ANTONIO JOSÉ DA SILVA, Bacharel formado pela Univ. de Coimbra, não na faculdade de Direito Civil, como diz Barbosa, mas em Canones, conforme os seus biographos modernos. Foi Advogado em Lisboa, e celebre poeta comico, a quem alguns tem dado o nome de Plauto portuguez. – N. na cidade do Rio de Janeiro a 8 de Maio de 1705, sendo filho de João Mendes da Silva, que exercia a advocacia n’aquella cidade, e de sua mulher Lourença Coutinho. Veiu para Lisboa em 1712 ou principios de 1713, na companhia de seu pae, e na mesma occasião (ao que parece) em que sua mãe era remettida para ser aqui entregue á Inquisição, a cuja ordem fora presa no Rio por culpas de judaismo. É mais que muito notorio o tragico fim d’este desventurado, que tendo conseguido escapar a primeira vez ao rigor do Sancto Officio, mediante a penitencia que lhe foi imposta no auto da fé que se celebrou em 13 de Outubro de 1726, cahiu novamente passados onze annos nos carceres do mesmo terrivel Tribunal, de que só sahiu para a fogueira em 19 de Outubro de 1739.[1] – N’esta lamentavel catastrophe tiveram tambem parte sua velha mãe, e sua esposa Leonor Maria de Carvalho, com a qual casara em 1734, como tudo consta da Lista (impressa) das pessoas que sahiram condemnadas no auto publico da fé que se celebrou na igreja do convento de S. Domingos de Lisboa no domingo 18 de Outubro de 1739, sendo Inquisidor Geral o Cardeal Nuno da Cunha: documento authentico e curioso, de que vi exemplares em poder dos meus amigos os srs. Manuel Bernardo Lopes Fernandes e Antonio Joaquim Moreira. N’elle se acham tres verbas ou assentos, que dizem respeito a pessoas d’esta perseguida e desditosa familia: e são como se segue:

Sob o titulo: «Pessoas relaxadas em carne.» N.° 7. Idade 34 annos» Antonio José da Silva, x. n. (christão novo), advogado, natural da cidade do Rio de Janeiro, e morador n’esta de Lisboa occidental, reconciliado que foi por culpas de judaismo no auto da fé, que se celebrou na Igreja do Convento de S. Domingos d’esta mesma cidade em 13 de Outubro de 1726. «Convicto, negativo e relapso.»

Sob a rubrica: «Pessoas que não abjuram, nem levam habito» vem – N.º 5. Annos de idade 27. Leonor Maria de Carvalho, x. n., casada com Antonio José da Silva, Advogado, que vai na Lista, natural da villa da Covilhã, bispado da Guarda, e moradora n’esta cidade de Lisboa occidental, reconciliada que foi por culpas de judaismo no auto publico da fé que se celebrou na igreja de S. Pedro da cidade de Valhadolid, reino de Castella, em 26 de Janeiro de 1727: presa segunda vez por relapsia das mesmas culpas. Pena: carcere a arbitrio. – N.° 6. Annos de idade 61. Lourença Coutinho, x. n., viuva de João Mendes da Silva, que foi advogado, natural da cidade do Rio de Janeiro, e moradora n’esta de Lisboa occidental, reconciliada que foi por culpas de judaismo no auto publico da fé, que se celebrou no Rocio d’esta mesma cidade em 9 de Julho de 1713; presa terceira vez por relapsia das mesmas culpas. Pena: carcere a arbitrio.

O processo original do infeliz judeu existe hoje no Archivo Nacional da Torre do Tombo, para onde passou incluido nos demais papeis dos cartorios das Inquisições, que alli se recolheram no anno de 1821. Consta‑me que d’elle tirara, ou fizera tirar uma copia exacta o sr. Varnhagen, a qual segundo creio remetteu para a côrte do Rio de Janeiro. O sr. M. B. Lopes Fernandes extrahiu egualmente as peças e documentos mais importantes do processo, e os conserva em seu poder com muitas outras curiosidades, de que ha feito uma vasta e estimavel collecção.

Além do pouco que Barbosa nos deixou na Bibl. Lus., tomos I e IV, ácerca de Antonio José (escripto com tal reserva, que nem ao menos se allude ao seu tragico fim, como que fosse completamente ignorado o genero de morte que elle soffrera) diversas biographias e noticias mais ou menos extensas tem sido publicadas nos tempos modernos. Apontarei aqui as que até agora me vieram á mão.

Sismondi na sua mui conhecida obra De la Litterature du midi de l’Europe, tomo II da edição de Bruxellas 1837, a pag. 668 e 669 alguma cousa diz com respeito ao infeliz poeta brasileiro; porém ahi as inexactidões são quasi tantas como as palavras. Assim por exemplo, diz que elle fora queimado no ultimo auto de fé em 1745: não menos de dous erros palpaveis nos offerece este periodo; primeiro inculcar como acontecido em 1745 um facto que (como já se mostrou) teve logar em 1739: segundo, dar o anno de 1745 como o ultimo em que houve autos da fé em Portugal, quando estes continuaram muito tempo depois, e ainda em 20 de Septembro de 1761 foi celebrado em Lisboa aquelle em que subiu ao patibulo o jesuita Malagrida. Omitto por brevidade a analyse do resto.

Seguiu‑se o sr. Ferdinand Denis, que no seu Résumé de l’Histoire Litteraire du Portugal, capit. 27, tractando de Antonio José, e detendo‑se mais nas considerações criticas sobre o merito do poeta e de suas composições, quanto á parte biographica, deixou‑a no mesmo estado em que parece a achara na obra de Sismondi, addiccionando apenas uma circumstancia, e essa inexacta; qual é, que o conde da Ericeira, dado gratuitamente como protector do pobre israelita, morrera mui cedo para que podesse arrancal‑o á morte horrorosa que terminou seus dias. Ora: Antonio José foi queimado como acima se provou, a 19 de Outubro de 1739, o conde da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes só morreu a 21 de Dezembro de 1743, vindo por conseguinte a sobreviver áquella catastrophe mais de quatro annos completos: logo, etc.

O que porém não deixa de ser mais para estranhar e que estas inexactidões, assas desculpaveis nos escriptores estrangeiros, hajam sido posteriormente repetidas por outros nacionaes, que as teriam evitado se ao menos consultassem a Bibl. de Barbosa. Assim as vemos reproduzidas em um artigo intitulado Vista de olhos sobre a historia do theatro portuguez, que vem na Illustração, Jornal Universal, 1845, tomo I pag. 167, escripto por J. M. da Costa e Silva, e egualmente no Diccionario Geographico, Historico, Politico e Litterario de Portugal por Paulo Perestrello da Camara, impresso no Brasil em 1850, no tomo II etc.

Veiu depois o sr. Varnhagen com a biographia, que offereceu ao Instituto Historico Geographico do Brasil, e que foi publicada na Revista Trimensal, segunda serie, tomo II, 1847, de pag. 114 a 124.-Anda egualmente inserta no Florilegio da Poesia Brasileira do mesmo sr., no tomo I, pag. 201 a 214.

Apoz esta, ou pelo mesmo tempo, imprimiu o Sr. João Manuel Pereira da Silva no Rio de Janeiro o seu Plutarco Brasileiro, e no tomo I (1847) a pag. 253 e seguintes inseriu uma biographia de Antonio José, na qual se notam varios descuidos e incorrecções, tanto mais inexplicaveis quanto parece certo que o erudito auctor tivera presente a Bibl. Lus., pela qual bem poderia corrigil‑os. Assim diz por exemplo, que os chronistas comtemporaneos do sobredito não mencionam nem os nomes, nem as qualiades de seus progenitores: pois não leu em Barbosa tomo I pag. 303 que elle fora filho de João Mendes da Silva, Advogado, e de Lourença Coutinho?-E o que ainda menos entendo é que logo adiante conta elle entre os amigos que procuravam e conversaram até o fim Antonio José, um seu compatriota João Mendes da Silva, isto é, o proprio pae, que segundo o testemunho de Barbosa no tomo IV pag. 186 faleceu de 80 annos a 9 de Janeiro de 1736; e por conseguinte quasi quatro annos antes do deploravel transito do filho!-Outras mais inexactidões poderia aqui notar, não esquecendo a de fazer o papa Sixto V eleito (como o proprio auctor diz) em 1585, contemporaneo de Fernando o Catholico de Castella, que morreu a 23 de Janeiro de 1516, e de attribuir áquelle pontifice a introducção da Inquisição em Hespanha, quando esta foi erecta definitivamente mais de cem annos antes, e por Sixto IV, sendo a bulla da creação d’aquelle Tribunal datada do 1.º de Novembro de 1478 (Vej. Llorente na Hist. Critique de l’lnquisition, tomo I).

José Maria da Costa e Silva no Ensaio biographico‑critico sobre os Poetas portuguezes tambem consagrou á narração da vida de Antonio José e ao exame de suas obras o cap. 4.° do livro XXV, que vem no tomo X e ultimo dos até agora publicados, de pag. 328 a 371. Conhece‑se que teve á vista o trabalho já mencionado do sr. Varnhagen, e que d’elle aproveitara alguma cousa, servindo‑lhe ao mesmo tempo de grande auxilio o extracto do processo, que lhe foi franqueado pelo sr. M. B. Lopes: mas para não deixar de tropeçar como de costume em algum descuido, affirma a pag. 334 que a mulher e a mãe d’aquelle desgraçado foram condemnadas a fazer abjuração publica no auto da fé, que é exactamente o contrario do que consta da lista impressa e authentica que acima transcrevi.

Por ultimo, appareceu na Illustração Luso‑Brasileira 1856, pag. 190 a 192 uma nova biographia assignada pelo sr. J. Ramos Coelho, a qual na parte historica propriamente dita offerece mui pouca novidade, e envolve ainda algumas leves inexactidões, que podem facilmente rectificar‑se pelo que fica dito no presente artigo: taes são a data da vinda de Antonio José para Portugal, a patria ou naturalidade de sua esposa, etc.

Concluirei estes apontamentos, talvez já em demasia extensos, e mal alinhavados, dizendo que o sr. Ruscalla, elegante traductor italiano da Marilia de Dirceu e do Fr. Luis de Sousa de Garrett, publicou em Turim (segundo me consta) no anno de 1852, uma vida, ou biographia de Antonio José com o titulo Il Giodeo Portoghese, per Vegezzi Ruscalla: porém apesar das minhas diligencias ainda a não poude vêr.

Passemos agora a tractar das obras que nos restam de Antonio José. As que em sua vida se imprimiram, conforme a Bibl. de Barbosa e o Catalogo da Academia são as seguintes:

917) (C) Labyrinto de Creta. Lisboa, por Antonio Isidoro da Fonseca 1736 8.º

918) (C) As Variedades de Protheo. Ibi, pelo mesmo 1737. 8.º

919) (C) Guerras do Alecrim e Mangerona. Ibi, pelo mesmo 1737. 8.º

920) Glosa ao soneto de Camões «Alma minha gentil, que te partiste, na qual exprime Portugal o seu sentimento na morte da sua bellissima Infanta a Senhora D. Francisca. São quatorze oitavas, e sahiram juntas com outras poesias nos Accentos saudosos das Musas Portuguezas ao mesmo assumpto. Parte I. Ibi, pelo mesrno impressor 1736. 4.º, folheto de 40 pag. não numeradas, do qual tenho um exemplar

As tres operas das edições indicadas são hoje muito raras.

Depois do desastroso fim de seu auctor, reimprimiram‑se todas as referidas, e se lhe annexaram outras, até então manuscriptas, a saber: Vida de D. Quixote, Esopaida ou Vida d’Esopo, Precipicios de Phaetonte, Amphitrião ou Jupiter e Alcmena, os Encantos de Medéa. De umas e outras se formaram ao principio dous tomos de 8.º, a que pelo tempo adiante, e depois de varias reimpressões se annexaram outros dous volumes de operas de diversos auctores, formando ao todo a collecção completa, que na ultima edição (hoje a mais vulgar) corre com os titulos seguintes:

921) Theatro Comico Portuguez, ou Collecção das Operas Portuguezas que se representaram na casa do Theatro Publico do Bairro Alto de Lisboa, offerecidas á muito nobre senhora Pecunia Argentina. Tomos I e II. Lisboa, na Off. de Simão Thaddeo Ferreira 1787. 8.º

922) Theatro Comico Portuguez, ou Collecção das Operas Portuguezas que se representaram nas casas dos Theatros Publicos do Bairro Alto e Mouraria de Lisboa. Offerecidas á muito nobre etc.Tomos III e IV. Ibi, pelo mesmo Impressor 1792. 8.º

Estes quatro volumes, que andam no Catalogo de Salvà cotados em 1 lb 1 sh, correm em Lisboa por modicos preços, posto que a edição esteja ha muitos annos exhausta: mas esta falta suppre‑se com os volumes das edições anteriores, que tambem apparecem com maior ou menor facilidade. O maximo preço dos exemplares bem tractados tem sido de 960 a 1:440 réis.

Para dar aos que a pretenderem uma idéa clara de tudo o que ha com respeito ás diversas edições d’estas operas, e ao mais que a ellas pertence, entendi que outra cousa não podia fazer de melhor que transcrever para aqui com a devida venia, o artigo do sr. Varnhagen, que investigou miudamente a materia, copiando‑o na sua integra da Revista Trimensal do Instituto do Brasil, tomo II da segunda serie. Diz pois.

«Quanto ás obras d’este poeta, ha engano em attribuirem‑se‑lhe todos os quatro volumes do Theatro Comico, sendo certo que as do terceiro e quarto tomos, que em geral só contribuiriam a diminuir‑lhe o merecimento, quasi todas são conhecidamente de outros auctores. Assim, v. g. o Adolonimo em Sidonia é uma imitação do Alessandro em Sidone publicado nas obras de Zeno: Adriano em Syria é a traducção da Opera do mesmo nome por Metastasio: Filinto perseguido é o Siroc em Seleucia do mesmo Metastasio: os Novos Encantos de Amor vem em todas as bibliothecas como uma das obras de Alexandre Antonio de Lima, e verdadeiramente não é mais que uma imitação do hespanhol etc.

«Quanto ás edições d’estas obras: Depois da morte do auctor propoz‑se Francisco Luis Ameno a imprimir com o titulo de Theatro Comico uma collecção de conhecidas peças portuguezas, cujo numero elle reduziu a quarenta e oito: obteve para isso privilegio de dez annos e publicou em 1744 na Officina Silviana os dous primeiros volumes em 8.º contendo as Operas de Antonio José precedidas de estampas allegoricas, e promettendo para o terceiro e quarto volumes Adriano em Syria, Semiramis, Filinto, Adolonimo, Nympha Siringa etc. Tendo porém alguma demora em cumprir a sua promessa, houve outro individuo que em 1746 na Officina de Ignacio Rodrigues publicou estas cinco promettidas peças, e alem d’ellas mais tres, em dous tomos tambem de 8.º, e com o titulo de Operas Portuguezas.

«Ameno reimprimiu em 1747 os dous volumes publicados por elle tres annos antes; mas teve que mudar o segundo paragrapho do prologo, que se referia ás peças que havia promettido. No que de novo escreve diz- que não poude dar as peças promettidas por haver d’estas auctor vivo, que não consentiu que outro as imprimisse.-Do que fica claro, que não era seu auctor Antonio José, que deixara d’existir em 1739. Accrescenta – que havendo‑se feito d’ellas uma edição (allude aos dous volumes com o titulo de Operas Portuguezas publicados em 1746) se propunha a continuar a collecção com outras operas que nomêa. D’estas operas algumas foram impressas avulsas, mas a collecção não continuou tal. O que succedeu foi em 1751 fazer‑se outra edição dos dous volumes de 1746, e em 1753 repetir‑se em terceira edição os dous volumes do Theatro Comico, seguindo‑se outra em 1759. Foi esta a quarta edição dos dous volumes, a que pela primeira vez se annexaram em 1760 e 1761 sob a rubrica de tomos III e IV do dito Theatro Comico, os mesmos até então intitulados I e II das Operas Portuguezas, das quaes verdadeiramente esta edição foi terceira.

«Uma tal associação de volumes e de titulos repetiu‑se na ultima edição, tambem em quatro volumes, feita na Officina de Simão Thaddeo Ferreira em 1787‑1792, e n’ella se conservou ainda todo o prologo da edição de 1747, cujo segundo periodo se havia já supprimido em uma das edições anteriores. Esta vem a ser quinta dos tomos I e II, e quarta dos tomos III e IV, não falando das impressões avulsas. Das edições de cordel ha tambem as Guerras do Alecrim, 1770, em 4.º, vindo assim d’esta comedia a existir em pelo menos sete edições.

O D. Quixote mereceu a honra de ser traduzido em francez na collecção dos Chefs d’OEuvre des Theatres Étrangers pelo sr. Ferdinand Denis.»

Até aqui o sr. Varnhagen. Não abrirei ainda mão d’este artigo sem amplificar uma idea do dito senhor, fazendo sentir uma cousa, em que me parece que ninguem fez ainda reparo. A pag. 123 da citada Revista diz elle: «Ninguem ousa no Theatro Comico pronunciar o nome de Antonio José; entretanto descobre‑se que a elle alludem no titulo as expressões- que se representaram etc.» – Parece‑me que alem d’essas allusões longiquas a que o illustre biographo se refere, ha outra muito mais explicita, da qual lhe escapou fazer menção.

No tomo I da edição do Theatro Comico de 1787 (que é a que possuo e tenho agora presente) vem de paginas 6 até 8 sob o titulo «Ao Leitor Desapaixonado» uma advertencia preliminar, que inculca ser do proprio auctor das Operas, até por se distinguir de outra, que a esta se segue de pag. 9 a 12 com o titulo «Advertencia do Collector.» Não direi agora se aquella primeira advertencia passou para alli das edições anteriores do mesmo Theatro, ou se já foi trasladada de alguma das Operas avulsas impressas ainda durante a vida de Antonio José: mas o certo é que ella, não só inculca, como digo, ser do proprio auctor das Operas, mas indica claramente quem elle seja nas duas decimas que a terminam, e que por serem acrosticas, dão aquelle nome reunindo as primeiras letras de cada verso, como passo a mostrar escrevendo‑as convenientemente: assim ficarão de uma vez desterradas todas as duvidas, e bem conhecido o designio com que as duas decimas foram ali introduzidas.

 

Amigo leitor, prudente,

Não critico rigoroso,

Te desejo, mas piedoso

Os meus defeitos consente:

Nome não busco excellente

Insigne entre os escriptores;

Os applausos inferiores

Julgo a meu plectro bastantes,

Os encomios relevantes

São para ingenhos maiores.

 

Esta comica harmonia

Passatempo é douto e grave;

Honesta, alegre, e suave

Divertida a melodia:

Apollo, que illustra o dia,

Soberano me reparte

Idéas, facundia, e arte,

Leitor, para divertir‑te,

Vontade para servir‑te,

Affecto para agradar‑te.

 

[1] Um meu amigo teve a bondade de advertir-me que julgava achar contradicção néste logar, pois se dava Antonio José queimado a 19 de Outubro, ao passo que quatro linhas mais abaixo se transcrevia o titulo da Lista dos condemnados, da qual consta que o auto da fé se celebra a 18 do dito mez.-Esta especie não passou de mim desapercebida, quando deixei ir a suposta incoherencia, transcrevendo de Barbosa no tomo IV a data de 19, e da Lista a de 18. Assim, para remover o escrupulo d’aquelle cavalheiro, e de outros a quem por ventura se affigure encontrarem a mesma contradicção, é mister que attendam a que a execução final dos condemanados ao fogo era cousa diversa e mui distincta da celebração do auto da fé, tendo logar em muitos casos no dia immediato ao d’esta cerimonia; porque o tempo nem sempre chegava para a leitura de todas asa sentenças, quzando era avultado o numero dos que sahiram no auto, e ellas ás vezes assás extensas; indo depois os relaxados conduzidos para o Tribunal da Relação, onde se lavrava o acordam, que manadava infligir a pena capital, com o que já nada haviam os Inquisidores. Estes, como é sabido, terminavam o seu officio entregando os réos á Justiça Secular, a quem pediam com muita instancia se houvessem para com os ditos réos benigna e piedosamente, sem procederm a pena de morte, nem effusão de sangue. – O resto fazia-o a ordenação do reino, e os ministros encarregados de a cumprirem.

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]