Fr. IERONIMO VAHIA. Naceo em a Cidade de Coimbra celebre emporio de todas as sciencias, onde teve por Pays a Francisco Rodrigues Ferreira, e Maria Vahia Teixeira, e por irmaõ ao Doutor Francisco Vahia Teixeira Collegial do Collegio de S. Pedro, Lente de Prima de Leys, e Dezembargador do Paço de quem em seu lugar se fez merecida lembrança. Na idade juvenil deixou o seculo para abraçar o sagrado instituto da augusta religiaõ Benedittina que solemnemente professou no Convento de S. Martinho de Tibaens a 4 de Mayo de 1643. O raro engenho, e a perspicaz penetraçaõ, de que profusamente o dotou a natureza, se admiraraõ na velocidade com que comprehendeo em o Collegio da sua patria as sciencias escholasticas podendo ensinallas quando as aprendia. No exercicio da Oratoria Ecclesiastica alcançou tanta aclamaçaõ, que a Magestade delRey D. Affonso VI. a quem foy muito aceito, o nomeou seu Pregador. De todos os alumnos do Parnasso de que era fecunda a sua idade, nenhum lhe disputou a primazia, ou fosse na magesdade do estilo epico, ou na cadencia da metrificaçaõ lyrica em a qual o seu genio jovial, e nunca pueril se excedia a si mesmo uzando de equivocos taõ naturaes, e proprios que privou da gloria de unico neste genero de composiçaõ ao celebrado Ieronimo Cancer. Para todos os assumptos assim sagrados, como profanos se elevava taõ altamente a sua Musa em o idioma latino, e materno que parecia ser o seu influxo mais divino, que humano. Sendo taõ insigne na Poetica o naõ foy menos em a Historia secular, e Ecclesiastica principalmente da sua augusta Religiaõ por cuja cauza foy nomeado seu Chronista. Querendo dezempenhar taõ nobre incumbencia, como naturalmente para a sua penna lhe servia de tinta a agua da Hypocrene, compoz em verso heroico os successos memoraveis da Congregaçaõ Benedictina do Reyno de Portugal com tanta magestade, que igualava a elegancia do metro à grandeza do assumpto, de cuja laboriosa empreza havendo escrito quarenta cadernos, que excediaõ o numero de outenta folhas lastimosamente se perderaõ com outras suas composiçoens. Retirado ao Convento de S. Romaõ de Neyva distante huma legoa da Villa de Vianna do Minho se preparou como virtuoso Monge para a eternidade de que tomou posse em o anno de 1688. Para se gravar na sua sepultura escreveo com elegante subtileza; huma Musa Portugueza este epitafio Latino.

Hyeronimum condit tumuli brevis urna Vahiam.

Heu parvo quantos vir jacet in tumulo!

Corpus voce caret ,dum Spiritus advolat: antro

In maesto, at celebrat Mors lacrymosa virum.

In Cytharas nervos aptat, connectit et Ossa

In tibias: spirant ossa sepulta melos.

Non tristes fugias concentus; siste viator:

Mors aliis maesta est, huic puto laetaquies.

Celebraõ o seu nome Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. Iit. H. n. 31. Ingenio, & acumine summo, eruditione magna, poeticae verò laudis praestantia cum paucis numerandus. Fr. Gregorio Argaes Perla de Cataluña. fol. 465. col. 2. §. 160. Talento mayor que todo encarecimento. Souza Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 7. liv. 7. pag. 407. a suavissima melodia da sua admiravel Musa. P. Ant. dos Reys Enthusias. Poet. n. 68.

……………………………..Exorta repente

Lis fuit è Musis meritá quae fronde Vahiae

Debuerit cinxisse caput, Phaebus que sequester

Electus: demùm Phaebo mandante, Thaliae Calliope; cessit, memorans tamnen

inclyta facta Quae cecinit vatis plectrum, quorum edita quondam

Pars videre diem . tinea pars altera clausis

In pluteis arrosa latent.

Compoz

Sermaõ de Santa Comba V. e M. Coimbra por Manoel Carvalho 1661. 4. Sahio vertido em Castelhano na Laurea Lusitana. Madrid por Andre Garcia. 1679. 4.

Cançaõ heroica á magestade serenissima do nosso invicto Monarcha D. Afonso VI. na singular vitoria que sempre suas justas, e agora triunfantes armas alcançaraõ na memoravel batalha do Canal. Lisboa por Henrique Valente de Oliveira. 1663. 4. Sahio reimpressa no Tom. 2. da Feniz renacida a pag. 290. Lisboa por Iozé Lopes Ferreira Impressor da Serenissima Rainha 1717. 8.

Começa

Augusto Rey do mais valente Imperio

Em si breve, em conquistas dilatado

Afirmase que compuzera esta obra no mesmo dia em que chegou a noticia da vitoria, e que passadas poucas horas a oferecera pessoalmente a ElRey D. Affonso VI. No Tom. 1. da Fenix Renacida, ou obras Poeticas dos milhores engenhos Portuguezes Lisboa por Iozé Lopes Ferreira 1716. 8. Sahiraõ estas obras desde pag. 215. até 370.

Fabula de Polifemo, e Galatea Consta de 60 Outavas.

Jornada para Coimbra. Dedicada a D. Francisco de Souza Capitaõ da Guarda Alemaà. Consta de sinco Romances jocosos.

Jornada de Lisboa para o Alentejo. Consta de 4 Romances.

Varios Romances, e Decimas a diferentes assumptos.

No tom. 2. da Fenis Renacida. Lisboa pelo dito Impressor 1717. 8. desde pag. 301. até 367.

Decimas, Redondilhas, e Romances quasi todos jocoserios.

No Tom. 3. da Feniz Renacida. Lisboa pelo dito Impressor 1718. 8. desde pag. 1. até 219.

Lampadario de Christal que ,mandou a Duqueza de Saboya á Real

Magestade da poderosissima Rainha de Portugal sua Irmaa, e Idylio Panegyrico a suas Altezas Reaes o Principe D. Pedro, e sua augusta

consorte D. Maria Francisca Izabel de Saboya. He huma larga, e elegante Cançaõ.

A morte da Serenissima Princeza de Portugal a Senhora D. Isabel Cançaõ Funebre.

Madrigaes Romances, Decimas, e Sonetos a varios assumptos.

No 4. Tomo da Fenis renacida. Lisboa por Mathias Pereira da Sylva. 1721. 8.

desde pag. 34. até 150.

Doze Outavas a huma Rosa.

Nove Sonetos a diversos assumptos.

Fabula de Apollo, e Dafne. Romance.

Aos despozorios delRey D. Afonso. 6. Tres Romances.

Em louvor de Santa Senhorinha Portugueza. Loa, que consta de hum Romance muito largo.

Redondilhas, e Romances, a diversos assumptos.

Elisabetha triumfans. Poema Heroicum duobus libris absolutum. Ulyssipone apud Petrum Ferreira Augustissimae Reginae Typog. 1732. 8. He o argumento Santa Izabel Raynha de Portugal.

O Pecador arrependido se enternece na ultima hora à vista de Christo Crucificado. Lisboa por Pedro Ferreira Impressor da Serenissima Raynha. 1736. 4. Romance, que compoz na ultima infermidade.

Alphonseada. Poema Heroico de 12 Cantos. Era o Heroe do Poema ElRey D. Affonso VI. Fallando desta obra como de outras deste insigne varaõ Fr. Gregorio Argaes Perla de Cataluña fol. 465. diz. Por el argumento, e excellencia son dignas de estimacion, como capazes de la embidia. Pudo esta tanto, que de um golpe descompuso el sugeto del argumento, y los intentos del Author. Conserva-se huma copia deste Poema dignissimo da luz publica em a Bibliotheca do Excellentissimo Duque do Cadaval como afirma o Padre D. Antonio Caetano de Souza no lugar assima allegado.

Fonte dos Amores. He huma fabula, que intitula cultissima. Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. H. n. 31. dedicada pelo Author ao mesmo Brito confessando, que ao seu nome fizera Vahia cem Anagramas Latinos.

Annaes lusitanos Part. 1. M. S.

Annaes Benedictinos Part. 1. M. S.

Poemata Sacra. M. S.

Epigrammata centum, & octoginta. M. S.

Oraçoens Academicas trinta. M. S.

Sermoens de diversas Festividades sincoenta. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]