D. IAYME quarto Duque de Bragança sahio à luz do mundo em o anno de 1479. sendo seus augustos Progenitores D. Fernando segundo Duque de Bragança, e a Infanta D. Izabel irmãa delRey D. Manoel, e filha do Infante D. Fernando primo com irmaõ do Duque seu Pay, e da Infanta D. Brites sua prima com irmãa. Naõ contava mais que quatro annos de idade quando para evadir da fatal tormenta em que estava quasi submergida a sua grande Caza passou acompanhado de seus Irmãos para Castella onde teve por Ayo a Lopo de Souza descendente por varonia delRey D. Affonso III. que o educou com aquelles documentos, que do seu alto nacimento se esperavaõ. Sublimado ao trono de Portugal ElRey D. Manoel, e querendo principiar a felicidade do seu Reynado por huma acçaõ heroica a que o impeliaõ a justiça da cauza, e o vinculo do parentesco mandou restituir ao Reyno a D. Iayme onde foy recebido por este Monarcha com benevolas demonstraçoens dando-lhe generosamente os Titulos, Estados, e preeminencias concedidas por seus coroados antecessores a taõ soberana Caza, e instituindo-o vocalmente herdeiro desta Coroa na ocaziaõ, que passou em o anno de 1498. a ser jurado sucessor da Monarchia Castelhana. Acompanhado de mil homens montados a cavallo, e preciosamente vestidos conduzio de Castella a Portugal a Infanta D. Maria filha dos Reys Catholicos para se despozar com ElRey D. Manoel, cuja cerimonia se executou na Villa de Alcacer a 30 de Abril de 1500. Resoluto este Principe a conquistar a Cidade de Azamor Praça, e porto celebre nas prayas do mar Athlantico na Mauritania Tingitana o nomeou em o anno de 1513 General de taõ famosa expediçaõ para a qual alistou por seu soldo quatro mil Infantes, e quinhentas lanças, que escolhera dos seus Estados fazendo-se mais pompoza a sua comitiva com cem cavalos acubertados em que montavaõ homens Fidalgos da sua Caza. Constava a armada de quatrocentas velas entre naos, fragatas, Caravelas, e outras embarcaçoens ligeiras guarnecidas de dezoito mil Infantes, e dous mil, e quinhentos cavalos distinguindo-se entre as principaes pessoas, que hiaõ embarcadas D. Rodrigo de Mello Conde de Tentugal depois Marquez de Ferreira, e D. Fernando de Faro filho de Sancho Conde de Faro ambos primos com irmaõ do Duque General: D. Affonso de Portugal depois Conde do Vimioso, e D. Fernando de Noronha herdeiro de D. Sancho de Faro III. Conde de Odemira ambos sobrinhos do Duque filhos de primos irmãos. Avistou a armada os muros de Azamor a 28 de Agosto, e dispostas em tres dias todas as cousas necessarias para a sua expugnaçaõ posto, que os defensores eraõ animosos, e o Governador da Praça Cide Mançor disciplinado na Arte militar como fosse morto de huma bala expedida do nosso campo se rendeo com pouco dispendio de sangue. Triunfante o Duque entrou na Praça onde sendo santificada a Mesquita com o incruento Sacrificio do Altar gratificou postrado por terra ao Deos dos exercitos a gloriosa vitoria, que alcançara dos Antigonistas do seu sagrado nome. Com a numerosa comitiva de cem alabardeiros, quarenta moços da Camara, seis moços Fidalgos, e trezentos homens de cavalo armados de lanças, e couras, de q era Capitaõ Antonio Lobo Alcayde mor de Monsarás, conduzio da Raya de Castella até a Villa do Crato a Infante D. Leonor irmãa do Emperador Carlos V. com a qual tinha passado a terceiras vodas o augustissimo Rey D. Manoel. Por morte deste Monarcha que foy para o coraçaõ do Duque o mais sensivel golpe, cingindo a Coroa deste Reyno D. Joaõ o III. ordenou, que fosse acompanhar a Raynha D. Leonor sua Madrasta até a entrada dos dominios de Castella, donde foy conductor da Infanta D. Catherina em o anno de 1524. futura espoza deste Principe, exercitando o mesmo ministerio quando a Emperatriz D. Izabel em o anno de 1526. sahio de Portugal para digna consorte do Cezar Austriaco. Da sua magnificencia saõ eternos padroens o Palacio da Villaviçosa sumptuoza habitaçaõ de seus sucessores; o soberbo Mausoleo levantado na Capella mór do Convento do Carmo de Lisboa para depozito das veneraveis, e triunfantes cinzas do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira de Mello seu III. Avò; a Capella mor do Convento dos Agostinhos de Villaviçosa para jazigo dos Senhores da sua Caza; e o Mosteiro de Santa Marinha da Costa junto da Villa de Guimaraens doado aos religiosos de S. Ieronimo. Do culto religioso para com Deos saõ evidentes testemunhas as primorosas peças de ouro, e prata, e os preciosos paramentos com que ornou a Capella Ducal de Villaviçosa, naõ sendo inferior a estes donativos o numero de Capellaens, e Musicos sustentados com largos estipendios para com magestoza pompa se celebrassem os Officios divinos. Da sua generosa profusaõ saõ indeleveis memorias as immensas despezas, que fez para a conquista de Azamor, e a guerra de Africa; os soberbos apparatos com que conduzio diversas Princezas assim para Castella como para Portugal; a profusa hospitalidade, que uzou pelo espaço de anno, e meyo com seus Cunhados o Duque de Medina, e Sidonia, e o Conde de Vrenha D. Pedro Giraõ; e os edificios, que erigio, e reedificou para ornato, e conservaçaõ dos seus Estados. Enfermando gravemente se dispoz com actos de verdadeiro Catholico para o ultimo instante, que o transferio à eternidade em Villaviçosa a 20 de Setembro de 1532,. quando contava 52 annos de idade. Iaz sepultado na Capella Ducal com este breve Epitafio como ordenou em seu Testamento.

Aqui jaz D. Jayme o IV. Duque de Bragança; falleceo aqui a XX de Setembro de M.D.XXXII.

Foy cazado duas vezes: a primeira em o anno de 1502. com D. Leonor de Menezes filha de Affonso de Gusmaõ III. Duque de Medina, e Sidonia V. Conde de Niebla, Marquez de Cazaca, Senhor de Gibraltar, e D. Izabel de Valasco filha de D. Pedro Fernandes de Valasco Condestavel de Castella, e Camareiro mór, cujo consorcio foy fatal a esta Senhora pois preocupado o Duque seu espozo de hum ciume, que a sua malencolica imaginaçaõ fez criminoso a privou violentamente da vida a 2 de Novembro de 1512. manchando com esta detestavel acçaõ a memoria do seu nome. Deste matrimonio naceraõ D. Theodosio I. do nome, e V. Duque de Bragança, e a Senhora D. Izabel, que cazou com o Infante D. Duarte irmaõ delRey D. Ioaõ o III. Passou a segundas vodas atrahido da fermosura de D. Ioanna de Mendoça Dama da Raynha D. Leonor filha de Diogo de Mendoça Alcayde mór de Mouraõ, e de D. Brites Soares filha de Ioaõ Soares da Albergaria Senhor do Prado de quem teve D. Iayme, que sendo Commendador de Alvarenga seguio a vida Ecclesiastica: D. Constantino Setimo Vicerey da India, que pelas suas heroicas acçoens gravou o seu nome no Templo da immortalidade. D. Fulgencio XI. Prior da Collegiada de Guimaraens: D. Theotonio Arcebispo de Evora de cuja piedade, e vigilancia pastoral deixou saudoza memoria: D. Ioanna, que se despozou com D. Bernardo de Cardenas Marquez de Elche: D. Eugenia, que cazou com D. Francisco de Mello II. Marquez de Ferreira: D. Maria, e D. Vicencia, que professando o Serafico instituto no Convento das Chagas de Villaviçosa finalizaraõ as vidas com universal opiniaõ de virtuosas. Fazem honorifica mençaõ do nome, e açoens do Duque D. Iayme Goes Chron. delRey D. Manoel Part. 1. cap. 13. 16. 46. e 62. Part. 2. cap. 46. Osorius de Reb. Emmanuel. lib. 1. Faria Europa Portug. Tom. 2. Part. 4. cap. T. n. 41. e Africa Portug. cap. 7. n. 94. Andrad. Chron. delRey D. Ioaõ III. Part. 1. cap. 3. e 93. Mariz Dial. de Var. Hist. Dial. 4. cap. 19. Monsiur de la Clede Historia de Portug. Tom. 1. pag. mihi 598. Monfort. Chron. da Prov. da Piad. liv. 2. cap. 2. Barbuda Emprez. Milit. de Lusit. fol. 170. v.° Rosseau Hist. De Portug. pag. 669. Purificac. Chron. dos Erimit. de Santo Agot. Part. 2. liv. 6. Tit. 6. §. 1. D. Nicul. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 6. cap. 12. Souza Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 5. liv. 6. cap. 8. Escreveo

Carta escrita de Villaviçosa em 7 de Novembro de 1530. a ElRey D. Joaõ o III. acerca do cazamento de sua filha a Senhora D. Izabel com o Infante D. Duarte irmaõ do mesmo Rey querendo este lhe desse em dote huma das principaes Villas da Caza de Bragança, cujo cazamento naõ teve naquelle tempo efeito por naõ querer o Duque assentir à vontade delRey. Começa. D. Antonio de Attayde me escreveo &c. Acaba. Nosso Senhor a vida, e o real Estado de V. A. guarde, e acrecente. He muito extensa, e cheya de expressoens arrogantes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]