Reuniu, na antologia A Dor Concreta, duas décadas de poesia, num esforço de síntese de dezena e meia de obras publicadas desde 1999. E a atribuição a esse volume do Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, cuja cerimónia de entrega decorreu no passado dia 15, na Câmara Municipal de Amarante, reforçou a ideia de fim de ciclo. Entrevista com um poeta, também professor e crítico, colaborador do JL, em busca de novos caminhos para a sua poesia

É devoto de outra santíssima trindade: a poesia, a crítica e o ensino. E a ela tem-se dedicado de corpo e alma. Nas aulas de Literatura e Português, no Colégio Moderno; nas páginas do JL e nas investigações no Centro de Literatura de Expressão Portuguesa e Lusófona da Universidade de Lisboa (CLEPUL); e num percurso poético que já cumpre duas décadas de poesia. Nascido em 1976, António Carlos Cortez publicou o seu primeiro livro em 1999, Ritos de Passagem, a que se seguiram Um Barco no Rio, A Sombra do Limite, À Flor da Pele, Depois de Dezembro, Prémio Autores da SPA, ou O Nome Negro, livros reunidos na antologia pessoal A Dor Concreta, uma edição da Tinta-da-China agora distinguida com o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes.

Jornal de Letras: Que significado tem este prémio para si?
António Carlos Cortez: É um prémio muito especial, por ser da Associação Portuguesa de Escritores, ter Teixeira de Pascoaes como padrinho e por sinalizar uma etapa importante de um percurso que tenho vindo a percorrer: 20 anos de poesia, desde o lançamento do meu primeiro livro, em 1999. Nesse sentido, é o reconhecimento da fidelidade a uma ideia de poesia.

Não é frequente, de facto, atribuir um prémio a uma antologia. Isso também o surpreendeu?
Não foi tanto isso que me surpreendeu, porque esta antologia funciona como um livro, tem uma unidade forte. Antes o atribuir-se um prémio a alguém que também faz crítica. No atual estado da poesia, se não é provocatório é pelo menos ousado.

Em que sentido?
A crítica que tenho feito e a ideia de poesia que tenho defendido nos últimos anos afastam-se de uma  tendência que no início dos anos 2000 marcou muito o nosso panorama poético, incluindo ao nível da crítica. O que então se defendeu, a meu ver de uma forma equivocada, foi uma poesia que esquecesse ou pudesse pôr de parte questões mais relacionadas com o trabalho de oficina.

Que dispensasse as potencialidades da linguagem?
Exatamente. Mas nos últimos anos, essa tendência está a ter uma resposta por uma geração mais nova e muito original. Nunca entrei, nem nunca quis entrar, na defesa da poesia piada ou poesia relato. A provocação que vejo neste prémio tem a ver com isso. Trata-se de assumir que na poesia não há ditadores do gosto.

É um campo plural?
Há várias sensibilidades, linhagens, tendências e escolas na poesia portuguesa, e todas têm a sua legitimidade. Mas convém não esquecer a evidência apontada por Ruy Belo: não se pode fazer maus versos e querer manter a designação de poesia. Uma ideia provinciana de poesia sem qualidades só faz mal à poesia.

Como interpreta a proeminência desse movimento no início dos anos 2000?
Como uma moda que se alargou a reboque de esferas de influência. O quotidiano e o banal sempre estiveram presentes na poesia. A questão é como se expressam. Mais do que esclarecer a poesia, essa tendência contribuiu para uma deflação da criatividade.

A poesia não se tornou mais acessível?
Tornou-se, claro, porque quando não há metáfora alguma é acessível até para quem não gosta de poesia. Um dos grandes equívocos foi justamente esse: para ser acessível e estabelecer novos pactos de leitura, a poesia narrativa teria de fazer tábua rasa de uma tradição poética forte. Nunca me inscrevi nessa tendência.

Inscreve-se em qual?
Preocupa-me o que me rodeia, as circunstâncias, como diz Cesário Verde, mas ao mesmo tempo estabelecendo com a tradição portuguesa, também francesa e inglesa, um diálogo que é de interrogação da própria poesia. Uma conceção que faz ainda mais sentido num tempo de empobrecimento da linguagem, incluindo a poética. É a defesa do verso e da métrica, da rima e do ritmo (mesmo nos poemas em prosa
poética). No meu caso trata-se de tecer um diálogo com poetas que conheço e a cuja linhagem a minha escrita pertence, como Carlos de Oliveira, David Mourão-Ferreira, Herberto Helder, Ruy Belo, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa ou Mário Cesariny.

Alguns poderiam dizer que é uma poesia impenetrável.
Pois, é o raciocínio que também se vê na política atual (e que poderíamos aplicar a alguns cliques da poesia): vocês que leem e defendem a alta cultura são petulantes, logo não democráticos; por isso nós, que
somos democráticos, não lemos poesia. É um raciocínio terrível, no limite do fascismo. Se para defender a poesia é preciso deixar cair o seu enigma, então respondo com uma das ideias mais fortes de Herberto
Helder, a de poeta obscuro.

A poesia é um duelo?
É uma excelente palavra e título de um livro de Luís Quintais, poeta que admiro, difícil, hermético, desafiante. Gosto disso. Uma poesia que não surpreende e não ativa a criatividade do leitor, que mostra tudo, é poética? Tenho dúvidas que o seja. Pode ser uma poesia altamente elogiada por quem defende uma ideia simplista ou simplória da poesia. O Ruy Belo é um poeta do real quotidiano, menos dado à linguagem vertiginosa e alquímica de Herberto Helder, e no entanto não deixa de ser altamente oficinal, atento às assonâncias, aliterações, ao trabalho da sintaxe. A minha ideia de poesia passa por esse rigor expressivo, numa luta com a linguagem. No fundo, a possibilidade de dar ao leitor um objeto que é ao mesmo tempo chama e cristal.

A vontade de fazer um balanço esteve sempre presente na conceção da antologia A Dor Concreta?
Uma antologia pessoal agradou-me porque me permitiu cortar e eliminar poemas que hoje considero excrescentes. É um situar a meio da vida percebendo o que se está a escrever.

Esse corte foi um combate com o poeta dos verdes anos ou um esforço de coerência?
Os dois. Quis dar coerência ao conjunto, mas também assumir claramente que há poemas que tiveram o seu tempo e que, por isso, não se enquadram numa antologia como esta.

Só uma antologia consegue pacificar  um poeta com o seu passado?
Não estou muito pacificado, no sentido em que há coisas no meu passado sobre as quais me pergunto porque foram assim e não de outra maneira.

É o poeta ou o crítico que fala?
Ambos. Há poemas que nasceram de circunstâncias muito particulares. E se é verdade que podem ter dado um ou outro texto aceitável, podia não as ter vivido, e em alguns casos teria sido melhor.

Esta poesia é a sua vida oculta?
Oculta a vida desse outro cujo nome aparece nos poemas e ensaios. Mas a carga mais lírica do início vai sendo trabalhada de outra maneira, com um efeito de distanciamento que se vai aprendendo.

No atual fazer poético, os episódios biográficos sangram menos?
De alguma maneira, sim. Mas a biografia tem de ser posta entre aspas. O sujeito que ali está é uma representação. E por muito que os meus poemas nasçam – e nascem – de situações de crise, a morte
de alguém, o embate com certas verdades, separações, há uma dimensão ficcional. E também há inúmeros poemas em que o tema é a própria poesia.

É o realismo da linguagem de que fala em alguns poemas?
Sim, pratico uma poesia realista porque o artefacto do texto é o real. Mas no fim o real é o próprio texto, metamorfoseado a partir do trabalho oficional. É disso que a minha poesia fala.

Depois deste balanço, novos caminhos?
Foi o desafio que esta antologia, muito antes do prémio, me colocou. Há uma trilogia em curso que parte do embate que tenho feito com poetas de outras línguas de que gosto especialmente, nomeadamente
Rimbaud e Baudelaire. Trata-se de perceber o eco que esses textos têm em mim e como influenciaram a forma como vejo o real. Em Animais Feridos, que publiquei na D. Quixote, já há uma distensão do verso, um encaminhamento para a prosa poética, que se afirma em Corvos, Cobras, Chacais, que lancei em 2017 na editora brasileira Gato Bravo. A trilogia termina, em 2019, com Jaguar, que reúne outros 44 poemas
em prosa. É uma espécie de bestiário, de alegoria dos nossos tempos, em que a guerra está latente, e os mares dos migrantes são cada vez mais o verdadeiro mar morto.

 

Entrevista de Luís Ricardo Duarte

Fonte:  Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 19 de Dezembro de 2018 a 1 de Janeiro de 2019, p. 14