P. HENRIQUE HENRIQUES naceo em Villa-viçosa do Arcebispado de Evora onde instruido com as letras humanas se aplicou ao estudo da Jurisprudencia Canonica em a Universidade de Coimbra. Desprezando os aplauzos merecidos ao seu grande talento, e seguindo o conselho evangelico de vender quanto possuia, e distribuir o seu preço pelos pobres se alistou em a Companhia de JESUS no Collegio de Coimbra a 8 de Outubro de 1545. quando contava vinte e sinco annos de idade. Sendo pequena esfera para o seu agigantado espirito o Reyno de Portugal pedio com repetidas instancias a Missaõ da India para onde partio no anno de 1546. com sinco Náos de que era Capitaõ mór Lourenço Pires de Tavora, e chegando a Goa a 17 de Setembro do dito anno foy logo destinado pelo apostolico zelo de S. Francisco Xavier para a Costa da Pescaria cuja agreste vinha cultivou pelo largo espaço de sincoenta, e tres annos com taõ indefesso trabalho, e continua Vigilancia, que mereceo ser intitulado Apostolo do Camorim. Para atrahir com mayor facilidade ao gremio da Igreja Romana aquelles barbaros aprendeo a sua lingua muito dificil de comprehender, e muito mais de pronunciar, e sahio no breve espaço de seis mezes nella taõ perito, que pregava, e escrevia livros em taõ rude idioma. Entre as gravissimas afliçoens, que padeceo em obsequio da Religiaõ foy a mayor quando acometido o lugar de Punicale pelos Badagàs gente feroz, e indomita lhe lançaraõ huma cadeya de palmo, e meyo do pescoso até o pè direito, e neste cruel martyrio permaneceo constante por alguns dias até que foy restituido à liberdade. Em publica disputa convenceo a hum Bramane, que para confirmar aos barbaros na falsidade da sua crença se fingia muitas vezes morto, e resucitado, de cuja controversia se seguio gloria para o Christianismo, e confusaõ para a gentilidade. Igual triumfo alcançou em Punicale suprindo a auzencia, e as saudades do Santo Xavier, e o Ven. Criminal, na conversaõ de hum celebre Seneaxi, que observando vida inculpavel conforme a ley da natureza o illustrou a graça para fazer meritorias as penitencias com que macerava o corpo. Neste mesmo lugar edificou a sua industriosa charidade hum Seminario para a instcruçaõ dos meninos sahindo tambem disciplinados em os Mysterios da Fé, e preceitos da Ley Evangelica, que nas suas practicas eraõ ouvidos, e respeitados como Mestres. Para remedio dos infermos levantou hum Hospital em que igualmente se tratava do remedio dos corpos, como das almas. Foy na pureza Anjo, no dezejo Martyr, e no zelo Apostolo. Cumulado de heroicas virtudes deixou a vida caduca pela eterna em Punicale a 6 de Fevereiro de 1600 quando contava 80 annos de idade e 55 de Religiaõ. Divulgada a sua morte foy excessivo o sentimento, que ocupou o coraçaõ de todos os Christãos chegando muitos a naõ comer o espaço de tres dias, e até os Mouros fizeraõ luctuosas demonstraçoens pela falta de taõ grande varaõ. Foy sepultado em o Collegio de Tutucurim distante tres legoas de Punicale com geral veneraçaõ daquella Christãdade. O mayor Elogio que se pode ao seu nome fazer foy o que lhe fez o Apostolo do Oriente em huma Carta escrita de Cochim a 14 de Janeiro de 1549 . a seu Patriarcha Santo Ignacio de Loyola, a qual he a nona do liv. 2. das suas Cartas traduzidas em latim pelo P. Horacio Tursellino. p. mihi 215. Henricus Henriques sacerdos est è societate Lusitanus vir egregiae virtutis, & exempli: is versatur in Promontorio Comorino. Malavarice perbene et scribit, & loquitur: atque adeo unus pro multis sane utiliter elaborat. Bib. societ. pag. 327. col. 1. Charitate in Deum, ac proximos, zelo animarum, aerumnarumque patientia paucos habuit pares. Faria Asa Portug. Tom. 2. Part. 4. cap. 20 n. 9. Fueron famosos y aun Santos y compañeros de sus trabajos, e predicacion Henrique Henriques &c. Surius Comment. rer. in orbe gest. ad ann. 1565. pag. mihi 460. Vir multa virtute conspicuus. Mcol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. pag. 431. col. 1. in Piscaria ora dictus ab incolis Comorinensum Apostolus. Cardoso Agiol. Lust. Tom. 1. pag. 363. de tal maneira o conformou Deos com heroicas açoens do Santo Xavier, que foy hum vivo retrato seu nos trabalhos, fomes, sedes, carceres, cativeiros, e naufragios, que tudo experimentou, e sofreo com admiravel paciencia. Marracio Bib. Marian. Part. 1. pag. 559. vir vitae irreprehensbilis, pleneque Religiosus. Telles Chron. da Comp. de JESUS da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 2. cap. 7. n. 6. Varaõ verdadeiramente digno de perpetua memoria. Rho Hist. virt. &Vit. lib. 6. cap. 3. n. 23. Gusman. Hist. de las Mission. de la Comp. Part. 1. liv. 2. cap. 13. 14. e 16. Tanner Societ. Jesu usq. ad Sang & vit. profus. militans pag. 225. Nadasi Ann. dier. memor. S. J. Part. 1. pag. 72. Souza Orient. Conquist. Part. 1. Conquist. 2. Div. 1. §. 67. E Conquist. 2. Div. 1. §. 5. 12. 15. e 20. e Part. 2. Conquist. 2. Divis. 1. §. 10. Franco Imag. da virtud. do Nov. de Coimb. Tom. 1. liv. 3. cap. 2. e seguintes e Ann. Giorios. S. J. in Lusit. p. 65. Escreveo.

Arte de Gramatica da lingua Malabar.

Vocabulario de mesma lingua.

Destas duas obras faz o Author mençaõ na Carta escrita a Santo Ignacio de Punicale a 6 de Novembro de 1550. affirmando, que o Vocabulario era muito abundante de palavras. O Padre Joaõ de Lucena na Vid. do Santo Xavier. lib. 5. cap. 25. falla destas obras dizendo. Sahio com a Arte, e Vocabulario da lingua com espanto dos naturaes, que todos o tinhaõ por couza sobrenatural, e grande beneficio dos nossos Padres, e Irmãos, que d’ entaõ até agora por estes, e por outros liuros que se foraõ fazendo, taõ facilmente aprendem o Malabar como o latim.

Doutrina Christãa por modo de Dialogo.

Methodo de Confessar.

Vida de Christo, Nossa Senhora, e Santos cujo exemplar sendo trazido a Roma em o anno de 1602. se guardou na Bibliotheca Vaticana.

Contra as fabulas dos Gentios. M. S.

De todas estas obras fazem memoria Telles Chron. da Companhia de JESUS Part. 1. lib. 1. cap. 7. Bib. Societat. p. 327. Franco Imag. da Virtud. do Nov. de Coimb. Tom. 2. pag. 618.

Carta escrita aos Padres de Coimbra em Bembay do Cabo do Camorim no ultimo de Dezembro de 1548.

Carta escrita ao Provincial de Portugal escrita em Cochim a 12. de Janeiro de 1551.

Duas Cartas escritas a Santo Ignacio do Cabo de Camorim. a primeira a 6. de Novembro de 1550. Sahio vertida em latim com outras. Lovanii apud Rutgerum Welpium. 1566. 8. desde p. 155. até 159. A segunda escrita no anno de 1555. Ambas sahiraõ vertidas em Italiano com outras. Venetia por Michele Tramezzino. 1559. 8.

Copia de huma Carta escrita em Punicale em o ultimo de Dezembro de 1556. Carta escrita de Macaçar do Reyno de Tranvacor ao Padre Geral em 13 de Janeiro de 1558. Descreve a terra, e progressos da Christandade. Sahio cõ outras vertida em Italiano Venetia por Michele Tramezzino 1559. 8.

Carta escrita de Manar a 19 de Dezembro de 1560. ao Padre Geral. Outra em que relata a constancia com que padeceo os açoutes hum Christaõ em Punicale. Ambas vertidas em Italiano Sahiraõ Venetia por Tramezzino. 1561. 8.

Carta escrita de Cariapataõ em o Cabo de Comorim a 20 de Dezembro de 1558. aos Padres do Collegio de Coimbra.

Carta escrita da Ilha de Manar a 8. de Janeiro de 1561. ao Padre Geral. Ambas traduzidas em Italiano. Venetia por Tramezzino. 1562. 8.  A segunda vertida em latim sahio com outras. Lovanii apud Rutgerum Welpium 1570. 8.  a pag. 272. até 275.

No archivo da Caza professa de S. Roque desta Corte se conservaõ as Cartas seguintes. M. S.

Carta escrita de Punicale a 6 de Dezembro de 1547. aos Padres de Coimbra.

Carta escrita de Cochim a 8. de Dezembro de 1547. aos mesmos.

Carta escrita de Bambay em 31 de Dezembro de 1548. a Santo Ignacio, e ao Padre Simaõ Rodrigues. Consta de 13. paginas.

Carta escrita do Cabo de Camorim a 19. de Dezembro de 1548. aos Padres de Portugal. He muito extensa.

Carta escrita do Cabo de Camorim a 21. de Novembro de 1549. a Santo Ignacio.

Carta do Cabo de Camorim escrita a 12. de Janeiro de 1551. aos Padres da Provincia de Portugal.

Carta escrita de Punicale em o 1. de Novembro de 1552. Outra a 27. De Novembro do mesmo anno. Aos Padres da Provincia de Portugal.

Carta escrita ao seu Provincial do Cabo de Camorim a 3 de Janeiro de 1560.

Carta escrita de Goa a 12 de Novembro de 1556. aos Padres do Collegio de Coimbra.

Carta escrita de Manar a 14 de Dezembro de 1561. aos Padres do Collegio de Coimbra. Consta de nove paginas.

Carta escrita aos mesmos Padres a 30 de Dezembro de 1561. Consta de 6. paginas.

Carta escrita a 19 de Dezembro de 1563. aos Padres de Portugal. Consta de 7. paginas

Carta escrita a 22 de Dezembro de 1564. aos Padres da Caza de S. Roque. Consta de 6. paginas.

Carta escrita aos mesmos a 27 de Janeiro de 1566. Outra escrita aos mesmos a 24 de Dezembro de 1567.

Carta escrita aos Padres da Provincia de Portugal no fim do anno de 1566. Consta de 7. paginas.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]