P. IERONIMO LOBO Naceo em Lisboa de Pays illustres chamados Francisco Lobo Governador de Cabo Verde e D. Maria Brandaõ. Ao tempo, que estudava letras humanas em Coimbra, e tinha de idade quatorze annos e meyo se alistou na Companhia de IESUS em o primeiro de Mayo de 1609. e fez a profissaõ de quarto voto a 5 de Ianeiro de 1629. Como anhelasse o seu zeloso espirito annunciar o Evangelho às Naçoens Orientaes alcançada faculdade dos Superiores se embarcou a 29 de Abril de 1621. em a Náo Capitania Conceiçaõ com o Vicerey do Estado D. Affonso de Noronha, porem foy taõ infausta a jornada assim pelos perigos, como pelas infermidades, que padeceraõ os navegantes, que voltou a 7 de Outubro para Portugal. Segunda vez intentou taõ perigoza navegaçaõ, e sahindo do porto de Lisboa com vento prospero a 18 de Março de 1622. embarcado na Capitania com o Vicerey D. Francisco da Gama Conde da Vidigueira experimentou mayores infortunios procedidos do sanguinolento combate, que houve entre as náos Inglezas, e Olandezas com a nossa Armada em o porto de Moçambique onde pereceo lastimosamente a Almiranta Portugueza até que aportando em Cochim a 8 de Outubro, e passados alguns dias entrou em Goa. Entre os Apostolicos cultores do Imperio da Etiopia foy destinado para taõ gloriosa empreza, e depois de ter padecido intoleraveis molestias chegou a Baylur porto delRey de Dancali juntamente com o Patriarcha da Etiopia D. Affonso Mendes onde reduzio muitos scismaticos à obediencia da Igreja Romana. Em Fremona Capital do Reyno de Tigrè assistio algum tempo ocupado na cultura daquella Christandade donde partio no anno de 1626. a tresladar para mais decente lugar os veneraveis ossos do illustre Martyr D. Christovaõ da Gama, que jaziaõ no Campo de Ofalá situada nos confins de Tigré, e os remeteo ao Conde da Vidigueira Vicerey do Estado sobrinho deste esclarecido Heroe. Havendo assistido na Residencia dos Damotes, e investigado com observaçaõ Filosofica o nacimento do Rio Nilo partio para Dambiá Corte do Emperador da Etiopia o qual querendo, que voltasse para o Reyno de Tigré tolerou com animo inalteravel horriveis opressoens dos mouros até que saciada a sua cubiça se restituhio a Goa a 8 de Dezembro onde reprezentou ao Conde de Linhares Vicerey do Estado os meyos mais proporcionados para naquelle Imperio florecer a Religiaõ Catholica combatida pela scismatica cegueira da Igreja de Alexandria. Ainda naõ tinha descansado do desterro da Etiopia, e cativeiro de Suaquem, quando se conjuráraõ novos infortunios para exame da sua tolerancia. Determinando passar a Portugal se embarcou em a Náo Nossa Senhora de Belem, e sahindo da barra de Goa a 23 de Fevereiro de 1635. naufragou lastimosamente em a Costa do Natal onde em diversos tempos se tinhaõ perdido quatro Náos Portuguezas. He dificil de crer, e muito mais de narrar as miserias, fomes, e traiçoens, que experimentou com os outros navegantes da infidelidade dos Cafres até se fabricarem duas embarcaçoens das reliquias da Náo destroçada, que o mar lançava nas prayas, e embarcado em huma, que tinha sessenta, e dous palmos de quilha, quinze de largo, e outo de pontal depois de vencer outra tempestade, que quasi o teve sumergido, aportou em Loanda Capital do Reyno de Angola com 48 dias de jornada, e sahindo a terra discorreo pelas ruas disciplinando-se, e todos os seus companheiros em satisfaçaõ do voto, que fizera, pelos repetidos perigos a que estiveraõ expostas as suas vidas. Deste porto se embarcou para as Indias Occidentaes com tençaõ de passar seguramente a Hespanha, e sahindo com o Governador D. Manoel Pereira Coutinho, passados dous mezes de prospera navegaçaõ foraõ acometidos juntos da Ilha de Zambe por hum Cossario Olandes, que logo os rendeo aproveitando-se de outocentos escravos, que vinhaõ em a Náo, e de tudo o mais que julgou conveniente à sua ambiçaõ. Em Carthagena se embarcou em hum dos Galeoens da Frota Castelhana, e chegando a Cadiz passando por Saõ Lucar, e Sevilha entrou em Lisboa a 8 de Dezembro de 1636. donde havia quatorze annos se tinha auzentado. Naõ podia o seu ardente zelo descançar hum breve espaço em beneficio da Christandade da Etiopia por cuja causa partio a Madrid em 20 de Janeiro de 1637. reprezentar a Filippe IV. a necessidade, que havia da sua conservaçaõ. Este mesmo o levou a Roma onde entrou a 9 de Mayo do anno seguinte, e discorrendo por Napoles, Milaõ, Barcelona, e Valença se restituhio a Lisboa. Terceira vez se embarcou para a India em 26 de Março de 1640. com o Vicerey do Estado Ioaõ da Sylva Tello Conde de Aveiras, e logo, que ferrou Goa a 17 de Setembro foy recebido pelos seus Padres com affectuosas demonstraçoens admirados dos immensos trabalhos, que constantemente tinha tolerado o seu espirito sempre superior a todas as calamidades. Havendo sido Provincial da Provincia de Goa foy eleito Prepozito da Caza professa no anno de 1648. tempo em que governava o Estado D. Filippe Mascarenhas o qual arrebatado de huma cega resoluçaõ o mandou prender publicamente pelo Ouvidor Geral do Crime, e levado ao carcere do Convento de S. Francisco por ter recolhido a hum Fidalgo, que o Vicerey sospeitava ser complice de hum desacato, que contra elle fizeraõ os seus inimigos. Tolerou o Padre esta grave afronta com animo imperturbavel, e sendo manifesta a sua innocencia sahio da prizaõ com mayor gloria do que a injuria com que nella fora recluzo. Da India voltou a Roma onde nomeado pelo Geral Reytor do Collegio de Coimbra, como experimentasse o seu clima pouco benigno à sua saude se absolveo do governo. A sua ultima morada foy a Caza professa de Saõ Roque de Lisboa onde depois de ter discorrido de Norte a Sul, de Leste a Oeste, e de Oriente a Poente por mar, e terra mais de trinta, e outo mil legoas em que experimentou calores excessivos frios intoleraveis, e tempestades medonhas em que muitas vezes teve exposta a vida ao ultimo perigo, ou fosse pela violencia da fome, ou pela tyrania da gentilidade chegou ao feliz termo de tantas perigrinaçoens a 29 de Ianeiro de 1678. que foy o principio do seu eterno descanso quando contava 82. annos de idade, e 69 de Religiaõ. Illustre Missionario da Etiopia o intitula o Padre Telles Hist. da Etiop. Alt. liv. 5. cap. 7. e dotado de Deos de hum espirito incansavel para sofrer trabalhos por sua gloria. Franco Ann. Glorios. S. J. in Lusit. p. 44. laborum helluo insatigabilis. e Annal. S. J. in Lusit. pag. 365. n. 6. Vir natus ad labores propemodum infinitos pro bono animarum ac Dei gloria exanthlandos. Compoz.

Itinerario das suas viagens. M. S. Acaba com estas palavras. O que contey foy por grosso, que o particular dos trabalhos, e a variedade delles he taõ impossivel contarem-se quam trabalhosa cousa experimentarem-se. Desta obra faz seu author memoria na Censura, que por ordem do Doutor Miguel Tinoco Provincial da Companhia de JESUS da Provincia de Portugal fez à Historia da Etiopia Alta composta pelo Padre Balthezar Telles em 16 de Janeiro de 1658. dizendo, que para a construçaõ da dita Historia se valera tambem das noticias de hum largo Itinerario que eu fiz. Delle faz repetida mençaõ o dito Padre Telles na referida Hist. da Etiopia liv. 1. cap. 5. confessando lha communicara seu author, e tambem o Padre Franco Imag. da Virtud. do Nov. de Coimb. Tom. 1. liv. 3. cap. 93 n. 1 . e cap. III. n. 17. affirmando, que o Original desta obra se conserva na Caza professa de S. Roque, o qual naõ sendo impresso na lingua Portugueza em que foy composto, sahio traduzido em diversas linguas, pois na Ingleza o verteo Sotuvvel y Toyson Enviado de Inglaterra a Portugal com este titulo.

A short relation of the river Nile. London. 1673. 8. Desta traduçaõ faz memoria Iobo Ludolpho Hist. Etiop. p. 13. n. 61. Lourenço Magolotti Florentino a verteo de Inglez em Italiano, e sahio em Florença. 1693. 4. com este titulo.

Relazioni varie cavate de una traduzione Ingleza del Original Portughese fatta di Girolamu Lobo Jesuita. Desta traduçaõ se lembra o Padre Niceron Memoir. Pour servir al Hist. des Hommes Illustr. Tom. 3. pag. 235.

Sahio traduzida em Francez por Melchisedech Tevenot com outras Relaçoens. Pariz chez Andre Cramoisy. 1671. fol. e ultimamente na mesma lingua com o titulo seguinte.

Relation historique d’ Abissinie continueè, e augmentèe de plussiurs dissertations, letres, e Memoires par M. LeGrand Prieur de Neuville-les-Dames, e de Prevessin. Pariz chez la Veuve de Antoine Urbain Coustelier. 1728. 4.

No tempo em que Monseur Legrand assistia por Secretario do Abbade de Estreés Embaxador de França nesta Corte lhe deu o Excelentissimo Conde da  Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes huma copia do Itinerario do P. Ieronimo Lobo ao qual acrecentou Monseur Legrand algumas cartas, e memorial, e quinze Dissertaçoens que se podem ler nesta Traduçaõ Franceza onde no Prologo a pag. 6. faz o seguinte Elogio ao author do Itinerario. Cè zelè Missionaire se fait asses connoitre dans toute sa Relation: on voit un homme a la fleur de son agé, d’un complexion forte, e robuste, laborieux, infatigable, s’ exposant tou’jours aux plus grands dangers; de sorte qu, on pout lui apliquer ces paroles du livre des Iuges. Animam suam dedit periculis. Aussi quels perils n’a tuil pas courus? Il auoit rason de repeter comme il faisoit, ces paroles de S. Paul: Ter naufragium feci, nocte, & die in profundo maris fui, in itineribus saepe, periculis fluminum, periculis latronum, periculis ex Gentibus, periculis in civitate, periculis in solitudine, periculis in mari, periculis in falsis fratribus.

Memorial a Sua Magestade Catholica em que se representaõ os trabalhos dos Cristaõs da Etiopia. M. S. Offereceu este papel quando veyo à Corte de Madrid no anno de 1638. Conservase na Bibliotheca delRey Catholico como escreve o addicionador da Bib. Orient. de Antonio de Leaõ Tom. 1. Tit. 12. col. 401.

Relaçaõ do Naufragio da Nào Nossa Senhora de Belem na Costa do Natal. Iozé Cabreira, que escreve este lamentavel sucesso, e se imprimio Lisboa por Pedro Craesbeeck. 1636. 4. diz no Prologo que o P. Ieronimo Lobo o tinha escrito difusamente pois fora hum dos que vinhaõ embarcado em a Náo, mas porque o naõ publicara, sahio Iozé Cabreira com a sua Relaçaõ.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]