D. IOAÕ III. em o nome, e decimo quinto entre os Monarchas Portuguezes sahio à luz do mundo na famosa Cidade de Lisboa a 6 de Iunho de 1502. Sendo filho segundo dos Serenissimos Monarchas D. Manoel, e D. Maria sua 2. Espoza filha dos Reys Catholicos Fernando, e Izabel. Recebeo as primeiras instruçoens da lingua Latina de D. Diogo Ortiz de Vilhegas Bispo de Tangere, e a explicaçaõ da Theorica dos Planetas de Thomaz de Torres insigne Astrologo, e excellente Medico, e com a disciplina de taõ grandes Mestres naõ correspondeo a aplicaçaõ do estudo à comprehensaõ do talento de que era ornado. Desde a idade da adolescencia o admitio seu Pay ao Concelho para que naquella politica escola aprendeu e a dificil arte de reynar à qual deu feliz principio em 19 de Dezembro de 1521. em que foy aclamado sucessor desta Monarchia. Nos theatros mais bellicosos do Universo extendeo a fama do seu nome, abateo o orgulho dos inimigos, e elevou a gloria da Naçaõ Portugueza ao mayor zenith da felicidade humana. Na Asia acrecentou as gloriosas Conquistas de que fora author o heroico espirito de seu grande Pay derrotando os mayores Potentados do Oriente pelas fulminantes espadas dos Cunhas, Gamas, e Menezes. Na America domesticou a ferocidade dos barbaros pela armada industria dos Souzas, e Costas. Na Africa sendo esteril o seu terreno se fecundáraõ as palmas, e os louros para os triumfos dos Mascarenhas, Botelhos, e Attaydes sobejando para eterno clarim da sua fama o celebre Galeaõ, que jogava trezentas, e sessenta, e seis peças de Artilharia com que socorreo ao Cesar Austriaco na expediçaõ de Tunes sendo entre quatrocentos vazos de que se compunha a Armada o glorioso instrumento da Conquista da Goleta. Á Religiosa piedade de seu animo se deve a ereçaõ do Tribunal do Santo Officio incontrastavel propugnaculo da Fé contra a heretica pravidade de que foy 1. Inquisidor Geral D. Fr. Diogo da Sylva igualmente illustre pelo sangue, que pela virtude. Depois de instituir o Tribunal da Mesa da Conciencia, e Ordens Militares, cujos Mestrados incorporou na Coroa, compadecido de que innumeraveis Vassallos, que habitavaõ as Regioens da Asia, e America naõ recebiaõ o pasto necessario para alcançar a vida eterna, suplicou ao Summo Pastor, que erigisse em Cathedraes a Cidade de Santa Catherina em Goa, a de S. Salvador em Angra, a de Cabo Verde, e S. Tiago em Africa, e a de S. Salvador na Bahia de todos os Santos em a America, as quais proveo de Bispos, que imitaraõ o zelo dos Prelados da primitiva Igreja. O mesmo ardor de Religiaõ se admirou dentro do seu Reyno elevando a Metropoles as Igrejas de Evora, e a do Funchal sendo o primeiro Arcebispo da primeira seu Irmaõ o Cardial D. Henrique, e da segunda com titulo de Primaz do Oriente D. Martinho de Portugal, e illustrando com Cadeiras Episcopaes as Cidades de Leiria, Miranda, Portalegre a que foraõ assumptos D. Fr. Braz de Barros, D. Toribio Lopes, e D. Iuliaõ de Alva Esmoleres da Raynha D. Catherina. Entre todos os Monarchas Portuguezes foy o mayor Mecenas das Artes, e Sciencias pois considerando, que por descuido dos seus coroados predecessores estavaõ quasi extinctas em Portugal para gloriosamente as restaurar elegeo pessoas dignas de taõ alta empreza as quais mandou instruir no Collegio de Santa Barbara de Pariz consignando-lhe copiosos estipendios para sua sustentaçaõ donde sahiraõ egregiamente peritos nas letras amenas, e severas. Este nobre empenho do augmento das Faculdades scientificas o estimulou para que no anno de 1537. transferisse de Lisboa para Coimbra a Universidade como lugar mais retirado do tumulto da Corte, e conducente para o progresso dos estudos, devendo esta Athenas da Lusitania aos desvelos deste Principe a immortal fama, que adquirio entre as mais celebres Universidades do mundo assim na profunda litteratura de seus Mestres, que com largos dispendios convocou de varias partes, como dos famosos varoens, que della sahiraõ em todas as idades para ornato do Sacerdocio, e do Imperio. Mayor era a ambiçaõ, que tinha de dilatar o Imperio de Christo, do que de extender os seus dominios mandando Operarios Evangelicos dos quais foy precursor o apostolico espirito de S. Francisco Xavier para cultivar as vastissimas vinhas da Etiopia, China, e Iapaõ donde derramàraõ depois de copiosos suores o proprio sangue em obzequio do Redemptor Crucificado. Nas fabricas se mostrou taõ magnifico, que competio com a generosa idea de seu Pay sendo os marmores do Collegio de Coimbra dos PP. Jesuitas; da Caza professa de S. Roque de Lisboa, do Templo de N. Senhora da Graça de Lisboa, e do Aqueducto da Fonte da prata da Cidade de Evora ainda que mudos, eloquentes pregoeiros da sua Real liberalidade. A prudencia, que he a baze dos tronos, foy sempre a directora das suas acçoens da qual deu hum illustre argumento quando se conservou neutral sem offensa do parentesco, e da amizade entre os dous mayores emulos, que naquelle tempo respeitava a Europa Carlos V. e Francisco I. Promulgou leys para conservaçaõ da Monarchia, e derrogou outras que lhe pareceraõ severas por ser o seu genio mais inclinado à clemencia, que ao rigor. Elegeo sempre os Ministros mais doutos, e menos rigidos, e para que o premio se dividisse pelos benemeritos, e a Republica fosse bem servida nunca consentio, que administrasse hum muitos lugares. Para evitar controversias de que podiaõ nacer desordens determinou a precedencia dos Grandes ainda, que fossem seus parentes pela antiguidade das Cartas, cuja determinaçaõ ainda hoje se practica. Foy cordial devoto de Maria Santissima, e do Principe da milicia Angelica S. Miguel ampliando por indulto Apostolico na sua Real Capella em os Sabbados, e Terças feiras os cultos destes seus Tutelares. Teve memoria taõ feliz, que passava a monstruosa conservando nella os nomes, e apellidos de todos os Estudantes, que lera na Matricula da Universidade de Coimbra. Inimigo dos custumes Estrangeiros, e unicamente amante dos patrios sempre uzou do traje Portuguez por ser o mais honesto. Entre o bellico furor de Marte em que ardia grande parte da Europa se conservou Pacifico, colhendo os seus Vassallos a sombra da tranquillidade publica os frutos das mayores felicidades. Tendo vivido 55 annos, e 5 dias, e reynado 35 annos, sinco mezes, e vinte e nove dias foy improvisamente acometido de hum accidente apopletico a 11 de Junho de 1557. e restituido ao juizo, como conhecesse o perigo em que estava se confessou com o Bispo de Leyria D. Fr. Gaspar do Cazal, e recebendo o Sagrado Viatico com summa piedade, e a Extrema-unçaõ ministrada pelo Cardial D. Henrique, expirou placidamente entre as onze horas, e doze da noute. Ao dia seguinte foy levado o Real cadaver com grande pompa ao Convento de Belem onde se collocou em hum sumptuoso Mausoleo cercado de cento, e vinte, e outo tochas. Depois de se cantar solemnemente o Officio dos Defuntos recitou a Oraçaõ funebre o Doutor Antonio Pinheiro comovendo com a eficacia das suas eloquentes vozes aos circunstantes para novas lagrimas. Sobre o marmore do sepulchro se lhe gravou o seguinte Epitafio.

Pace, domi, belloque foris moderamine miro

Auxit Ioannes Tertius Imperium.

Divina excoluit, Regno importavit Athenas

Hic tandem situs est Rex, Patriaeque Parens.

Foy de mediana estatura, porem corpulenta; o rosto gentil, mas muito corado, a barba preta, e bem povoada, olhos azuis, e agradaveis, e de aspecto taõ magestozo, que cauzava naõ pequena turbaçaõ a quem lhe fallava. Cazou em 5 de Fevereiro de 1525. com D. Catherina irmãa de sua Madrasta a Raynha D. Leonor, e do Emperador Carlos V. e filha de Filippe I. de Castella, e da Raynha D. Ioanna herdeira daquella Coroa; e deste augusto consorcio naceraõ D. Affonso, que brevemente morreo; a Infanta D. Maria, que se despozou em 12 de Mayo de 1543. com D. Filippe Principe das Asturias, a qual morreo de parto a 12 de Julho de 1545. quando contava 17 annos, e nove mezes de idade, e jaz no Pantheon do Convento do Escorial as Infantas D. Izabel, e D. Brites mortas em tenra idade. O Principe D. Manoel jurado Principe herdeiro da Monarchia a 13 de Junho de 1535. e fallecido a 24 de Abril de 1537. O Infante D. Filippe jurado sucessor da Coroa morreo a 29 de Abril de 1539. O Infante Diniz cuja vida durou brevemente. O Principe D. Ioaõ, que nacendo a 3 de Iunho de 1537. morreo intempestivamente a 2 de Ianeiro de 1554. despozado com D. Ioanna de Austria filha do Emperador Carlos V. e da Emperatriz D. Izabel, de cujo consorcio naceo ElRey D. Sebastiaõ. O Infante D. Antonio, que naõ chegou a cumprir o espaço de hum anno. De D. Izabel Moniz moça da Camara da Raynha D. Leonor teve hum filho natural chamado D. Duarte, que pelas suas grandes letras, e summa capacidade foy assumpto à Cadeira Primacial de Braga; e a D. Manoel taõbem illegitimo que morreo em idade pueril. Escreveo as açoens politicas, e militares deste Princepe Francisco de Andrada do seu Conselho, e seu Chronista, e à sua gloriosa memoria dedicaraõ eloquentes Panegyricos o grande Ioaõ de Barros, e Antonio de Castilho Guarda mòr da Torre do Tombo, e Chronista mòr do Reyno. Os mais insignes Escritores lhe fizeraõ grandes elogios como foraõ o Doutor Martim Asplicueta Navarro de Redditib. Eccles. cap.38. Omnes quotquot viderim Reges, regulos, & alios Principes viros (vidi autem quàm plurimos in Hispaniis, & Galliis).superat, (falla de Filippe Prudente) si unum gloriosae memoriae Ioannem Tertium Lusitaniae Regem numquàm satis laudatum, eumdemque proximo cognatum ejus, & socerum jàm vita functum excipias. O mesmo Navarro in Apolog. pro defens. sui nomin. ibi Ioanni Tertio Regum aetatis suae (absit verbo adulatio) religione, elyemosinis, ornatu, prudentia tam belli, quàm pacis artibus insignita, justitia clementiae radiis corusca magnificentia omni genere modestiae decora, exemplari. Fr. Bernardo de Brito Elog. dos Reys de Portug. pag. mihi 130. Foy amigo, e favorecedor das letras Eduard. Non. Censur. in Teixeir libell. Literarum Studia in Portugallia excitavit, doctorun hominum stipendia auxit. Vasconcellos Anaceph. Reg. Lusit. p. 288. Quantùm illi debeat. Theologia, caeteraeque liberales artes testis est Conimbrica quam altricem scientiarum esse voluit acitis illuc magnis propositis stipendiis, & honoribus ex Gallia, &Hispania florentissimis praeclara eruditione magistris, locupletata Academia plùs triginta millibus aureorum annuis. Fonceca Evor. Glorios. p. 109. Foy principe de insigne piedade, singular prudencia, grande valor, e incorrupta justiça. Menezes Portugal Restaur. Tom.1. p.10. Governouse pela Religiaõ com que estabeleceo a justiça sempre inclinado á misericordia. Pacheco Vid. da Inf. D. Mar. liv. 1. cap. 18. p. 77. v.°. Amigo de la paz, y de las letras para mayor exercicio dellas restituhio à Coimbra la Academia, que justamente merece el nombre de primero Fundador de aquella Unirersidad y padre de sus estudios Godinho de Rebus Abyssim. lib. 2. cap. 16. virum prudentiae, & omnium virtutum laude suo faeculo tantum, ,ut neque inter aequales, neque multis retro saeculis ullus extiterit quem ipsi vel nostra, vel patrum aetas jure anteponat. Maffeus Hist. Indic. lib. 12. pag. mihi 230. Id sane Gymnasium ipse Ioannes in posterum longe prospiciens ex Olyssiponensi tumultu Conimbrigam transtulerat in urbem antiquam, et Musarum otiis jam aute dicatam; ac tum quidem castigato praeterlabentis Mondae fluminis alveo salubris pariter, et amaeni secessus. Eò clarissimos dicendi magistros, ac mathematicae rei, ac medicae professores, et humani, divini que juris, et Sacrarum literarum interpretes non ex Hispania tantùm, sed etiam ex Gallia, Germania, Italia magnis praemiis evocabat: scholisque ex Parisiensi formula, et disciplina institutis aliquot insuper adolescentium Collegia in eadem urbe fundaverat. Escreveo.

Epistola ad Sanctissimum Dominum Nostrum Clementem Pontificem VII. data Setuval 28 Maii 1532. Foy mandada quando os Embaxadores da Etiopia passaraõ a Roma para dar obediencia ao Pontifice. Sahio impressa no Tom. 2.  Hispan. Illustrat. pag.1287. Francofurti apud Claudium Marnium. 1603. fol. e della faz mençaõ o moderno addicionador da Bib. Orient. de Antonio de

Leaõ Tom. 1. Tit. 12. col. 389.

Epistola ad Santissimum Dominum Paulum III. Pontificem Maximum data

Eborae 20 Iulii 1536. Constava dos felices Sucessos, que as suas Armas alcançavaõ no Oriente. Ambas estas Cartas sahiraõ impressas Francofurti 1630. 4. e dellas se lembra Lipenio Bib. Real. Theolog. pag. 606. col. 2.

Carta escrita de Evora a 15 de Mayo de 1535. ao Duque D. Theodozio de Bragança para que acompanhe ao Infante D. Luiz na Iornada de Tunes. Impressa na Chron. delRey D. Manoel escrita por Damiaõ de Goes Part. 1. cap. 101.

Carta escrita de AImeirim a 8 de Março de 1546. a D. Ioaõ de Castro Governador da India. He elegante, e extensa. Sahio na Vid. de D. Ioaõ de Castro escrita por Iacinto Freyre de Andrada liv. 1. n. 69.

Carta escrita de Lisboa a 20 de Outubro de 1547. ao mesmo D. Ioaõ de Castro. Sahio na Vida deste Heroe liv. 4. n. 95.

Carta escrita em Lisboa a 9 de Agosto de 1547. a ElRey de Congo. Impressa na Chron. da Companhia de Iesus da Prov. de Portug. composta pelo Padre Tellez P. 1. liv. 2. cap. 28. §. 5.

Carta escrita em Coimbra a 10 de Novembro de 1550. ao Summo Pontifice Iulio III. Impressa na referida Chron. liv. 3. cap. 16. §. 2.

Duas Cartas escritas em Lisboa a 30 de Ianeiro de 1553. A primeira para Santo Ignacio de Loyola; a segunda para D. Affonso de Alencastre Embaxador em Roma. Ambas na dita Chronic. liv. 3. cap. 35. §.3. e 4.

Carta escrita de Lisboa a 3 de Ianeiro de 1553 ao Pontifice Iulio III. em que lhe recomenda a Companhia de Iesus.

Carta escrita a hum Cardial sobre a materia da precedente. Ambas impressas na Chronica do Padre Tellez. Part. 2. liv. 4. cap. 12. §. 4. e 6.

Duas Cartas escritas de Lisboa a 29 de Ianeiro de 1553. A 1. a D. Affonso de Alencastro Embaxador na Curia; a 2 a ElRey de França em favor da Companhia. Impressas na Chron. da Companhia Part. 2. liv. 4. cap. 12. §. 9. e 12.

Carta escrita ao Bispo Conde D. Fr. Ioaõ Soares. Impressa na dita Chron. P. 2. liv. 6. cap. 15. §. 1.

Carta escrita em Lisboa a 10 de Setembro de 1555. ao Doutor Diogo de Teyve para entregar o governo das Escholas menores aos PP. Iesuitas. Impressa na referida Chron. P. 2. liv. 6. cap. 18 §. 10.

Carta escrita no anno de 1555. ao Provincial da Companhia da Provincia da India Sahio na Hist. da Etiop. Alt. do Padre Tellez liv. 2. cap. 20. pag. 149.

Cartas para os Reis de França Francisco I. e D. Leonor a cerca da partida da Infanta D. Maria. Impressas na Vida desta Senhora composta por Fr. Miguel Pacheco liv. I. cap. 10. pag. 35. v.° e 36.

Carta escrita de Lisboa a 28. de Março de 1556. ao ViceRey da India em que Ihe manda se informe das açoens virtuosas de S. Francisco Xavier para dellas se escrever a sua Vida. Sahio vertida em latim pelo P. Manoel da Costa Rer. à S. I. in India gestar. p. 5. e della faz mençaõ o addicionador da Bib. Orient. de Antonio de Leaõ Tom. I. Tit. 8. col. 151.

Carta escrita a Lourenço Pires de Tavora Embaxador a Carlos V. Impressa na Vida da Infanta D. Maria assima allegada liv. I. cap. 11. pag. 4.

Carta escrita a 21 de Fevereiro de 1557. a Lourenço Pires de Tavora. Impressa na Vida da Inf. D. Mar. liv. 1. cap. 17. pag. 73. V.°

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]