 1625 . ipsorum Statuta confirmavit, quibus ordinandis praefixum fuisse prae caeteris Fr. Joannem de Sancto Bernardino ex Provincia Portugalliae insgnem Theologum tunc temporis in Romana Curia Generalem Commissarium &c.

 

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]