D. IOAÕ DE CASTRO decimo quarto Governador, e quarto Vicerey do Estado da India nobilitou com o seu nacimento a famosa Cidade de Lisboa onde vio a primeira luz a 27 de Fevereiro de 1500. Foy filho 2. de D. Alvaro de Castro Governador da Caza do Civil, e de D. Leonor de Noronha filha de D. Ioaõ de Almeyda segundo Conde de Abrantes. Aprendeo as disciplinas Mathematicas com Pedro Nunes Oraculo desta profissaõ naquella idade de cuja escola em que teve por companheiro o Serenissimo Infante D. Luiz, sahio profundamente instruido; porem como o seu genio fosse mais inclinado às armas, que às letras elegeo para preludio das suas açoens militares a Praça de Tangere distinguindo-se neste bellicoso theatro com tal excesso dos mayores soldados, que mereceo ser armado Cavalleiro por D. Estevaõ de Menezes Governador da mesma Praça. Restituido à Corte, e remunerado por ElRey D. Ioaõ III. com a Comenda de Salvaterra se embarcou na formidavel armada, que Carlos V. expedio para a Conquista do Reyno de Tunes violentamente usurpa do pela cavilloza industria do Pirata Barbaroxa em cuja expediçaõ naõ aceitando a honra de ser armado Cavalleiro pelo Cesar Austriaco, e muito menos o donativo de dous mil cruzados mostrou, que servia ambicioso da fama, e naõ do premio. Havendo adquirido immortal gloria nas Campanhas de Africa anhelando o seu espirito a mais dilatada esfera navegou para a Asia em o anno de 1538. com o Governador do Estado D. Garcia de Noronha seu cunhado levando por companheiro a seu filho D. Alvaro de Castro o qual educado para Heroe lhe dava por divertimento da idade de treze annos que contava, os perigos de taõ prolongada viagem. Tanto, que chegou a Goa partio com summo alvorosso ao socorro de Dio, que heroicamente defendia o famoso Antonio da Sylveyra como vaticinando os celebres triumfos, que havia de alcançar naquella Praça Oriente da sua gloria, e fatal Ocazo da potencia de Cambaya. Na Armada em que empenhou a authoridade da pessoa, e o poder do Estado o Governador D. Estevaõ da Gama para queimar as Gales do Turco fabricadas no Porto de Suez, foy com o posto de Capitaõ de hum Navio observando no estreito do mar roxo como Filosofo natural, e perito Astrologo, a altura do Sol, os impulsos, e movimentos naturaes das crecentes do Nilo, nas monçoens do Estio, cujas observaçoens deixou eternizadas pela sua penna emula da sua espada. Voltando a Portugal naõ permitio ElRey, que despisse as armas nomeando-o General das Armadas da Costa, e sahindo no anno de 1543. a comboyar as Náos, que se esperavaõ da India avistou hum pirata Francez, que com 7 Navios infestava os nossos mares, e depois de hum porfiado combate o rendeo lançando duas Náos ao fundo, e salvando-se as outras por beneficio da noute. Pouco foy o tempo que descansou à sombra deste triumfo porque para mayor empreza o convidou a fortuna. Certificado D. Joaõ o III. de que o inimigo comum aprestava huma formidavel armada para conquistar a Praça de Ceuta expedio huma armada da qual o nomeou General, e unida com a do Emperador Carlos V. surgio á vista de Gibraltar, e posto que D. Alvaro Baçan General da armada Imperial recuzou peleijar com os inimigos, D. Joaõ de Castro regulando as suas açoens pelos impulsos do seu heroico coraçaõ, se deteve pelo espaço de tres dias esperando o conflicto do qual fugio Barbaroxa receozo de ser despojo das nossas armas. Recolhido ao porto de Lisboa onde a fama tinha divulgado o valor intrepido do seu peito se retirou à Villa de Cintra para evitar os aplauzos merecidos á grandeza do seu coraçaõ. Habilitado com o exercicio de tantas emprezas militares lhe entregou o governo do Estado da India a Magestade de D. Ioaõ o III. esperando da prudencia do seu juizo, e da Valentia do seu braço o conservaria impenetravel a todos os Potentados da Asia. Partio para Goa embarcado em a Náo S. Thome a 17 de Março de 1545. acompanhado de seus filhos D. Fernando, e D. Alvaro, q na escola de taõ grande Pay aprenderaõ a arte de immortalizar os seus nomes na posteridade. Depois de edificar nova Fortaleza em Moçambique ferrou Goa a 10 de Setembro onde foy magnificamente recebido por seu antecessor Martim Affonso de Souza, e aplaudido pela sincera voz do povo, que fatidicamente augurava as felicidades dispensadas pelas prudentes maximas do seu governo. O prologo das vitorias com que estabeleceo a conservaçaõ do Estado, e humilhou o orgulho de seus inimigos foy a derrota de dez mil barbaros capitaneados por Acedecaõ valeroso Turco General do Hidalcaõ, que experimentando o furor das nossas armas igualmente na ruina dos seus exercitos, como em o incendio das principaes Cidades do seu dominio, pedio humilde pazes, que lhe foraõ benevolamente concedidas. Mais glorioso triumfo lhe offereceo a fortuna em a celebre Fortaleza de Dio, que governava D. Ioaõ Mascarenhas grande pelo nacimento na Europa, mayor pelo valor na Asia, cujos muros sendo segunda vez invadidos pela obstinada resoluçaõ delRey de Cambaya Soltaõ Mamude havendo rebatido os Portuguezes formidaveis  assaltos derigidos pela militar disciplina de Coge sofar, e seu filho Rumecaõ, sahio a campo, e depois de huma bem disputada batalha em que tres vezes se formou o inimigo para novo conflicto se coroou triumfante com a morte de sinco mi1 barbaros, seiscentos cativos, quarenta peças de artilharia cujos despojos serviraõ para lhe authorizar o triunfo com que foy recebido em Goa por ter abatido o mais arrogante antegonista da Magestade do Estado agora felismente renacido pelos impulsos da sua fulminante espada. Desta memoravel vitoria foraõ prosperas consequencias a derrota dos Achens no rio Parlès vaticinada pelo apostolico espirito de S. Francisco Xavier; os incendios das Cidades de Baroche, Pate, e Patane, e a assolaçaõ da Costa de Surrate em cujas prayas prezentou batalha a ElRey de Cambaya, que timido naõ quiz aceitar. O disvelo continuo com que atendia pela conservaçaõ do Estado unido aos incommodos experimentados em tantas campanhas lhe foraõ diminuindo com tal excesso a saude, que cahio gravemente enfermo, e conhecendo pelos symptomas ser mortal a doença entregou o governo em paz firmada sobre tantas vitorias. Convocou as pessoas principaes de ambas as Jerarchias, e na sua prezença jurou, que até a hora em que estava naõ era devedor à Fazenda Real de hum só cruzado, e que desta declaraçaõ se fizesse hum termo legal para que se fosse achado perjuro o castigasse ElRey como reo de taõ feyo delicto. Para director da sua conciencia elegeo o insigne Operario Evangelico S. Francisco Xavier o qual lhe assistio em toda a enfermidade com cuidado de enfermeiro, e piedade de Santo. Havendo recebido com grande ternura o Sagrado Viatico, e a Extrema-Unçaõ conferida pelo Bispo D. Ioaõ de Albuquerque expirou placidamente a 6 de Iunho de 1548. quando contava 47 annos tres mezes, e dez dias, e quasi tres de governo o qual lhe prorogava D. Ioaõ o III. por outros tres com o titulo de Vicerey se a morte envejosa da sua fama o naõ privara da vida digna de mais larga duraçaõ. Foy depositado o seu Cadaver no Convento de S. Francisco de Goa donde foy tresladado para a sumptuoza Capella, que seu Neto o Illustrissimo Bispo da Guarda D. Francisco de Castro edificou no Claustro de S. Domingos de Bemfica distante huma legoa de Lisboa na qual em hum Mausoleo formado de varias pedras, que descansaõ sobre Elefantes de pedra negra estaõ recolhidas as Cinzas deste insigne Heroe com o seguinte Epitafio.

  1. Joannes de Castro XX. pro Religione in utraque Mauritania stipendiis factis, navata strenue opera Thunetano bello; Mari rubro felicibus armis penetrato; debellatis inter Euphratrem, & Indum Nationibus: Gedrosico Rege, Persis, Turcis uno praelio fusis; servato Dio, imò Reipublicae reddito dormit in magnum diem, non sibi, sed Deo Triumphator; publicis lacrymis compositus, publico sumptu prae paupertate funeratus. Obiit Octava Id. Junii anno 1548. Aetatis. 48. Foy cazado com sua prima segunda D. Leonor Coutinho filha de D. Leonel Coutinho, e D. Mecia de Azevedo de quem teve D. Miguel de Castro, que falleceo Capitaõ de Malaca; D. Fernando, que morreo abrazado na mina do Baluarte de Dio, e D. Alvaro glorioso emulo das vitorias de taõ grande Pay o qual pelos seus insignes merecimentos foy Embaxador a Castella, França, Roma, e Saboya Conselheiro de Estado, e Vedor da Fazenda delRey D. Sebastiaõ. A sua vida escreveo com elegante, e discreto estilo o incomparavel Jacinto Freyre de Andrade fazendo com a sua penna taõ illustre a memoria de D. Ioaõ de Castro depois de morto, como elle a fizera vivo pela sua espada cujo caracter dibuxou com estas eloquentes cores no Liv. 4. §. 110. Com igual semblante o viraõ as incomodidades da patria, e as prosperidades do Oriente parecendo sempre o mesmo homem em diversas fortunas. Fez brio de merecer tudo, e de naõ pedir nada. Fazia razaõ, e justiça a todos igualmente sendo nos castigos inteiro, mas taõ justificado, que mais se podiaõ queixar da ley, que do ministro. Era com os soldados liberal, e com os filhos parco mostrando mais humanidade no Officio, que na natureza. Tratava com grande respeito as açoens de seus antecessores honrando até aquellas de que se apartava. Sem estragar a cortezia conservou o respeito, sempre zelou a cauza de Deos primeiro, que a do Estado; nenhuma virtude deixou sem premio; alguns vicios deixava sem castigo melhorando assi muitos, huns com o beneficio, outros com a clemencia. Os Donativos que recebia dos Principes da Asia mandava carregar na Fazenda Real, virtude que louvaraõ todos, imitaraõ poucos. Os Soldados enfermos achavaõ nelle lastima, e remedio; a todos obrigava, e parecia devedor de todos. Nenhuma façaõ emprendeo que naõ conseguisse sendo nas execuçoens promptissimo, maduro nos Conselhos. Entre ocupaçoens de Soldado conservou virtudes de Religioso; era frequente em vizitar os Templos, grande honrador dos Ministros da Igreja, compassivo, e liberal com os pobres; devotissimo da Cruz, cujo sinal adorava com inclinaçaõ profunda sem diferença do lugar, ou tempo. Na Villa de Cintra possuia huma Quinta chamade Penha Verde plantada toda de arvores sylvestres para onde algumas vezes se retirava a passar o tempo em ocio proveitoso; nella dedicou huma Ermida à Virgem Santissima, e na portada se lè gravada em huma pedra a seguinte inscripçaõ. Ioannes Castrensis cum viginti annos in durissimis bellis in utraque Mauritania pro Christi Religione consumpisset, & in illa clarissima Tunetis expugnatione interfuisset, atque tandem sinus Arabici litora, &omnes Indiae oras non modo lustrasset, sed literarum monumentis mandavisset Christi numine salvus domum rediens Virgini Matri Fanum ex voto dicavit anno 1542. Na mesma Quinta edificou D. Francisco de Castro Inquizidor Geral, e Neto deste Heroe sobre hum elevado monte chamado o das Alvissaras que pedio D. Ioaõ de Castro pela celebre Victoria de Dio, huma Capella dedicada a insigne Martyr, e Sabia Doutora Santa Catherina em cujo retabolo, como vimos está hum grande quadro de jaspe, e nelle primorosamente aberto, e reprezentado o certame que a mesma Santa teve com os Filosofos em Alexandria. Defronte desta Capella está huma Cruz grande de marmore arvorada sobre o monte, e na parte inferior se lé gravada esta elegantissima inscripçaõ. D. Ioannes de Castro India, Prorex, Augustus, Felix, Pius, Triumphator collem hun á Rege tantùm pro Asia de victa postulatum victrici Crucis Labaro consecrandum reliquit. Episcopus D. Franciscus á Castro nepos votum soluit onno Christi 1641. As virtudes moraes, e proezas militares com que eternizou o seu nome este famoso Heroe foraõ assumpto das penas dos mais insignes Escritores dos quais para immortal padraõ da sua memoria se relataraõ os Elogios. O primeiro, e o mayor de todos seja o que lhe fez o Taumaturgo do Oriente S. Francisco Xavier em huma carta escrita ao P. Ignacio Martins da Companhia de Iesus mandada de Goa a 28 de Outubro de 1548. cujo original, que vimos, se conserva na Serenissima Caza de Bragança, e sahio por minha deligencia impressa na Vida deste Heroe composta por Iacinto Freyre de Andrade da impressaõ de 4. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonceca 1736 La impensada muerte del Virey D. Iuan de Castro dexó deshauciado a todos estos pueblos, y sierto perdió S. A. en el el mejor bassallo, que podia desearse, y aun si nó siente su muerte que pensé fue sueño, la Compania mas que todo, que si en su vida fue espejo de la virtud, y del valor, en su muerte fuè verguença alos Ecclesiastes, y assombro a los Seglares; a los Ecclesiastes porque su muerte no parecia si nó de angel se dizir se puede, y a los seglares porque echó la baliza de la cudicia mas de raya dexando en el desprecio de los bienes profanos una memoria de que puede llebantarse estatua estimando en tanto la pobreza que aun para la comida de su dolencia pidio prestado, y con tan limpias manos de la hazienda real que al punto de morirse dio testiimonio jurado que por la cuenta, que tenta que dar a su Creador nada ni valor de un Xarafim era deudor; dio el espirito al Señor con tantas muestras de justo, que en mi estimacion boló al cielo, y si nó no sé que seré yo. Maffeus. Hist. Ind. lib. 13. Vir omnium consensu aeque belli, ac pacis artibus clarus. Couto Decad. da Ind. 6. liv. 6. cap. 9. Foy bem instruido nas artes liberaes, e taõ bom latino que podia julgar de estilo… Foy muito inclinado, e afeiçoado á Mathematica… servio com muito zelo, amor, inteireza, e pouca cubiça. Mariz Dialog. de Var. Hist. Dial. 5. cap. 1. sendo grandissimo Mathematico, e em outras scientificas excellencias illustrissimo: era tambem de sua pessoa taõ esforçado, como em letras insigne. Fr. Ant. de S. Roman Hist. de la Ind. liv. 4. cap. 6. illustre Capitan, y famoso Vicerey. Souza de Maced. Flor. de Espan. cap. 12. excel. 1. Excellente Governador. e cap. 18. excel. 2. insigne. Solorzan. de Iur. Ind. Tom. 1. lib. 1. cap. 3. n. 48. insignis Indiarum Prorex. Telles Chron. do Comp. da Prov. Part. 2. liv. 6. cap. 59. n. 9 e na Hist. da Etiop. Alt. liv. 1. cap. 9. famoso. Barros Decad. 4. da Ind. liv. 10. cap. 19. Lucena Vid. do Santo Xavier. liv. 6. cap. 2. como fez a muitos ventagem no esforço militar, assi lhe fizeraõ poucos na cortezia, estima da virtude, zelo da piedade e Religiaõ Christãa. Faria Asia Portug. Tom. 2. Part. 2. cap. 1. Varon excellente por sangre, por estudios, y por talento, e no Coment. às Rim. de Cam. Tom. 1. pag. 300. meretissimo por quantas partes y virtudes se pueden juntar a comportar un Heroe. Pereira Hist. de D. Luiz de Attayde liv. 2. cap. 7. cuja gloriosa memoria, e desacustumados merecimentos naõ sofrem ser em historia da India nomeado singelamente. Pois juntas a tanta grandeza de animo, e a hum taõ raro valor das  armas se viraõ resurgir neste Capitaõ as mais esquecidas virtudes da continencia, e desenteressada pureza da antiguidade Romana com espirito temperado mais manso, que Severo, em que se achou sempre hum puro, e verdadeiro concerto de vida virtuosa. Clede Hist. de Portug. Tom. 2. pag. mihi 2. Castro joignoit aux vertus civiles les vertus guerrieres, e l’on peut le compter au rang de ces hommes rares que la nature ne produit que de loin en loin. Fonceca Evor. Glorios. pag. 149.  espirou com sentimento universal de toda a Asia Christãa, que devia á sua piedade a conservaçaõ, e propagaçaõ da Fé, e ao seu valor a segurança, e liberdade. Lafitau Conq. de Portug. Tom. 2. liv. 12. pag. mihi 418. Tous ces traits que peuvent le metter en parallele avec les Heros de l’ancienne Grece, e avec les grands hommes des premiers áges de la simplicitè Romaine font mieux son eloge que je pourrois ajoùter pour tracer son caractere, e embellir son portrait. Fr. Ioan. De Luc. Contin. Annal. Minor Luc. Wadingi Tom. 18. ad an. Christi 1546 p. 195. n. 131. Vir omnium consensu aeque belli, ac pacis artibus clarus. Sousa Orient Conquist. Part. 1. Conq. 1. Divis. 1. §. 37. Navegou seguro no porto da eternidade como pode presumir a mais acertada prudencia das virtude de sua vida, e das circunstancias da sua morte Leytaõ Mem. Chronol. da Universidade de Coimb pag. 505. n. 1086. preclarissimo espelho de Heroes. Souza Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 3. p. 483. insigne varaõ ornado de tantas virtudes como valor. A os Historiadores correspondem com armonica suavidade os Poetas dedicando metricos aplauzos à

memoria de taõ grande Heroe. O divino Camoens Lusiad. Cant. 1. Estanc. 14.

Albuquerque terrivel, Castro forte,

E outros em quem poder naõ teve a morte.

E no Cant. 10 Estanc. 72.

Este depois em campo se aprezenta

Vencedor forte, e intrepido ao possante

Rey de Cambaya, e á vista lhe amedrenta

Da fera multidaõ quadrupedante.

Naõ menos suas terras mal sustenta

O Hidalcaõ do braço triunfante,

Que castigando vay Dabul na Costa

Nem lhe escapou Pondà no Sertaõ posta.

Diogo Bernardes Cart. que he a 23 a D. Fernando Alvres de Castro Neto deste Heroe.

Nunca à sombra do frexo, nem da faya

Creou Torquatos, Fabios, Scipioens;

Nem quem por sima delles poz a raya

Aquelle q entre os mais claros varoens

A palma se lhe deve afirmar posso

Isto sem consultar opinioens

Aquelle graõ guerreiro aquelle nosso

Invencivel Avó graõ Visorey

De Castro D. Ioaõ espelho nosso.

Ah Senhor D. Fernando, que direi!

De quem por todo o mundo dizem tanto

Se com tal intençaõ naõ comecei!

Somente por retrato raro, e Santo

Das armas, do saber, da Cortezia

Quiz illustrar com elle este meu canto

Que para o celebrar mister havia

Hum estilo mais alto, e levantado

Do que Satyra pede, ou Elegia

Deixou-vos o caminho abalizado

Por onde foy soberbo ao claro templo

Á sempiterna fama dedicado.

Manoel de Faria, e Souza Fuent. de Aganip. Part. 1. Cent. 3. Sonet. 34.

Moriste ò Juan con nuebas circunstancias

De valor, pues al tuyo raro toca

Hazer, que com perceptos dessa boca

Hagan obras d’essa alma consonancias.

De esplendor haciendo exorbitancias

Si el curso del vivir se te revoca

Livre tu alma de su estrecha roca

De tierra a Cielo mide las distancias.

Estrecha bien, que al fin nó fue desnuda

De su cuerpo alma tal por edad fria

Ni por golpe violento, ó fiebre aguda:

Mudar fuè, no morir, que apetecia

Buscar un Cielo en que caber sin duda,

Que sin duda en un cuerpo nó cabia

Gabriel Pereira de Castro Ulyssea Cant. 7 Estanc. 113. e 114.

Embraçado o escudo rutilante

Vem o famoso Castro com presteza

A socorrer os seus, elle diante

Pouco estimando a perigosa empreza.

Armado sahe de hum animo constante Desprezador da vida, e só se preza

Da alta virtude, que a seu braço unida

A India toda o teme, e faz timida.

Tal preço de sua barba, e tal valia

Teraõ só dous cabelos, que o thesouro

Mayor do sol (com seus rayos cria

Nas grandes veyas cujo sangue he ouro)

Menos estima tem, que a quanto a fria

Noite esconde, e descobre Apollo louro,

Tocando o mais remoto paralelo

Excede desta barba hum só cabelo.

Barbosa Archiath. Lusit. pag. 83 .

Ecce maris domitor generosus Castrius urbem

Indica quá prudens, & justus regna gubernat

Deserit obsessis laturus classe salutem

  1. Thomaz de Bem Castreidos lib. V. pag. 110.

Gloria Lusiadum, ductor clarissime, Castre

Sat ferro, belloque datum, sat Marte cruento

Quid valeat tua dextra, rubens jam sanguine Maurus

Fractaque turbatae testantur cornua Lunae

Othomanae quando praeclarum optare triumphum

Non aliud, quam ferre fuit, quàm vincere, velle.

Vicisti; asseruit se se, rupitque catenas

Urbs tandem, &fastus decoravit grata triumpho.

Cedat Alexander spoliis Orientis onustus

Nunc tibi, concedat Scipio Carthagine victá:

Pompeius, Caesar, Marius, vel fortis Achilles,

Heroes sileant veteres; quos fama volucris

Altitonante tuba mirum super extulit astra &c.

Compoz.

Roteiro da viagem, que fez deste Reyno para a India com o Vicerey Garcia de Noronha no anno de 1538. e do que fez de Goa até Dio. Dedicado ao Infante D. Luiz. Estas duas obras, que alguns Authores intitularaõ Commentarios Geograficos os tinha promptos para a impressaõ Fr. Fernando de Castro religioso Dominico neto do author de quem se fez memoria em seu lugar, e se conservaõ M. S. na Livraria do Collegio dos Padres Jesuitas de Evora como escrevem Maffeo Hist. Ind. lib 13. no fim, e Fr. Ant. de Roman Hist. Orient. liv. 4. cap. 6. Fallando desta obra o eloquentissimo Jacinto Freyre de Andrade Vid. de D. Ioaõ de Cast. liv. 4. §. 110. Nas horas, que lhe perdoavaõ os cuidados da guerra descreveo em copioso tratado toda a Costa, que jaz entre Goa, e Dio sinalando os baixos, e recifes; a altura da elevaçaõ do Polo em que estaõ as Cidades, restingas, angras, e enseadas, que formaõ os portos, as monçoens dos ventos, e condiçoens dos mares, a força das correntes, e impeto dos rios, arrumando as linhas em taboas diferentes, tudo com taõ miuda, e acertada Geografia, que o podera esta só obra fazer conhecido, se já o naõ fora tanto pelo valor militar.

Roteiro da viagem da India atê o Estreito de Sués. A esta obra fazem grandes Elogios diversos authores como saõ Andrade Vid. de D. Ioaõ de Castro liv. 1. n. 19. Em todas estas angras, e enseadas da boca do Estreito até Suez foy D. Ioaõ de Castro tomando o sol, e fazendo roteiro formando juizo já de Filosofo natural, e já de marinheiro mostrando como caminha cega a experiencia rude dos Pilotos sem os preceitos da arte e liv. 4. §. 110. Obra util, e grata aos navegantes. Faria Asia Portug. Tom. 2. Part. 1. cap. 3. n. 5. tomando en esta ocasion ora la espada, ora la pluma fue describiendo con mucha justificacion en estilo, y lengua Ciceroniana aquelles mares, aquella costa. e no Coment. das Luziad. de Cam. Cant. 5. Estanc. 19. Fr. Ant. Roman. Hist. Orient. liv. 4. cap. 6.

Livro das merces que fez na India M. S.

Cartas que escreveo. e das respostas que teve de D. Ioaõ o III. 5. Tom. M. S.

Outo livros do governo que fez na India ordenados por elle. M. S.

Carta a Aleixo de Souza Chichorro Vedor da Fazenda da India. He reposta a huma que elle lhe escreveo na qual o increpa de ambicioso. He larga, e judiciosa. Começa. Guardei hum pouco em responder á vossa carta.

Carta escrita de Dio ao Senado de Goa em 23. de Novembro de 1546. Sahio impressa na Vid. deste Heroe escrita por Iacinto Freyre de Andrade liv. 3. §. 29.

Relaçaõ do que passou no sitio de Dio. M. S. Desta obra faz memoria o moderno addicionador da Bib. Orient. de Antonio de Leaõ Tom. 1. Tit. 3. col. 65.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]