Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Volte-se então a essa simplicidade que opõe o mal ao bem. Os deuses aos demoníacos, os indiferentes aos imbecis que são piores do que os indiferentes. Ambos são de grande utilidade. Dão-nos a sentir, por vezes ao espelho, que estamos mais perto de nós do que queremos.

Os deuses precisam desesperadamente de nós.

Há um sonho recorrente que deve ser partilhado: o do ser humano que acorda e descobre com espanto que o mundo acabou. Pelo menos, tal como ele o conhecia até à véspera. Não há outros seres humanos do outro lado da porta; não há animais nem plantas. Casas vazias. Os albergues mais fétidos e as grandes construções de luxo. Os carros podres e os recém adquiridos. Há ainda os rios e os mares, e terra sem nada que dela nasça. E o mar, sem peixes nem sentido.

Ao perceber a sua solidão o ser humano resolve ficar em casa. Que sentido fará andar à toa, sozinho, por este e aquele lugar deserto? Nenhum deus vem confortá-lo. Sem outros seres humanos na partilha, não faz sentido ser um deus ou um caminhante. Um ser humano? Ainda menos.

A última velhota, muito idosa, a ir de véu à igreja levanta o tule que lhe cobre a cara, não para se descobrir ou apresentar-se pura ao divino, ela que soma tantas impurezas de uma vida atribulada, mas para descobrir as orelhas e ouvir o que o casal a seu lado tem para contar. Toda se eriça, a idosa. O rapaz parece o bloco de pedra onde o escultor desafiou a estética e a rapariga seria a musa certa de todos os poetas. A senhora, com  a idade, foi perdendo a alegria, pois sempre chamou alegria ao que ouvia e via. Esforça os olhos e os ouvidos. O rapaz é mármore e a rapariga tela. E ela percebe que toda a vida foi uma ideia perdida: a de ser as ideias dos outros que ia encontrando.

Não se percebe, ao certo, se aquela mulher velada,  pertencerá à categoria muito seletiva dos que pensam. Nunca lhe foi aprazível o caminho que leva às ideias, pois se o fizesse teria de imaginar o que foi ao nascer e nos primeiros estonteados segundos em que o ar a afogava. E teria de pensar na soma de todos os seus muitos anos, mas detendo-se nas parcelas, o que a falar verdade lhe parece uma tontaria sem qualquer utilidade. E acabaria a contar os segundos que a separam dos instantes finais, momento que não lhe interessa por não interessar a ninguém. Cobre rapidamente o rosto, fica atrás do véu, como se estivesse ajoelhada no confessionário e visse pela rede o confessor. É a vida que a escuta em confissão, mas não percebe. Nem pensa nisso. Nem pensa.

Não pensar é como não saber. Um ato muito cómodo que nos leva de onde não partimos ao local onde nunca chegaremos. Alexandre Honrado