P. IGNACIO MARTINS Naceo na Villa de Gouvea do Bispado de Coimbra sendo filho de Martim Lourenço, e Brites Alvares, e o primeiro Noviço que foy admitido a 17 de Abril de 1547. à Companhia de Iesus em o Collegio de Coimbra onde lhe mudou o P. Simaõ Rodrigues o nome de Vasco que tinha em o seculo em o de Ignacio para memoria do seu grande Fundador. Aprendidas as sciencias escholasticas em que mostrou subtileza de engenho foy Mestre do quarto curso de Filosofia em o Collegio das Artes no anno de 1555. em o qual D. Ioaõ o III. entregou o seu governo aos Padres Iesuitas, e dictou a mesma Faculdade em o Collegio de Evora antes de ser Universidade onde depois recebeo as insignias doutoraes na Sagrada Theologia a 28 de Março de 1570. sendo seu Padrinho o Ven. Fr. Luiz de Granada eterno explendor da Ordem dos Pregadores cujo acto se fez mais plauzivel com a authorizada prezença delRey D. Sebastiaõ, Cardial D. Henrique e o Infante D. Duarte Duque de Guimaraens. Entre os Padres que foraõ votar ao Capitulo geral celebrado em Roma no anno de 1573. foy elle eleyto, e antes de chegar a Curia venerou em Padua a lingua incorrupta do Thaumaturgo Portuguez Santo Antonio, e considerando que ella tinha sido o instrumento da conversaõ de tantas almas se deliberou a emendar o estilo com que no pulpito lizongeava mais os ouvidos, de que compungia os coraçoens dos seus ouvintes. Restituido a Portugal no anno de 1574. passou à Praça de Tangere onde arrancou vicios, e plantou virtudes a impulsos de seu apostolico espirito. Mayor fruto colheo o seu incansavel disvelo explicando pelas praças, e ruas de Lisboa o Cathecismo de cujo louvavel exercicio, que o Ceo aplaudio com prodigiosos sucessos, foy o primeiro author. De todas as virtudes Religiosas podia ser exemplar pois na Oraçaõ era taõ continuo que posto de joelhos consumia sinco horas na meditaçaõ das divinas perfeiçoens; nas penitencias taõ rigoroso que todos os dias se disciplinava pelo espaço de tres quartos; na caridade taõ ardente que se privava do alimento necessario para com elle socorrer a pobreza; na modestia taõ insigne que somente abria os olhos para dirigir os passos. Os actos da piedade Catholica que fez na ultima doença eraõ bastantes para lhe santificar a memoria. Falleceo no Collegio de Coimbra a 28 de Fevereiro de 1598. com tal serenidade que se duvidava estar morto. Os primeiros que véneraraõ o seu Cadaver foraõ o Illustrissimo Bispo de Coimbra D. Affonso de Castello Branco o Senhor D. Alexandre filho dos Serenisssimos Duques de Bragança, o Reytor da Universidade Affonso Furtado de Medoça, e depois todos os Cathedraticos, e Doutores que com a mayor sumissaõ lhe beijaraõ os pés. Tanto que se divulgou a sua morte foy innumeravel o concurso do povo que concorreo ao Collegio despojando o dos vestidos, unhas, e cabellos que levavaõ como preciosas reliquias. Antes de ser sepultado recitou hum Panegyrico das suas virtudes o P. Sebastiaõ Barradas famoso Escriturario, que fez renovar as lagrimas de todo o auditorio lamentando a falta de taõ grande Varaõ, cuja santidade quiz Deos manifestar com alguns milagres que obrou em beneficio de varios infermos. Foy sepultado, como elle pedira, com a cana na maõ que lhe servia de instrumento para governar os mininos que catequizou em a Doutrina Christaã. D. Ioanna de Portugal no dia do seu enterro alludindo ao ultimo Sermaõ que pregara da Dominga 3. de Quaresma lhe fez este elegante Soneto.

Aquella voz de Ignacio, que abalava

O Ceo, e a terra toda suspendia:

A que do Ceo à terra Anjos trazia

A que da terra ao Ceo homens levava.

Acabou: jà naõ soa onde bradava

Mas por nòs nos Ceos falla onde s’ouvia:

Pregou por fè na vida o que naõ via,

Mas vio antes da morte o que pregava.

Pelejou com o diabo, e com a vida,

E já perto do fim mais esforçado

Na ultima batalha acabou tudo;

A açoutes deixa a carne já vencida;

Por humilde o mundo desprezado;

Por doutrina o diabo surdo, e mudo.

Com varios elogios exaltaõ o seu nome gravissimos Escritores como saõ Iorge Cardozo Agiol. Lusit. Tom. pag. 378. perfeito exemplar de virtudes, angelica vida, profunda humildade, proprio abatimento, desprezo das mundanas honras, abrazada charidade com os proximos nacida de grande amor de Deos. Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. 1. n. 8. Vir heroicis quidem virtutibus insignis, sed zelo praecipue Christianae Doctrinae instillandae apud Lusitanos eminentissimus. Fr. Roque do Soveral Hist. do Apparec. de N. Senhora da Luz. liv. 1. cap. 6. Varaõ Apostolico. Bib. Societ. p. 395. col. 1. e 2. vir omnium judicio inter societatis Heroas sanctissimus recensendus. Telles Chron. da Compan. da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 2. cap. 21. n. 6. aquelle insigne Varaõ a quem todo Portugal venerou com titulo de Mestre Ignacio porque na verdade foy Mestre na doutrina, que por espaço de 17 annos ensinou com a cana na maõ, e com o exemplo, que em toda a vida nos deu. Orland. Hist. Societ. lib. 7. n. 73. Sanctitate percelebris cui beata sorte obtigit non vocabulum modo, sed et praestantes B. Patris participare virtutes. Imago Prim. Saecul S. I. lib. 3. cap. 6. Spretis cum honore cathedris totum se dedit pueris, imperitae plebi, mancipiisque necessaria ad salutem doctriná imbuendis Taner Societ. Ies. Apost. Imitatrix. pag. 306. vir communi omnium sensu sanctus. Franco Annal S. I. in Lusit. p. 166. n. 1. admirandi Herois, e na Imag. da Virtud. em o Novic. de Coimb. Tom. 1. liv. 2. cap. 63. Varaõ cheyo de espirito apostolico, e de zelo incansavel Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. p. 474. col. 1. Innocentissimis moribus. singulari in Deum & proximos charitate Apostolicus per Lusitaniam Ecclesiastes. Fonceca Evor. Glor. p. 432. Varaõ illustre pelas suas virtudes, e introduçaõ do uzo da Santa Doutrina. Compoz

Pregaçaõ feita no dia da Collocaçaõ das Santas Reliquias em a Caza professa de S. Roque a 26 de Ianeiro de 1588. Sahio na Relaçaõ do solenne recebimento destas Reliquias. Lisboa por Antonio Ribeiro. 1588. 8. a fol. 97.

Litaniae Sacrosanctae Euchàristiae,et dulcissimi Nominis IESU, ac Spiritus Sancti Paracliti ex sacra scriptura collectae. Ulyssipone per Emanuelem de Lyra. 1592. 12 & Conimbricae per Nicolaum Carvalho 1620. 12.

Cartilha da Doutrina Christaã do M. Ignacio He hum additamento à Cartilha composta pelo P. Marcos Iorge da Companhia de Jesus, e foy a primeira que sahio. Constaõ as addiçoens. Ordens para passar o dia; como se hade ouvir Missa, confessar, comungar, e rezar o Rosario. Sahio impressa varias vezes em diversas partes. 12.

Sermoens para todo o Anno. 4. Tom. M. S. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]