Ganhei o (estranho) hábito de me sentar em cantinhos bem iluminados. É fundamental que sejam bem iluminados, esses cantinhos, e a razão para essa exigência é muito simples: regra geral faço-me acompanhar de livros, artigos de revistas, fotocópias e apesar de ler bem sem óculos, a luz devida tem de acompanhar-nos.

A esse hábito acresce a sua motivação: é em cantinhos iluminados que as ideias se revelam e da escuridão – zona habitada pela profundidade – pode muito bem nascer a luz, como a sabedoria popular há muito dita.

É por isto que gosto desses cantinhos: porque gosto de ideias emergentes. Esse gosto vem de menino: lia cedo e com avidez. E vem da adolescência, período em que lia tudo o que podia, mesmo o que não entendia. A leitura não substituía tudo o resto. E o resto era o gosto por todas as formas de entendimento, conhecimento, convívio, envolvimento, paixões.

Os proventos que esses hábitos me trouxeram são discutíveis. Há quem diga que perdi tempo. Eu próprio penso isso algumas vezes. Outros percebem que na plataforma de ócio onde alguns me acusavam de viver é que descobri o melhor de mim. Chamo plataforma de ócio à zona que me trazia vídeos, filmes, peças de teatro, conferências, aulas, debates, conversas com amigos, em número suficiente para passar o tempo e trepar ao feijoeiro mágico para chegar à terra oculta pela nuvens onde sempre julguei vir um dia a encontrar o gigante e quem sabe se a sua família.

Subindo, foi colecionando tonturas, o gosto de subir, o atrevimento de olhar para baixo, mas não se pense que essa subida era na hierarquia, na escala social, nos degraus que nos levam das carências essenciais à ilusão da propriedade.

Nunca fui muito dado a considerar-me mais um homem unidimensional – quem leu o filósofo alemão Herbert Marcuse sabe do que falo. Isso significa, na prática, que não me rendi a campanhas publicitárias, nem a modas, nem a gostos, nem a obrigações.

Sou um nadinha marginal, mas não digam à minha família que iria ficar chocada com a revelação.

Vivo na sociedade em que proliferou o inútil, o caduco e o desperdício, até o “retro” e o “vintage” com os seus remendos, as suas rendas e naftalinas, as traças e o cheiro a baú se tornaram necessidades de consumo – não fundamentais mas artificiais no fundamento.

No meu cantinho iluminado construí uma espécie de refúgio. Não guardei espaço para a velha moralidade nem para a nova felicidade como dever. Sou só um míope que lê sem óculos. Sentado num cantinho. Com o valor burguês e opulento de uma boa aparelhagem cultural que nem sempre domino ou entendo, e sobretudo com uma boa iluminação, por vezes pesada na fatura. Alexandre Honrado