IERONIMO DA SYLVA DE AZEVEDO natural da Cidade do Porto onde foraõ seus nobres progenitores Francisco de Azevedo, e Leonor Pedroza. Nos primeiros annos frequentou a Universidade de Coimbra onde a agudeza do seu engenho fez progressos taõ admiraveis que recebidas as insignias doutoraes na Faculdade do direito Cesareo subio da Cadeira da Instituta em que foy provido a 9 de Dezembro de 1639 à do Codigo a 22 de Fevereiro de 1642. Da especulaçaõ desta sciencia passou à practica na Relaçaõ do Porto onde foy Dezembargador, e Corregedor do Crime, e depois Dezembargador da Caza da Suplicaçaõ de que tomou posse a 5 de Novembro de 1648. e de Dezembargador dos Aggravos a 12 de Novembro de 1650. Sendo nomeado para Embaxador de Inglaterra no anno de 1652 . Ioaõ Rodrigues de Sá Conde de Penaguiaõ, e Camareiro mòr da Magestade delRey D. Ioaõ o IV. foy eleito por seu Secretario em quem concorriaõ (como escreve o Excellentissimo Conde da Ericeira D. Luiz de Menezes Portug. Restaur. Tom. 1. liv. 2. pag. 777). todas as partes necessarias para a ocupaçaõ que se lhe entregou. Restituido ao Reyno foy Deputado da Meza da Conciencia, e hum dos mais graves Ministros do seu tempo, assim pela profundidade da sciencia, como pela observancia da justiça. Falleceo em Lisboa em 19 de Fevereiro de 1661. Iaz sepultado no Convento de N. Senhora da Graça dos Erimitas de S. Agostinho. Foy insigne cultor da lingua latina, e igualmente versado nos preceitos da Oratoria, e da Poetica compondo com graça natural, e summa promptidaõ grande numero de versos assim serios, como jocosos as quais intitula concinna, & elegantia Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusitan. Liter. lit. H. n. 30 Manoel de Faria, e Souza Fuent. de Aganip. Part. 1. Centur. 6. lhe dedica em seu aplauzo o seguinte Soneto que he o 77.

Por ouvirmos o Douro como deve

Sae là do fundo as aguas dividindo

Da musgosa cabeça sacudindo

Nuvens de aljofar vosso som recebe.

E tal opiniaõ de ouvirmos teve,

Que a superficie com o pé ferindo

A bella corte chama, e vem sahindo

Por portas de Coral Nymphas de neve.

Eu que taõbem entaõ cantando estava

De aquelle rayo a meos incendios pronto Huã Nereida ouvi, que em nós

fallava:

Dizia aos bellos Soes do fundo Ponto

Que este meu canto facil se illustrava

Com o vosso divino contraponto.

Compoz.

Panegyris pro legitima sucessione felicissimaque acclamatione invictissimi, ac serenissimi Regis Ioannis IV. in Academia Conimbricensi dicta 8. Februarii 1641. Conimbricae Typis Didaci Gomez do Loureiro. 1641. 4. Sahio nos Aplauzos da Universidade de Coimbra a ElRey D. Ioaõ o IV.

Cançaõ à morte da Senhora D. Maria de Ataide. Nas Memor. Funeb. Da mesma Senhora a fol. 39 v.° Lisboa na Officina Craesbeeckiana 1650. 4.

Canção nas Exequias do Serenissimo Infante D. Duarte M. S. da qual conservo huma copia. Principia.

Neste duro penedo onde suspira

O echo em vaõ: o nome sempre augusto

Cauza fatal de lastimosa historia.

Cançaõ a traiçaõ ordenada a ElRey D. Ioaõ o IV. no dia do Corpo de Deos.

He composta em estilo jocoso. Começa.

Posto que o pacto quebre,

E o compromisso rompa

Em que abjurei os dogmas do Parnaso.

Acaba.

Demos por acabada

Musa a nossa jornada;

Idevos sem Coroa

De palma má, nem boa,

De Louro, nem de cedro,

Que eu taõbem Musa canto, e ,naõ medro.

Outra Cançaõ, que principia.

Este trabalho extremo Muza amada

Camareira do fiho de Latona,

Que teu favor permite que se ordene:

Tu que em cothurnos de ouro apantufada

No tribunal do poço de Helicona

Es alimaria branca de Hypocrene.

Todas estas Poezias se conservaõ M. S. na Livraria do Excellentissimo Duque de Lafoens, que foy do Emminentissimo Cardial de Souza.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]