D. IGNACIO DE SANTA THERESA Naceo em a Cidade do Porto a 22 de Novembro de 1682. Foraõ seus progenitores Domingos Fernandes de Souza Cidadaõ nobre, e descendente legitimo da nobre caza de Freixo de Nemaõ, e a D. Maria Magdalena Iacome de Torres filha de Antonio Lopes Torraõ, Neta de Antonio Lopes Torraõ, Capitaõ de mar, e guerra. Foy lhe imposto em o bautismo conferido a 28 de Novembro pelo Abbade Manoel Teixeira de Sampayo o nome de Ignacio em obsequio de seu Tio, e Padrinho Ignacio de Torres de Araujo Tenente do Mestre de Campo General, e depois Capitaõ de Cavallos. Aprendeo os primeiros rudimentos em o Collegio patrio de S. Lourenço dos Padres Iesuitas onde mostrou tal engenho neste prologo dos seus estudos, que o quizeraõ alistar na sua companhia se a vocaçaõ propria ajudada do exemplo de seu Tio D. Jozé da Madre de Deos Conego Regular de Santo Agostinho o naõ inclinasse para taõ illustre Congregaçaõ recebendo a murça no Real Mosteiro de S. Salvador de Grijó a 14 de Agosto de 1698. Passou a cursar os estudos mayores em o Collegio de Coimbra em cuja Universidade foy laureado com a borla doutoral na Faculdade de Theologia a 24 de Fevereiro de 1711. Querendo a sua Congregaçaõ que naõ estivesse ocioso taõ grande talento criou novamente huma Cadeira de Filosofia sem prejuizo da antiguidade dos outros Mestres que dictou com aplauzo, como a Theologia especulativa, e Moral em cujas Faculdades argumentava com subtileza, e presidia com gravidade. Determinando a Magestade delRey D. Ioaõ o V. Nosso Senhor prover a Cadeira Primacial de Goa com hum Prelado digno de taõ alta incumbencia o nomeou a 22 de Novembro de 1720. em que cumpria 38 annos de idade, e posto que se valeo de eficaces rezoens para naõ aceitar aquelle ministerio formidavel aos hombros angelicos, sogeitou a sua vontade à ordem expressa delRey declarandolhe que o mandava naõ somente como Prelado, mas Reformador dos abuzos do Estado da India. Confirmado nesta dignidade pela Santidade de Clemente XI. em 3 de Fevereiro de 1721 foy sagrado na Basilica Patriarchal pelo Illustrissimo Patriarcha D. Thomaz de Almeyda a 30 de Março do anno referido, em o qual a 19 de Abril sahio da barra de Lisboa, e ferrou Goa a 25 de Setembro fazendo a entrada publica a 11 de Outubro dedicado à Tresladaçaõ do seu Patriarcha S. Agostinho. Como Pastor vigilante começou, aplicar todo o disvello em a reforma dos custumes, e extinçaõ de abuzos naõ só com o exemplo, mas com as palavras proferidas nas practicas, e exhortaçoens, que fazia do pulpito ao seu rebanho, principal obrigaçaõ do officio pastoral, e sendo arguidas pela critica mal intencionada de seus emulos trinta, e nove Proposiçoens que em diversos Sermoens proferira como condenadas pela Sé Apostolica, sendo examinadas na suprema Inquiziçaõ dos Emminentissimos Cardiaes se seguio expedirlhe a Santidade de Clemente XII. hum Breve a 25 de Agosto de 1737. eterno padraõ da sua solida doutrina, e irreprehensivel procedimento o qual rincipiava por estas palavras Epistola instar Brevis SS. P. Clementis XII. ad Excellentissimum Archiepiscopum Primatem Goanum: Revisis per Emmin. Cardin. ejus Propositionibus quas Scioli haereticas damnaverant. O mesmo zelo, e actividade, que aplicou em beneficio da sua Igreja ornandoa com preciosos paramentos, e reedificando os Palacios de Panelim, e Santa Ignes para habitaçaõ de seus sucessores, manifestou em obzequio do Estado sendo por duas vezes seu Governador, huma por morte do Vicerey Francisco Iozé de Sampayo, e outra quando voltou para Portugal o Vicerey Ioaõ de Saldanha da Gama. Sendo nomeado Bispo do Reyno do Algarve em 13 de Fevereiro de 1740. partio de Goa, e chegando a Lisboa a 6 de Abril do anno seguinte pouco foy o tempo que assistio na Corte com o cuidado de apacentar o novo rebanho que lhe fora cometido, entrando  na Cidade de Faro a 19 de Novembro com as Cerimonias que prescreve o Cerimonial Romano. Para a fundaçaõ do Convento de religiosos Carmelitas Descalsos filhos da Matriarcha Santa Thereza de quem he cordial devoto comprou no anno de 1743. hum largo campo em Castro Marim. Teve natural genio para a Poezia como publicaõ muitos versos latinos, e Portuguezes compostos nos seus primeiros annos. Na lingua Latina he insigne e da Grega tem bastante noticia. Da Theologia Escholastica, Polemica, e Expositiva, como da Iurisprudencia Canonica, e todo o genero de erudiçaõ possue a mais profunda intelligencia de que saõ monumentos irrefragaveis as obras seguintes.

Resolutiones Morales pro Statu Religioso omnibus cunctarum Religionum SS. Fundatoribus, ac Reformatoribus. Conimbricae ex Typog. Regali Artium Colleg. S. I. 1728. 4.

Perolas Orientaes concebidas, e geradas por beneficio do Orvalho celeste entre as conchas de hum retiro do inquieto mar do seculo da India enfiadas pelo fio da contemplaçaõ, e discurso em hum mystico Rosario de cento, e sincoenta Meditaçoens pias. Na 1 P. pelo discurso das vidas de Christo, e sua Mãy Santissima, e de muitos Santos. Na 2. P. pelo discurso da Essencia, Atributos, e Beneficios divinos. Na 3. P. pelo discurso das Miserias, e Novissimos do homem. Expostas a luz e devoçaõ publica dos Fieis para comum utilidade de todos especialmente de Pessoas que trataõ da devoçaõ, Directores espirituaes, Pregadores Evangelicos, Prelados, Pays de Familias. 2. Tom. 4.

Dedicado a Magestade delRey D. Ioaõ o V. e prompto para se imprimirem.

Compendio das Noticias, e documentos extrahidos por ordem de S. Magestade dos Authores, e MS. do Cartorio do real Convento de S. Cruz de Coimbra no anno de 1718. para a Canonizaçaõ de D. Affonso I. Monarcha de Portugal. fol. M. S.

Sermoens Varios 1. P.

Sermoens Varios. 2. P.

Manifesto do procedimento do Arcebispo Primaz de Goa 1. P. Principia Mendaces ostendit, qui maculaverunt illum Sapient. cap. 10. n. 14. fol. M. S.

Manifesto do procedimento do Arcebispo Primas de Goa 2. P. Principia. In fraude circumuenientium illum assuit illi, &honestum fecit illum. Custodivit illum inimicis, & à seductoribus tutavit illum. Sapient. 10. n. 11. e 12. fol. M. S.

Manifesto Apologetico da Iurisdiçaõ Ordinaria contra as Pessoas izentas. fol. M. S.

Reconuençaõ à Replica, ou Resposta em defensa do Manifesto Apologetico da Iurisdiçaõ ordinaria. fol. M. S.

Censura Verdadeira de huma falsa Censura de hum Censor simulado &c. fol. M. S.

Reprovaçaõ do exame do Censor simulado, e da nova recalcitraçaõ à Censura Verdadeira refutatoria da sua falsa Censura. fol. M. S.

Defensio 32. Propositionum in Concionibus, & literis promulgatarum ad Sedem Apostolicam missa. fol. M. S.

Tractatus Theojuridicus de utroque recursu competenti, & incompetenti. fol. M. S.

Iuizo verdadeiro do Manifesto do Illustrissimo Bispo de Malaca, e do Iuizo Theologico Legal sobre a validade, ou invalidade da Conservatoria dos Reverendos Regulares, e dos mais procedimentos, que della resultaraõ. fol. M. S.

Condenaçaõ justa do injusto manifesto falsamente intitulado. Das falsidades do Iuizo verdadeiro. &c. em 7 de Outubro Domingo do Santissimo Rosario. Principia Cum judicatur exeat condemnatus, et Oratio ejus fiat in pecatum. Psalm. 108. n. 7. fol. M. S.

Allegaçaõ sobre a validade do procedimento do Reverendissimo Vigario Geral do Arcebispo de Goa contra o Iuizo conservatorio dos Reverendos Regulares. fol. M. S.

Estado do presente Estado da India Meyos faceis, e efficaces para a sua Geral Reforma Temporal, e Espiritual 4. M. S.

Epigrammata Sacra. M. S.

Oratio Pathetica in funere Sanctissimi Domini Nostri Benedicti XIII. 4. M. S.

Officium S. Theotonii primi Sanctae Crucis Caenobii Prioris pro Breviario Romano. 4. M. S.

Noticias do Estado da India desde o anno 1723. até 1735. fol. M. S.

Opusculus Triplex Theologicus, Historicus, Asceticus, & Mysticus. De uno Triplice tripliciter stabilito, Divino scilicet, Angelico, & humano. In Triplicem partem tripliciter distinctus, ac divisus. In quo parte prima quaeque ex selectioribus triplicis Theologiae quaestionibus colliguntur ad Deum unum, & Trinum attinentia. In 2. P. ad Angelos, Caelos, & Caelicolas. In 3. ad homines & reliqua viventia tripliciter divisa, nec non ad triplicem elementarem globum, & ad triplicem Statum Ecclesiasticum concernentia solide praelibantur, ac dilucidantur. fol.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]