P. IOAÕ DE ARRUDA natural da Villa do seu appelido distante seis legoas de Lisboa para o Nacente. Foy educado por hum seu Tio Prior da Igreja Parochial de Nossa Senhora da Salvaçaõ da mesma Villa, e logo mostrou o genio que tinha para as cerimonial Ecclesiasticas, como sciencia da Musica, para regular o Coro. Ordenado de Presbitero como fosse venerado pela innocencia dos custumes o elegeo seu Capellaõ o Infante D. Fernando filho do Serenissimo Rey D. Ioaõ o I. e por insinuaçaõ do mesmo Principe foy Mestre da Capella real de Affonso V. devendose à sua pericia a reforma de muitos abuzos que se tinhaõ introduzido nos Officios Divinos. O mesmo Infante D. Fernando quando no anno de 1429. acompanhou a sua irmaã a Senhora D. Izabel para se despozar com Filippe o Bom terceiro do nome, Duque de Borgonha o levou em sua companhia juntamente com o Mestre Ioaõ, e Martim Lourenço bazes fundamentaes da Congregaçaõ dos Conegos Seculares neste Reyno, e da comunicaçaõ destes insignes Varoens se lhe acendeo o dezejo para deixar o mundo cuja resoluçaõ restituido ao Reyno promptamente executou recebendo o habito Canonico no Convento de Villar de Frades onde exercitou com assombro de domesticos, e estranhos as virtudes mais heroicas. Pelo espaço de doze annos naõ sahio fora do Convento fugindo de todo o comercio humano, e anhelando unicamente pela contemplaçaõ das delicias celesciaes. Para beneficio da sua Congregaçaõ foy obrigado pelos Superiores passar a Roma cuja jornada fez a pé suprindo o valor do espirito a debilidade do corpo cauzada pelo numero dos annos, e rigor das penitencias. Concluidos felismente os negocios na Curia partio para Veneza onde admirou a observancia dos Conegos da Congregaçaõ de S. Iorge em Alga, e aprendeo algumas regras conducentes para a perfeiçaõ do Canto Ecclesiastico, e culto Divino. Restituido a Portugal buscou logo o Convento de Villar onde acometido de humas acerbissimas dores prognosticos infalliveis da morte se preparou com todos os Sacramentos para o ultimo conflicto. Duas horas antes do seu transito rezou com voz submissa todo o officio de Defuntos, e de Nossa Senhora, e levantando a voz proferio com grande fervor de espirito Venite exultemus Domino, jubimus Deo salutari nostro, praeocupemus faciem ejus in confessione, e no fim destas palavras entregou o espirito ao seu Creador a 29 de Junho de 1470. Passados alguns annos sendo aberta a sua sepultura foy achado com assombro dos circunstantes o cadaver incorrupto, e exhalando suavissimo cheyro. Fazem memoria das suas virtuosas açoens com pena mais difusa o Licenciado Jorge Cardozo Agiol. Lusit. Tom. 3. pag. 853. e Franc. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Secul. Iiv. 3. cap. 44. 45. e 46.

Compoz.

Tratado das Ceremonias Ecclesiasticas e do Canto, que se uza nos Officios Divinos. M. S. Desta obra faz mençaõ Franc. de Santa Maria no lugar assima allegado pag. 743.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]