David Mourão-Ferreira deixou expresso, no fragmento CVIII da segunda parte de , o seguinte desejo: «Gostaria de morrer de repente: / a meio de uma frase que nesse instante / estivesse a ler; ou a escrever.»

A terceira Parca – Atropos – a que tem por mister cortar o fio da vida, não atendeu o desejo do poeta, que lhe havia prestado a sua última homenagem no final da Obra Poética (1948- 1988) :  “ Só comigo me encontro enquanto me concentro / nas ancas de Afrodite ou nos olhos das Parcas / Mas sei que sou assim desde há imenso tempo / mal fora iniciada a secreta viagem.”

Desejava o poeta terminar a vida sob o signo da leitura ou da escrita, que o mesmo é dizer sob o signo de duas das paixões que mais fortemente o marcaram e às quais sempre se manteve fiel. O último livro da Obra Poética − 1948-1988, No Veio do Cristal, aponta o caminho da superação e da harmonia apresentando-se com três epígrafes que induzem a ideia de caminhada em direcção a uma meta final, a morte, mas que não se afigura o fim de tudo, antes um cíclico recomeço. A primeira das epígrafes é de Francisco Rodrigues Lobo: «Vamos, qu’eu quero ir diante / por este caminho estreito.», retirada do final da Égloga I, em que intervêm Bieito, Aleixo e Corino, este último procurando uma sua novilha tresmalhada. O trecho epigráfico é parte da fala final de Aleixo. O velho Corino entende que devem parar com queixumes, pois está na hora da despedida. Aleixo quer mostrar a sua bela voz, a melhor da aldeia, segundo Corino. Note-se que DMF discretamente selecciona apenas a parte do “caminho estreito” como senda para a morte, mas a bela voz de Aleixo, referida no mesmo contexto, não pode ser ignorada na interpretação epigráfica. Voz da poesia de David, il miglior fabbro.

A segunda epígrafe pertence a T. S. Eliot:  “We must be still and still moving / into another intensity / for a further union / […] In my end is my beginning.”

Trata-se de um excerto da última estrofe de East Coker (1940) – o segundo dos . Esta sentença de Eliot reproduz as palavras de Mary Stuart − “En ma fin est mon commencement.” Palavras que a rainha da Escócia tinha bordado num trabalho de brocado e cujo sentido não era então muito claro. A 8 de Fevereiro de 1587, a sua profecia irá realizar-se, porquanto morrerá a professar a fé católica e a sua morte trágica resgatará, aos olhos da posteridade, as faltas da sua juventude . Aquela epígrafe de Eliot adequa-se, também, e premonitoriamente, ao cenário do horizonte que o viu nascer e morrer, alcançando ainda maior significação o título atribuído a uma pequena crónica de DMF escrita aos 62 anos e que intitulou «Privilégio do Tejo», inserindo-a em Terraço Aberto .

A terceira epígrafe é constituída por dois versos de Eugenio Montale:  «L’armonia è di chi è entrato nella vena giusta / del cristallo e non sa né vuole uscirne.»

Montale referiu, em entrevista:  «L’argomento della mia poesia (…) è la condizione umana in sé considerata: non questo o quello avvenimento storico. Ciò non significa estraniarsi da quanto avviene nel mondo; significa solo coscienza, e voluntà, di non scambiare l’essenziale col transitorio (…). Avendo sentito fin dalla nascita una totale disarmonia con la realtà che mi circondava, la materia della mia ispirazione non poteva essere che quella disarmonia.»

Assim também com David: a harmonia é de quem entrou no veio do cristal e não sabe nem quer dele sair. Em Montale a harmonia é verdadeira, quando não toca o fundo; não é desejada por quem não a conhece; não acredita nela quem dela não suspeita.

A partir de 1995, DMF luta contra grave doença do foro oncológico, e ainda consegue gravar o CD intitulado Um Monumento de Palavras, lendo poemas seus. Este trabalho foi realizado com seu filho David João, muito contribuindo para lhe transmitir ânimo naqueles difíceis momentos. Em Julho, Agosto e Setembro de 1995, é contactado por Robert Perroud, presidente da Académie des Marches de l’Est (Strasbourg), para candidato do Prix Europe , atribuído anualmente no Outono; todavia, a doença já não lhe permitiu dar resposta ao académico francês .

No Natal de 1995, prevendo que esse seria o último passado em família, convoca o Pai no poema «Som de Natal» que doravante deverá incorporar e fechar Cancioneiro de Natal. Nele podemos ler a sua própria morte auto-anunciada em reunião com os mortos, ou seja a continuidade da família do outro lado da Vida:
“ Um som de campainha/ que por vezes retine // dentro dos meus ouvidos / assim que a noite cai // não deve ser motivo / para grandes alarmes // É decerto o meu pai / lá do céu onde vive // a tentar telefonar-me”

Para David Mourão-Ferreira a morte não era um fim, mas um renascimento. Um desejo de pacificação interior e exterior. Por isso fez publicar, em Março de 1996, ingénuos poemas escritos cinquenta anos antes, quando dava os primeiros passos na senda poética, como esta «Canção para a Maria Eulália», então sua namorada, futura mãe de seus filhos: “Nossas descobertas na cidade velha, / onde aportámos, lúcidos piratas…! / Tudo nos parecia novo na cidade velha, / Porque jovens éramos — juvenis piratas! // O mirante escondido do jardim, / aonde te beijei pela primeira vez… / Agora, já não há mirantes, nem jardim. / mas se te beijo: é a primeira vez… // Os passeios nocturnos, beira-Mar…, / e os projectos de termos um jardim, / assim plantado à beira-Mar, / pra confundir o Mar com o jardim… // Tudo isto, só-sonhado, ou meio-feito, / és tu e eu, somos nós dois. / O só-sonhado, um dia será feito. / — Que será feito, então, de nós os dois?”

Estes versos constituem a última parte de um poema com o mesmo título, cuja versão integral é a seguinte: “O mundo que criámos é só nosso. / Recordas o fogão com que sonhámos? / Como poder dizer tudo o que é nosso, / se só é nosso, o muito que sonhámos? // E os ferros forjados? E os versos? / — aqueles versos que fizémos nossos? / Eram o nosso hino aqueles versos… / como poder dizer que não são nossos?// E tudo o resto, tudo…Nossos passeios / de meninos perdidos e piratas… / Eram cruzeiros… Eram mais que passeios! / Ai! As compensações de ser pirata…! // Nossas descobertas na cidade velha, / onde aportáramos, lúcidos piratas. / Tudo nos parecia novo na cidade velha, / Porque jóvens éramos — juvenis piratas! // E o mirante escondido do jardim, / aonde te beijei pela primeira vez… / Já não há, agora, mirantes, nem jardim; / mas se te beijo: é a primeira vez. // Os passeios nocturnos, beira-mar: / Os projectos de termos um jardim, / assim plantado à beira-mar, / pra confundir o mar com o jardim… // Tudo isto, só-sonhado, ou meio-feito, / és tu e eu, somos nós dois. / O só-sonhado, um dia será feito; / que será feito, então, de nós os dois?”

É patente no poema uma melancolia latente, uma frustração por antecipação, revelada como descrença no futuro por antevisão do desgaste que conduzirá à separação. Em registo auto-irónico, apontando a deriva como inevitável fadário, lemos o poema «Rimance», também de 1946: ” Bem devagar, coração… / Bem devagar, coração… / Qu’importa, se alguém te acena? / (Seria sempre pequena / a sombra daquela mão…) // Qu’importa, se alguém te acena? / Não olhes aquela mão! /— A mulher alta, morena? / Que tem isso, coração? / — A outra, loira, pequena? / Que tem isso, coração? / —A donzelinha serena? / Que tem isso, coração? // Ai, Fado negro e vilão! / Coração, quem te condena? / Tudo é vão! É tudo vão! / — Olha, pois, meu coração, / a mulher alta, morena… / — Sofre, pois, meu coração, / a outra loira, pequena… / — Sonha, sonha, coração, / a donzelinha serena… // Que Fado negro e vilão! / Que Fado negro e vilão!”

E por último, esta «Despedida», datada de 1984, coetânea das primeiras versões de Um Amor Feliz. Neste poema não há esperança de qualquer espécie. Tudo é conhecido e previsível: a angustiante lucidez de quem conhece “o Transe”: “Conheço o Transe / E seus contrários / lúcidos lances / sem piedade / também no sangue / os ouço em brados // Angústias grandes / Tudo o mais fases / em que os instantes / de pouco valem / Comigo usando / ambas as tácticas / vi que do Transe / não sabes nada // Oh ignorância / quase adorável / Pena que tenhas / tão breve dado / quedas na lama / passos em falso // Vai Vai andando / com outro braço / na tua anca / Pra mim é fácil / Conheço o Transe / E seus contrários / Não mais alcanças / ludibriar-me ”

Vem de muito longe o interesse davidiano pelo tema da morte. Num texto intitulado «Medo da Morte», escrito aos quinze anos, com data de 29 de Maio de 1942, destinado ao jornal «Gente Moça», mas que não chegaria a ser publicado, já esta problemática o inquietava. O estudo aprofundado que o jovem David teve de fazer para realizar a sua primeira palestra, sobre Antero de Quental, despertou-o para temáticas que claramente se correlacionam com ela, nomeadamente a morte, em geral, e o suicídio, em particular. A palestra realizara-se a 22 de Maio de 1942 e a 29 do mesmo mês o jovem escreverá um texto que leio como uma espécie de adenda ao mesmo tema, ainda que não aludindo a Antero. O facto de a Europa se encontrar em guerra terá também motivado o jovem autor para o tratamento deste tema, revelando um universo de valores estóicos, não esperável na adolescência, e que indiciam a sua precocidade. Todos os que o acompanhámos, nos seus últimos tempos de vida, podemos comprovar que foi exactamente assim que ele morreu. Foi notável o seu esforço para corresponder ao que esperava de si próprio, desde os quinze anos, quando escreveu estas lúcidas palavras: “O homem é o ser mais complexo, e por isso mesmo é o mais desconhecido. É um animal incompreensível: em geral o que hoje faz está em completa desarmonia com o que ontem disse! Conquanto a espécie humana difira de indivíduo para indivíduo, uma coisa é quase geral: o homem é medroso; e o seu medo transparece nos mais insignificantes actos. O natural causa-lhe pavor; o inevitável amedronta-o, e o inevitável é a morte.

Causa náuseas o temor que a Morte nos inspira. Sabemos que Ela é a derradeira paragem desta louca ascensão ao Nada, deste encantador e terrível caminho de surpresas, que é a Vida, e contudo tememo-la. Se é belo saber viver, é utilíssimo saber-se morrer; e ambas as coisas são difíceis. Combatamos sempre para que a chama da existência não se extinga, mas assim que a ciência seja impotente para a conservar, morramos com sossego.

O medo, a cobardia dominam-nos. Assim, há duas correntes opostas, mas ambas animadas da mesma fraqueza: uns, os que temem a Grande Dama; outros, os que a desejam ardentemente, porque não sabem ou não querem saber viver e porque as dificuldades que encontram a cada passo da vida, os aterrorizam. O suicídio é a coisa mais asquerosa que há. Atentar contra a própria existência é repelente!

Não se pode deixar de dizer que as religiões, desde as mais imperfeitas às mais perfeitas, foram criadas apenas com um ponto de vista: atenuar no ser humano o temor pela Morte, iludindo-o com a possibilidade de uma maravilhosa vida extra-terrena. Até a grande revolução psicológica vulgarmente conhecida pelo nome de cristianismo— no dizer do grande historiador e filósofo Oliveira Martins— teve, entre outros, e muito mais valor, o objectivo de acalentar no homem a ilusão da existência duma outra vida, após a putrefacção da matéria.

O grande segredo consiste em saber-se viver, mesmo com obstáculos de qualquer espécie. Stevenson disse:—“A verdadeira saúde é ser-se capaz de passar sem ela.”

Há muitas pessoas que afirmam temer a morte, por não saberem o que ela seja. Também todos nós desconhecemos o princípio da vida animal sobre a Terra e cá andamos…

Ora o que aqui fica dito é para sempre: saibamos viver, enquanto é tempo, e quando chegar a ocasião — oxalá distante — da Morte, tentemos esperar decentemente a Grande Ceifeira e acompanhemo-la à morada final sem receio. ”

Caro leitor, repito: este texto escreveu-o David aos 15 anos!

O poeta, é aquele que desvenda o segredo, à revelia dos deuses; desvendar o segredo é também chegar ao fim da viagem, fundear a âncora e olhar a linha do horizonte, com música em fundo. A clave de sol poderá, então, abrir a pauta musical da Ode à Música: “Que nasces que te apagas que renasces / em procura da límpida medida / Que reges o mais puro e o mais alto / do que Deus concedeu às nossas vidas “(OM: 336). A “orquestra flor e corpo”(QCT: 93) ouvir-se-á, sabendo-se, todavia, que “Não é fácil o Sol / e muito menos / trazer do amor algum remédio brusco” (ORO: 314)

Resta, por fim, “Olhar de frente o Sol Assim se aprendem / as letras iniciais da Solidão” (MI: 251), ditando as «Últimas Vontades» (CCT: 126).

A chave é o que abre e o que fecha. O que dá acesso e o que tranca. O que aperta e o que desaperta. A chave é solução, decifração, explicação, compreensão da inquietude do homem na obra, e da memória da obra no homem. Ambos se escondem, ambos se revelam por baixo de um nome, realidade hifenizada em ficção: David Mourão-Ferreira. O que escreveu e o que perguntou no mais profundo de si mesmo: “Quem sobe agora a escada? / Como vem devagar! / Tão devagar que sobe… // Não digas nada. Ouve: / É com certeza alguém, /Alguém que traz a chave.” (QCT: 127)

Este poema foi publicado pela primeira vez no Diário de Notícias, de 10 de Setembro de 1959, tinha o seu autor apenas trinta e dois anos. A morte que sobe a escada, associada a uma rememoração da adolescência, povoada pelo maço de cigarros fumado às escondidas, remete-nos para a essência do segredo, do enigma que a mesma morte encerra.

De um ser humano nunca se diz tudo, nunca se sabe tudo. Círculo fechado, todo o fim é um recomeço, como lembra Martial de Brives em «Sur le tombeau de Sainte Paule en Bethleem»: “Le sepulchre au berceau peut-il estre conjoinct, / Sans qu’il se mescle entre eux quelque espece d’envie? / Comment peut-on ranger presque en un mesme poinct / Le trône de la morte t celuy de la vie ?!”

Nascer, morrer, desaguar são simples escalas do ciclo vital dos rios e dos homens. Quem, como Ulisses, fez uma longa viagem aportará forçosamente no Tejo, a cidade-regaço. Observador e cultor de coincidências, David haveria de gostar de ter sabido que o “deus” lhe reservou o dia 16 de Junho para a largada em direcção a outra secreta viagem, a da morte, precisamente no Bloomsday do Ulisses de James Joyce. O mesmo dia e o mesmo mês, celebrado como um dia vulgar na vida de Leopold Bloom, o dia 16 de Junho de 1904. E, ainda aqui, David Mourão-Ferreira haveria de rejubilar com a conjugação da terminação destes anos − 1904 e 1996. O Quatro, dos Quatro Elementos e o Seis, o número dos dias da criação do mundo, o número perfeito. O número da Obra terminada. Ainda aqui se verificou que o fim duplica o início. Morreria praticamente à mesma hora em que nasceu – 9 e 45 da manhã, no Hospital da CUF. Orpheu 17 foi o pseudónimo, quando em 1954 ,ganhou o seu primeiro prémio (Delfim Guimarães) com a obra Tempestade de Verão. A morte foi a sua verdadeira tempestade, naquele verão de 1996. E o número 17 ainda lhe fecha ciclicamente a existência. David que creditava piamente nestas coincidência havia de ter gostado de saber que sua despedida fúnebre se realizou a 17 de Junho, ainda na sua predilecta Lisboa ocidental − na Basílica da Estrela. O seu corpo repousa no Cemitério dos Prazeres, de onde também se avistam os barcos que entram e partem do Tejo, que ficaria para sempre ligado aos momentos em clave de sol e em chave de sombra que lhe balizaram a vida. Teresa Martins Marques

 

In Teresa Martins Marques, CLAVE de SOL-CHAVE DE SOMBRA. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira. Lisboa, Âncora Editora, 2016.

Fonte: Facebook