D. IOAÕ I. deste nome, e decimo entre os Monarchas Portuguezes teve por Oriente a Cidade de Lisboa a 15 de Abril de 1358. e por Pay a ElRey D. Pedro I. que depois de viuvo o houve de Thereza Lourenço, que alguns Genealogicos fazem descendente da familia dos Andrades do Reyno de Galiza. Como naceo para Heroe foy eleito em a tenra idade de onze annos Mestre, e Cavalleiro da militar Ordem de Avis armado pelas maõs de seu Pay, e entregue à prudente direçaõ de Fernando Martins de Siqueira Commendador mòr da mesma Ordem da qual depois possuio o Mestrado. Com tolerancia superior à idade triumfou das violencias maquinadas pela ambiçaõ de sua Cunhada a Rainha D. Leonor chegando a tanto excesso o odio desta Princeza, que assim como o tinha privado da liberdade no Castello de Lisboa, intentou despojallo da vida se a Providencia o naõ tivera destinado para Conservador do Imperio Portuguez. Com o sangue do Conde de Ourem derramado pelas suas maõs lavou a escandalosa afronta de que fora criminoso author conciliando com esta açaõ tal afecto, e respeito em todo o povo de Lisboa, que o aclamaraõ com festivas vozes Defensor, e Regente da Monarchia. Para dezempenhar titulos taõ illustres se armou contra a potencia delRey de Castella que injustamente pertendia suceder a seu Sogro ElRey D. Fernando em o dominio desta Coroa, sendo o primeiro triunfo que alcançou das armas Castelhanas libertar a Lisboa do apertado sitio, que padecera onde foy principal instrumento de taõ gloriosa acçaõ o infigne Heroe D. Nuno Alvres Pereira inseparavel companheiro de todas as glorias militares do seu feliz Reynado. Convocadas Cortes para a Cidade de Coimbra disputou com agudeza, e resolveo com liberdade o famozo Iurisconsulto Ioaõ das Regras segundo Baldo daquella idade, que a Coroa Portugueza estava vaga, e podia o povo eleger Principe, que o governasse, de cuja propoziçaõ se seguio ser aclamado Rey o Mestre de Aviz com as mais plauziveis demonstraçoens a 6 de Abril de 1385. naõ tendo ainda completos vinte sete annos de idade quando jà contava seculos de immortal gloria. Elevado ao Trono, e cingida a Coroa, que lavrara com a propria espada para firmar a hum, e estabelecer a outra se aplicou a debellar os inimigos estranhos já que tinha felizmente triumfado dos domesticos. A vitoria alcançada em Trancoso lhe servio de prologo para conseguir a mais memoravel que admirou aquelle seculo de que foy theatro o Campo da Aljubarrota a 14 de Agosto de 1385. com o dezigual numero de seis mil, e quinhentos Soldados ao de trinta mil dos Castelhanos, que se faziaõ mais formidaveis com a presença do seu Principe, sendo as importantes consequencias do triumfo o rendimento de varias Praças assim em Portugal, como em Castella. Naõ satisfeito o seu bellicoso genio com as vitorias terrestres meditou fazer o seu nome immortal com as navaes preparando huma Armada composta de duzentas velas, a mayor, que sobre seus hombros sustentou o Oceano, e guarnecida de grande numero de combatentes onde embarcado com seus filhos os Infantes D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, e a mayor parte da Nobreza navegou a conquistar do infiel dominio dos mouros a Cidade de Ceuta cuja empreza felizmente conseguio a 21 de Agosto de 1415. podendo naõ sómente gloriar-se da tomada desta Praça, mas de ser o primeiro Principe, que depois da lamentavel perda de Espanha passou com exercito às Regioens Africanas. No seu tempo se abriraõ as portas às Conquistas de Portugal com os descubrimentos das Ilhas do Porto Santo, e Madeira no anno de 1419. Em obsequio do parentesco que com elle tinha Henrique V. de Inglaterra lhe mandou o habito da Ordem da Iarretiere, que aceitou com expressoens agradecidas. A piedade do seu animo excedeo o valor do seu coraçaõ sendo summamente religioso para com Deos, e sua Mãy Santissima a cuja soberana proteçaõ dedicou o sumptuozo Templo da Batalha em gratificaçaõ da memoravel Vitoria da Aljubarrota o qual doou à Ordem dos Pregadores a 4 de Abril de 1388. Com igual zelo fundou os Conventos de S. Francisco de Leyria, de Penhalonga da Ordem de S. Ieronimo, e de Santa Clara do Porto. Resoluto a illustrar a Cidade de Lisboa que lhe dera o berço a nobilitou com a dignidade Archiepiscopal alcançando da Santidade de Bonifacio IX. por Bulla passada em Roma a 10 de Novembro de 1394. ser erecta em Metropolitana de que ficaraõ seus sufraganeos os Bispados de Evora, Guarda, Lamego, e Sylves. Na Cidade de Ceuta erigio Cathedral por concessaõ de Martinho V. a 5 de Março de 1421. sendo o seu primeiro Bispo D. Fr. Aymaro, que era titular de Marrocos, de naçaõ Inglez, e de profissaõ Franciscano. Mandou, que se naõ computassem os annos pela Era de Cesar até aquelle tempo observada, mas pela Sagrada Epoca do Nacimento de Christo, cuja Catholica determinaçaõ principiou a 22 de Agosto de 1422. Para se administrar rectamente a justiça promulgou leys muy utilissimas, e ordenou, que se traduzisse na lingua materna o Codigo do Emperador Justiniano donde emanáraõ as Ordenaçoens do Reyno a que deu principio, e ordem a profunda sciencia do celebre Iurisconfulto Ioaõ das Regras seu Chanceller mòr. Com espirito  verdadeiramente real mandou reedificar para habitaçaõ dos seus sucessores os Palacios de Lisboa, Santarem, Coimbra, e Almeirim. Foy cazado com D. Filippa de Lancastre filha de Ioaõ de Gante Duque de Lancastre, e de sua primeira mulher Branca filha herdeira de Henrique Duque de Lencastre Conde de Leicester, Derby, e Lincoln, e da Duqueza Izabel filha de Henrique Baraõ de Beaumon de cujo augusto consorcio celebrado a 2 de Fevereiro de 1387. teve a mais feliz fecundidade com que se illustrou este Reyno, e se nobilitaraõ os estranhos, sendo o primeiro fruto desta real uniaõ a Infanta D. Branca, que brevemente passou a coroarse no Impirio; o Infante D. Affonso arrebatado intempestivamente pela morte para cujo cadaver lhe mandou hum soberbo Mausoleo sua irmãa D. Izabel Duqueza de Borgonha no qual descansa em a Cathedral de Braga; D. Duarte sucessor da Coroa cujas açoens se descrevèraõ em seu lugar; o Infante D. Pedro Duque de Coimbra, que sendo digno pelas suas virtudes de vida perduravel acabou infaustamente a 20 de Mayo de 1449. em a Batalha da Alfarrobeira; o Infante D. Henrique Duque de Viseu, e outavo Governador, e Administrador do Mestrado da Ordem de Christo a cuja sciencia mathematica, e valor intrepido deve Portugal os primeiros descubrimentos das novas Conquistas. A Infanta D. Izabel, que se despozou em 10 de Ianeiro de 1430. com Filippe o Bom terceiro do nome Duque de Borgonha, e Conde de Flandes o qual para argumento manifesto da estfrimaçaõ summa, que fazia deste consorcio instituhio no mesmo dia a famosa Ordem da Cavallaria do Tusaõ de ouro. O Infante D. Ioaõ Administrador, e Governador do Mestado da Ordem de S. Tiago, e terceiro Condestavel de Portugal, que cazou com sua sobrinha a Senhora D. Izabel filha de D. Affonso I. Duque de Bragança. O Infante D. Fernando Administrador, e Governador da Ordem militar de Aviz, depois de tolerar com paciencia heroica o cativeiro barbaro em Fez pelo espaço de seis annos voou o seu espirito a receber a laureola de Martyr no Paraizo a 5 de Iunho de 1443. Fora do matrimonio teve ao Senhor D. Affonso I. Duque de Bragança, e a D. Izabel, que cazou a 26 de Novembro de 1405. com Thomaz Fizt Alan Conde de Arundel em Inglaterra, e Cavalleiro da Ordem de Iarretiere. Conhecendo ser chegado o termo da sua vida se preparou para este ultimo conflito com as armas dos Sacramentos, e cumulado de açoens Christãas, e heroinas partio a coroarse no Capitolio da Eternidade em Lisboa nos Paços de Alcaçova a 14 de Agosto de 1433. em huma sexta feira quando contava 75 annos, tres mezes, e vinte e nove dias de idade; e 48 annos 4 mezes, e 8 dias de Reynado. Iaz sepultado no Real Convento da Batalha para onde foy tresladado de Lisboa a 30 de Novembro de 1433. e ultimamente transferido a 14 de Agosto do anno seguinte com o cadaver da sua espoza a Raynha D. Filippa para a Capella, que no mesmo Convento magnificamente edificara para seu Iazigo. No seu Mausoleo está escrito hum Epitafio taõ largo, que ocupa as tres partes delle em circuito onde se relataõ as principaes acçoens da sua vida, e na cabeceira tem esta inscripçaõ.

Hoc tegitur tumulo, felix Rex ille Joannes,

Magnanimus, pies, & cunctorum gloria Regum,

Militiaeque decus, firmissima Regula legum,

Qui timidum Regem parvo cum milite fregit

Castellae, & Septam sibi magná classe subegit.

Teve a estatura mediana mas bem porporcionada; o rosto largo, testa pequena, cabello negro pouco comprido, mas bem composto, olhos negros, e grandes, o semblante agradavel, e o corpo robusto como mostraõ as armas de que uzava. Foy moderado na fortuna prospera, e constante na adversa. Mostrou-se compassivo para os inimigos domesticos mais perneciosos, que os estranhos, e generoso para os Vassallos, que lhe sustentáraõ a Coroa muitas vezes vacillante. Teve a gloria, que nenhum dos seus Antecessores, e Sucessores poderaõ alcançar, de que negando-lhe a natureza a Coroa a cingisse heroicamente fabricada pelos impulsos do seu braço, e subisse ao Trono pelos degráos do merecimento, e naõ por beneficio da fortuna. A honorifica antonomasia de Boa Memoria lhe canonizou o nome em todos os seculos em que sempre vivirà immortal. Ainda, que o seu genio era mais para as armas, que para as letras naõ deixou de cultivar estas premiando com largos donativos aos professores das sciencias. Como era cordial devoto de Maria Santissima traduzio da lingua latina em a materna. Horas de Nossa Senhora. Desta traduçaõ faz memoria distinta o Chronista mór Fernando Lopes no Prolog. da 2. Part. da Chron. deste Monarcha com as seguintes palavras. Sendo muy devoto da preciosa Virgem em que avia singular, e estremada devaçaõ. Elle tornou em seu louvor as suas devotas horas em lingoagem  apropriando as palavras dellas à Virgem Maria, e a seu bento Filho de guisa, que muitos tomaraõ devaçam de as rezar, que ante dellas nem avia relembrança. Mandou traduzir em Portuguez. Os Evangelhos Actos dos Apostolos, e as Epistolas de S. Paulo, como escreve o referido Chronista no lugar citado afirmando Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit  Litter. lit. 1. n.2. que o mesmo Monarcha fora traductor de algumas destas obras como he a dos Evangelhos, que intitulou Vida de Christo.

Fazem memoria das suas Catholicas, e militares açoens innumeraveis Escritores dos quais sómente faremos Cathalogo dos seguintes Hypolit. Marrac. Reg. Marian. pag. 149. Ob illustria facinora, & admirabilem virtutum splendorem Bonae Memoriae acroamate nobilitatus. Brentano Epit. Chronolog. Mund. Christ. p. 503. col. 1. non virtutis tantùm militaria, & Imperatoriae Gloria excellens, sed laude etiam Religionis, magnanimitatis liberalitatis, &  clementiae praestantissimus. Brito Elog. dos Reys de Portug. Elog. 11. Governou com animo verdadeiramente real. Vasconcel. Anacephal. Reg. Lusit. pag. 155. animo rerum ingentium capaci quem nec hostium multitudo, nec periculorum formido unquam perculit. Souza Europ. Portug. Tom. 2. Part. 3. cap. 1. §. 165. Verdaderamente Rey, verdaderamente Heroe, verdaderamente grande en la espada, grande en la Toga; digno de que viva en lo immortal de las perpetuidades, pues vivo se perpetuò en la immortalidad de la gloria. Clede Hist. de Portug. Tom. 1. pag. mihi 405. Ses virtus civiles ègaloient ses virtus guerrieres. Maris Dial. de Var. Hist. Dial. 4. cap. 2. Foy hum raro exemplo de valor militar, e o mais venturoso Principe, que até seu tempo houve no mundo porque nem a multidaõ de inimigos o venceo nunca: nem com temor della deixou de cometer arduas, e dificultozas emprezas de que sua ditoza sorte o fazia sempre vencedor. Leaõ Chron. de D. Ioaõ o I. cap. 103. Tinha sempre huma perpetua serenidade, que dava testemunho de seu animo, e constancia. Menezes Portug. Restaurad. Tom. 1. pag. 8. Foy no resplandecente das açoens, e no invencivel do animo cristal, e aço formado pela natureza, unido espelho em que podessem verse os milhores Principes, e Capitaens que dezejassem a mayor composiçaõ de virtudes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]