IACINTO FREYRE DE ANDRADA. Naceo em a Cidade de Beja da Provincia Transtagana onde teve por progenitores a Bernardim Freyre de Andrada, e D. Luiza de Faria de igual nobreza à de seu conforte por se derivar do Castello de Faria na Provincia de Entre Douro, e Minho solar de huma das mais antigas Familias deste Reyno. O sublime genio, que logo descobrio nos primeiros annos para as letras, moveo a seu Pay para que frequentasse a aula de Minerva, e naõ a palestra de Marte em que elle em obzequio desta Monarchia tinha obrado açoens de eterna memoria. Instruido nos preceitos da lingua Latina, Poetica, e Oratoria passou à Universidade de Coimbra onde fez celebre o seu nome pelos acelerados voos com que se remontou o seu penetrante engenho com enveja de seus discipulos, e dos Mestres a investigar os arcanos da Theologia, e as dificuldades de huma, e outra Jurisprudencia, que todos se faziaõ patentes à sua profunda comprehensaõ. Resoluto a seguir a Vida Ecclesiastica recebeo o grao de Bacharel na Faculdade dos Sagrados Canones a 18 de Mayo de 1618. como propria do Estado, que elegera, e passando à Corte de Madrid mereceo distintas estimaçoens das principaes Pessoas da Jerarchia Ecclesiastica, e Secular que sendo devidas à nobreza do seu nacimento se fazia dellas mayor acredor pela sublimidade do talento. Naõ contava muitos dias de assistencia naquella Corte quando foy provido na Abbadia de Nossa Senhora da Assumpçaõ de Saõbade em o termo da Villa da Alfandega da Fé em a Provincia Transmontana, que era do Padroado Real, e posto, que era muito rendosa passou por nova nomeaçaõ para a Abbadia de Santa Maria das Chañs do mesmo Padroado situada em o Conselho de Tavares do Bispado de Viseu hum dos mais opulentos Beneficios deste Reyno. Conhecendo o primeiro Ministro de Castella a profundidade do seu juizo lhe participou alguns negocios graves, que felismente se concluiraõ pela madura direçaõ da sua prudencia. Ao tempo, que imaginava ser generosamente premiado pelos serviços que fizera em obsequio da Coroa Castelhana experimentou huma fatal tormenta ocasionada da fiel liberdade com que vocalmente, e por escrito defendeo o direito da Serenissima Caza de Bragança ao Trono de Portugal violentamente usurpado pela ambiçaõ de Filippe Prudente. Para evadir a prizaõ a que estava condenado sahio ocultamente de Madrid, e vencidos varios perigos buscou para azilo da adversidade, que o ameaçava a sua Igreja das Chañs onde assistio largo tempo, e posto que a lembrança da Corte lhe fazia mais intoleraveis a aspereza do Clima, e o horror da Solidaõ temperava estas molestias com a liçaõ dos livros em que consumia a mayor parte do tempo. Aclamado no anno de 1640. legitimo Sucessor da Coroa Portugueza o Serenissimo Rey D. Joaõ o IV. passou a Lisboa onde foy recebido deste Monarcha com agrado, da Nobreza com affecto, e do povo com veneraçaõ. Por morte do Principe D. Theodosio a quem foy summamente aceito, o elegeo ElRey D. Ioaõ para Mestre do Principe D. Affonso cujo lugar ainda que honorifico resolutamente regeitou prevendo, que os seus documentos haviaõ de ser inuteis para quem a natureza incapacitara para a disciplina. Determinado ElRey de ocupar o seu talento em alguma das Cortes da Europa, e naõ executando este intento lhe offereceo o Bispado de Viseu a cuja offerta respondeo com discreta galantaria que naõ queria gozar de huma dignidade em leite, pois naõ podia ser em carne alludindo à repugnancia com que os Pontifices naquelle tempo mais attentos à politica de Castella, que ao pasto das Igrejas de Portugal lhe negavaõ a confirmaçaõ dos Bispados. Deste apothegma jocoso, que os seus emulos interpretaraõ por liberdade indecorosa ao Principe se seguio ser julgado por incapaz de ministerio quem era taõ resoluto nas açoens, e claro nas palavras. Conhecendo, que somente as lizonjas eraõ premiadas na Corte se retirou para a sua Igreja onde dominava a sinceridade, da qual o obrigou ausentar-se a assistencia de sua irmãa D. Maria Coutinho, que morava em Lisboa com a qual viveo alguns tempos ocupado na cultura dos livros em que achava a mayor deleitaçaõ até que mais cheyo de merecimentos, que de annos pois naõ excediaõ de 60 espirou placidamente a 13 de Mayo de 1657. em as cazas proprias situadas às portas de Santo Antaõ. Jaz sepultado na Parochial Igreja de Santa Justa em humilde jazigo, digno certamente que fosse deposito das suas cinzas o mais sumptuozo Mausoleo. Teve a estatura mais que ordinaria, o aspecto malencolico, e grave de tal forte, que olhado infundia respeito; a conversaçaõ agradavel com apothegmas igualmente galantes que agudos; o trato com as pessoas taõ moderado, que nem era arguido de severo, nem acuzado de facil. Como inimigo jurado da adulaçaõ fallou sempre com liberdade estranhando aos fautores de açoens criminosas, e proferindo o seu voto com mayor atençaõ à conciencia do que ao respeito de quem o consultava. Foy com os pobres liberalmente charitativo; com os humildes sumamente humano; e com os Fidalgos parcamente comunicavel. Teve natural afluencia, e elegancia para a Poezia Vulgar alcançando a palma entre os mais suaves Cisnes do Parnasso Portuguez, sendo os seus Versos serios, ou jocosos claros indices da sua fecunda, e discreta Musa. Mayor espirito mostrou na composiçaõ da Historia onde o seu judicioso talento dilatou mais vastamente a delicadeza dos seus pensamentos. Persuadido das repetidas instancias do Bispo Inquisidor Geral D. Francisco de Castro neto do clarissimo Varaõ D. Joaõ de Castro 4. Vicerey da India escreveo a vida deste Heroe com taõ elegante frase, que deixou duvidosa a posteridade se fora mais feliz D. Joaõ de Castro pelo que obrou com a espada no Oriente, se pela penna com que descreveo Jacinto Freyre as suas gloriosas, e immortaes açoens em todo o mundo. Nesta primorosa obra excedeo a magestoza pompa dos Livios, Curcios, e Tucidedes uenerados Oraculos da Historia Romana, e Grega uzando de estilo altiloquo, e corrente, palavras naturaes, e elegantes; pensamentos agudos, e claros. Cada clausula he filha da eloquencia mais sublime, e cada periodo parto da locuçaõ mais discreta. Persuade com eficacia, discorre com juizo, reprehende com moderaçaõ, e louva sem lizonja. Igual methodo se admirou nas suas cartas naõ se distinguindo o estilo familiar com que tratava aos seus amigos daquelle a que o respeito das pessoas fazia ser mais severo. Vir ingenio selectissimo o intitula Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. H. n. 36. Cardoso Agiolog. Lusit. Tom. 2. pag. 140. no Coment. de 2. de Março letr. C. O Abbade Jacinto Freyre de Andrade na celeberrima Vida de D. Joaõ de Castro. Souza Apparat. a Hist. Gen. da Caz. Real. pag. 106.§ . 113. do seu admiravel talento, e discriçaõ nos deixou irrefragavel testemunho naquella inimitavel obra da Vida de D. Joaõ de Castro quarto Vicerey da India em que a eloquencia, e pureza da nossa lingua se admira em hum estilo taõ sublime que he huma das obras mais singulares, que . Se tem escrito, e por isso igualmente estimada naõ Só dos nossos, mas dos Estrangeiros. Teixeira Vid. de Gom. Freyre de Andrade Part. 1. liv. 2. § . 75. a Corte o venerava Demosthenes Lusitano, e o Reyno Cicero Portuguez. Franckenau Bib. Hisp. Gen. Herald. pag. 198. Diogo Gouvea de Barradas Antig. de Beja. liv. 3. cap. 27. Iacinto Cordeiro Elog. dos Poet. Lusit. Estanc. 34.

Jacinto Freyre gloria de Helicona

De Andrade lustre de su nombre gloria

Si flor le jacta, y piedra perficiona

La gala deste nombre amable historia;

Merece con justicia la corona

Que le escrive el ingenio en la memoria

Del Templo de la fama a que le llama

Tan immortal con el será la Fama.

Compoz.

Vida de D. Joaõ de Castro quarto Vicerey da India. Lisboa na Officina Crasbeeckiana. 1651. fol. & ibi por Ioaõ da Costa. 1671. fol. & ibi pelos herdeiros de Miguel Manescal. 1703. fol. & ibi na Officina da Musica. 1722. 8. & ibi por Antonio Isidoro da Fonceca. 1736. 4. Sahio traduzida na lingua Ingleza por Peter Wichek com este titulo. The life of Dom John de Castro The Fourth Viceroy of India. London por Henry Herringman. 1664. fol. e ultimamente na lingua Latina pelo Padre Francisco Maria del Rosso da Companhia de JESUS. Roma ex Typographia Rochi Barnabò. 1727. 4. O juizo, que o tradutor faz do Author da obra he o seguinte. Scriptor, quem interpretandum suscepi, ut magni est apud Lusitanos nominis, ita nationibus caeteris non improbabitur; habet enim in narrando non mediocrem jucunditatem, & illaboratum candorem; pressus est, et velox ut historicum decet, quin tamen obscurus sit, vel supinus: elegantiam sectatur, sed non jejunam, acumen sed minime illiberale. Nesta ediçaõ sahio com o Retrato de D. Ioaõ de Castro primorosamente aberto, e na parte inferior animado com o seguinte dysticho.

Qualis quantus erat pietate insignis, & armus

Spirat adhùc pietá Castrius in Tabulá.

Portugal Restaurado. He traduçaõ da obra intitulada Lusitania Liberata que compoz o Illustrissimo Capellaõ mòr D. Manoel da Cunha, que sahio sem o seu nome. Foy dedicada a traduçaõ impressa sem anno, nem lugar em 24 a Serenissima Raynha de Portugal D. Luiza Francisca de Gusmaõ fechando o tradutor a Dedicatoria feita a 20 de Março de 1645. com estas discretas palavras. Aqui naõ há cousa minha se naõ os erros da Versaõ, porque traduzir naõ he mais, que levar hum recado alheo, que eu aceitei para com elle me pòr de joelhos aos pés de V.

Magestade.

Origen, y progresso de la Caza y Familia de Castro y de los grandes hombres, que há havido en ella desde su principio hasta nuestros tiempos sacado de Chronicas, Historias, y otros Autores dignos de todo credito fol. M. S. Esta obra foy composta em obzequio do Bispo Inquizidor Geral D. Francisco de Castro a qual deixou sua sobrinha D. Mariana de Noronha, e Castro aos Padres Theatinos desta Corte sua magnifica Bemfeitora, e se conserva na Selectissima Livraria desta douta Comunidade.

Dos seus Versos se poderaõ formar volumes dos quais a mayor parte pereceo no fatal incendio, que devastou as cazas em que morava às portas de Santo Antaõ desta Cidade, e unicamente se fizeraõ publicos no Tom. 3. da Feniz renacida, ou Obras Poeticas dos melhores engenhos Portuguezes. Lisboa por Iozeph Lopes Ferreira. 17I8. 8. desde pag. 316. até 384.

Diversos Sonetos, Romances Sylvas, Cançoens, Endechas. Fabula de Narcisso. Consta de 54. Outavas. Fabula de Polifemo, e Galatea. Consta de 61 Outavas. A estas duas Fabulas celebra o Padre Antonio dos Reys no Enthus. Poet. n. 70. Como a seu elegante, e discreto Author com estas metricas vozes.

Crinibus Andradii posuit Narcissus odoru

Ex semet sertum; nec non Polyphemus, amusus

Sit licet, Idaea praecidit ab arbore ramum,

Et male contextum, (nam dextra est inscia cultùs

Barbara) donavit.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]