Fr. HEYTOR PINTO natural da Villa da Covilhãa em a Provincia da Beyra, ou da Villa de Mello como consta do Archivo da Universidade de Coimbra, foy hum daquelles famosos Varoens, que serviraõ de grande credito a este Reyno, e de glorioso tymbre à Religiaõ de S. Jeronimo cujo Sagrado Instituto professou no Real Convento de Santa Maria de Belem distante huma legoa de Lisboa a 8 de Abril de 1543. em as mãos do Provincial Fr. Antonio do Trocifal. A primeira palestra dos seus estudos Escolasticos foy o Convento da Costa, que felismente continuou em a Universidade de Coimbra pelo anno de 1551. donde passando à de Siguença nella recebeo as insignias doutoraes em a Faculdade de Theologia. Restituido ao Reyno como fosse peritissimo nas linguas Orientaes com que tinha penetrado as mayores dificuldades de hum, e outro Testamento, querendo a Magestade delRey D. Sebastiaõ illustrar a Academia Conimbricense com a doutrina de taõ insigne Varaõ creou a 2 de Agosto de 1575. huma Cadeira de Escritura da qual o nomeou Lente, e tomou posse a 9 de Agosto de 1576. mandando, que fosse numerado entre os Doutores daquella Universidade suposto que em outra tivesse recebido o grao. Pelo espaço de muitos annos ilustrou com admiravel subtileza, e summa profundidade as mysteriosas sombras dos Oraculos profeticos de cuja interpretaçaõ admirados os mayores Cathedraticos se confessavaõ discipulos de taõ sublime magisterio. Á especulaçaõ das sciencias correspondia a practica das virtudes observando com tal exaçaõ os preceitos do seu instituto, que servia de exemplar aos domesticos, de veneraçaõ aos estranhos. Todo o tempo, que vagava do estudo o consumia na contemplaçaõ da eternidade. Com judiciosa disposiçaõ era summamente severo para comsigo, e excessivamente benevolo para os subditos, ou fosse quando exercitou o lugar de Reytor do Collegio de Coimbra no anno de 1565. ou quando governou a sua Congregaçaõ sendo Provincial no anno de 1571. Como sempre professasse incorrupta fidelidade para os Principes Portuguezes defendeo acerrimamente o direito, que o Senhor D. Antonio filho do Serenissimo Infante D. Luiz tinha a esta Coroa, e querendo Filippe Prudente livrarse de hum taõ forte Antegonista o levou em sua companhia para Madrid quando voltava de Portugal, com o pretexto honorifico de seu Consultor em os negocios mais graves. Ao entrar naquella Corte disse com apostolica liberdade: ElRey Filippe bem me poderá meter em Castella, mas Castella em mim he impossivel. Recluso em o Convento dos Religiosos Ieronimos de Sysla situado fora dos muros da Cidade de Toledo acabou a vida em o anno de 1584. com sospeita de veneno, que lhe mandou dar a ambiciosa impiedade de Filippe Prudente como escreve o Senhor D. Antonio na carta, que mandou a Gregorio XIII. escrita em Francez, e traduzida em latim por Octavio Sylvio Cavalheiro Romano da qual temos hum exemplar. Ille tamen superborum militum fidei comissus fuit in Castellam deductus, & in vincula con ectus ubi non sine verisimili veneni suspicione è medio sublatus est. Jaz sepultado no claustro antigo chamado dos Santos, e sobre a Campa se lhe gravou este enfatico Epitafio.

Híc jacet Hector Lusitanus ille.

Mais digno de taõ grande varaõ foy o que lhe compoz o Padre Andre Scoto Bib. Hispan. pag. 525. nesta forma.

Lusiadum Te Pinte decus quin Hectora dicam ?

Non ferro, at verbi fortis es eloquio.

Iliacos circum muros rapit Hectora Achilles.

Te fidei traxit Zelus, amor que Dei.

Entre os insignes Religiosos da Ordem de S. Ieronimo, que estao retratados na Livraria do Real Convento de Belem está o seu Retrato animado com estes Versos compostos por Fr. Diogo de Iesus.

Fortis ut Antaeus patriá removeria ab urbe

Hector, vive domi vincere morte foris.

Publicus at Cathedrae socios in munere vincis,

Quae fuerat tanto jure creata viro.

Ao seu nome dedicaõ gravissimos Escritores merecidos aplausos como saõ Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. pag. 430. col. 1. Hunc locum (falla da Cadeira da Universidade) magna cum doctrinae, eruditionis, atque eloquentiae laude sustinuit. Ioaõ Pinto Ribeyro Lustr. ao Dezemb. do Paço cap. 1. n. 8. Galhardo Portuguez. Guillielm. Eysagrein Cathal. Test. verit. Vir & moribus, & doctrina clarus, Philosophus, & Orator, insignis Theologus, Sacrarum legum exercitatissimus. Macedo Lusit. Liberat. lib. 2. cap. 2. n. 13. cujus scripta ostendunt authoris claritatem. Fr. Thom. de Faria Decad 1. lib. 10. cap. 3. vir fuit sanè integer vitae, & magno animi sensu, quem nulla potuerunt praemia, nulla item detrimenta, & persecutiones delmoliri. Brandaõ Mon. Lust. Part. 6. liv. 19. cap. 13. Grande Portuguez e na Dedicatoria da 5. Part. da Mon. Lusit. O grande Heytor Lusitano. Bonucci Istoria de la Vit. del Ré D. Alfonso Anriq. liv. 3. cap. 10. Celebre in tuta la republica literaria per ali eruditi volumini che há dato in luce. Fr. Bernard. da Sylv. Defens. da Mon. Lusit. Part. 1. cap. 10. doutissimo, e de summa authoridade. Scoto Hisp. Bib. pag. 524. Sanctae linguae non ignarus fuit, neque graecarum literarum rudis: latino verò sermone supra Theologum facundus. Lelong. Bib. Sacra pag. mihi 907. col. 1. Trium linguarum peritum. Ioan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Literat. lit. H. n. 1. Vir lusitana eloquentia, morumque urbanitate celebratissimus, in hebraae, graecaque lingua valde peritus. Sixtus Senens. Bib. Sanct. lib. 4. intitula aos Commentarios em Isaias nitida, & culta. Fr. Ludov. a D. Franc. in Proaem. Can. & Arcan. Egregius Magister. Fr. Francisco da Natividade Lenit. da dór Prolog. pag. 16. n. 13. o Portuguez Heytor dos Expositores, e pag. 204. n. 186. insigne. Fr. Francisco dos Santos Hist. de la Ord. de S. Jeron. lib. 3. cap. 69. Hector verdaderamente sin Achilles invencible en el zelo de la fé, de la observancia incontrastable en la doctrina, esplendor grande de la Universidad de Coimbra, y de todo el Reyno Lusitano. Imbonati Bib. Lat. Heb. pag. 68. Hallevordio Bib. Curiosa. p. 121. col. 1. Possevino Apparat Sacer. Tom. 1. pag. 719. Compoz.

In Isaiam Prophetam Commentaria. Lugduni apud Theobaldum Paganum 1561. fol. Antuerpiae. 1567. 8. Coloniae apud Viduam, & haeredes Joannis Stelii. 1572. 4. Salmanticae apud Ioannem Canova. 1581. fol. & Antuerpia per Petrum Bellerum 1584. 8.

In Ezechielem Prophetam Commentaria. Salmanticae apud Ioannem Canova. 1568. fol. Antuerpiae apud Petrum Bellerum 1570. 8. Salmanticae apud Mathiam Galhies 1574. Lugduni apud Joannem Jacobi Juntae filiam 1581. 4. & ibi apud Rovillios 1581. 4. & ibi apud Stephanum Michaelem 1584. & Coloniae Agripinae apud Ioannem Crythium. 1615. 4.

In divinum Vatem Danielem Commentaria. Conimbrice apud Didacum Gomes de Loureiro 1579. fol. Venetiis 1583. 4. Coloniae ex Officina Birckmanica 1582. 8. Antuerpiae apud Petrum Bellerum 1595. 8.

In Danielem, Lamentationes Hyeremiae, & Nahum Coloniae ex Officina Birckmanica. 1582. 8.

Todos estes Commentos em que depois de explicar o sentido litteral acrecenta no fim de cada capitulo doutissimas Notas extrahidas dos Originaes Hebraico, Caldaico, e Grego, sahiraõ em hum volume. Conimbricae apud Antonium Maris 1579. fol. Lugduni apud Bartholamaeum Honoratum 1584. fol. 3. Tom. & ibi mais addicionados apud Joannem Veyratum 1590. fol. Ultimamente Lutetiae Parisiorum apud Michaelem Sonnium 1617. fol. 4. Tom. Contem o 1. Commentaria in Isaiam, & Threnos. 2. in Ezechielem. 3. in Danielem, & Nahum. 4. os dialogos traduzidos em Latim.

Imagem da Vida Christãa. consta de 6. Dialogos o I. da Verdadeira Filosofia 2. da Religiaõ 3. da Justiça. 4. da Tribulaçaõ. 5. da Vida solitaria. 6. da Memoria da morte. 1. Parte Lisboa por Antonio Alvares. 1572. 8.

Parte 2. Consta de 5. Dialogos I. da Tranquillidade da vida. 2. da discreta ignorancia. 3. da verdadeira amizade. 4. das cauzas. 5. dos verdadeiros, e falsos bens. Lisboa por Ioaõ Barreira 1572. 8. Ambas as partes Lisboa por Simaõ Lopes 1595. & ibi por Miguel Manescal 1681. 4. Sahio esta obra traduzida por hum erudito Francez. Lugduni 1590. 2. Tom. & Coloniae apud Ioannem Crythium. 1609. 12. & ibi 1616. 4. e ultimamente no 4. Tomo in fol. da impressaõ de Pariz apud Michaelem Sonnium 1617. da qual se fez assima mençaõ, onde o traductor em o Prologo escreve as seguintes palavras. Neminem ego tam alienum ab omni humanitate existimo, ut non ultro fateatur vix quemquam hoc nostro saeculo extitisse, cui ingenio, & industria plus creverit sacrarum litterarum studium inter cives suos, quàm doctissmi illius viri Fr. Hectoris Pinti. Ille renascentes tum in Conimbricensi Academia bonas litteras primùm excepit, summis vigiliis, & labaribus tersas, ornatas, expolitas eò evexit, ut cum varia aliarum regionum eruditione, & multiplici elegantia Academia illa Lusitana posset sertare. Confirmant juditium nostrum cum alia non pauca, quae ad nostram indaginem non  venerunt, aut in Scriptis ejus Adversariis haeserunt ab illo doctissma scripta volumina; tum insigne hoc moralium Dialogorum opus quo vulgari Lusitanorum lingua nullum sere nostra memoria prodiit eruditius, & politiorum disciplinarum studiosis utilius, cujus eximia pietate, & eruditione ducti multi multis idiomatibus traductum subinde ediderunt. Esta obra dos Dialogos foy vertida na lingua Castelhana. Madrid por Pedro Cusea 1572. 4. Medina del Campo por Benito Boyer, e Domingo de Saraguay 1573. 4. Salamanca por Gaspar de Portonareis 1576. 4. Saragoça por Pedro Sanches de Espilleta. 1577. 4. Alcala por Iuan Gracian 1592. 2. Tom. Na lingua Franceza por Guilherme de Cursol com este titulo.

Image de la vie Christiene, ou la uraye Philosophie, & Religion entre les Christiens. Pariz Chez Guillielme Chaudiere. 1580. 1. Tom. e o 2. Lion 1593. 16.

Na lingua Italiana traduzida por Fr. Zacharias de Lisboa Religioso Capuchinho, que o dedicou ao Serenissimo Raynucio Farnese Principe de Parma, e Placencia. Venetia por Erasmo Viotto. 1594. 4. 2 Tom. & ibi por Nicolao Misserino. 1594. 4.

Commentaria in primos decem Davidis Psalmos. Começaõ. Solent virisapientes. M. S. 4. Conserva-se na Livraria do Convento de S. Francisco de Lisboa. Deixou compostos Commentarios sobre todos os Profetas Menores de que somente se imprimiraõ ao Profeta Nahum, os quais como escreve nos seus Ferculos  Fr. Diogo de JESUS Religioso Ieronimo de quem se fez memoria em seu lugar, se conservaõ M. S. no Convento de Nossa Senhora do Espinheiro junto da Cidade de Evora.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]