Quando se fala de Eça de Queirós nunca se ignora a sua fase de cronista, como As Farpas, por exemplo. A investigadora Annabela Rita considera que esta faceta do autor foi em muito relegada ao esquecimento e o ensaio que publicou pretende eliminar a lacuna. Uma entrevista a propósito do seu mais recente livro “Eça de Queirós Cronista”.

Tendo a vertente cronista sido fundamental para a criação do escritor Eça de Queiroz, por que razão não existem estudos abundantes sobre o tema?

A crónica é um género epicentrado entre a Literatura e o Jornalismo, hibridismo que tende a relegá-la para alguma marginalidade na atenção do especialista de um e de outro espaços de escrita, sendo que o primeiro deles tende a considerar o romance, a novela e o conto como mais exigentes no plano da elaboração estética do que o texto escrito para os periódicos, ao ritmo dos mesmos, ao correr da pena, da urgência e das constrições de espaço, de contexto e de actualidade… Por outro lado, a verdade é que a dimensão e a pregnância da obra ficcional de Eça, quer no seu conjunto, quer livro a livro, tende a sombrear a produção mais diminuta e que ele designou “o [s]eu laboratório de escrita”, produção que, como a pergunta sinaliza, também tende a ser encarada como de formação, de menor maturidade… não sendo, em total rigor, o caso, não deixa de ser esse o preconceito que se insinua no espírito do leitor e move a escolha. O corpus que eu trabalho é, rigorosamente, o da génese da crónica queirosiana tal como ele e os seus contemporâneos a definem, designam, intitulam e publicam, sobrepondo esse critério ao actual (ou estaria a incorrer num anacronismo…). Poderia tem alargado o corpus a textos que, em geral, tendem a ser incluídos nessa rubrica (folhetins ou outros textos breves afins sem indicação de género original), mas preferi circunscrever ao cânone mínimo, àqueles em que os oitocentistas e os novecentistas concordam em considerar “crónica”.

E no caso de As Farpas?

No caso d’As Farpas, naturalmente, só estudei as queirosianas, não as de Ramalho Ortigão (que as acompanharam nos folhetos de 1971-72 e que continuaram após o fim da colaboração de Eça): por um lado, era Eça que me interessava, por outro e que mais modelarmente influiu na cronística oitocentista. Mais: optei por estudar lado a lado a versão em folheto e a d’Uma Campanha Alegre (reunindo e revendo 18 anos depois), citando a partir desta (citando a original em rodapé no caso de eventual variante) apenas pelo facto de os exemplos que eu seleccionei apresentarem alterações “cirúrgicas” que evidenciavam o aperfeiçoamento de pormenor nos processos retóricos. Não foi, pois, minha intenção confrontar a versão das farpas queirosianas de 1871-72 e as dos volumes de 1890-91 (nem o conjunto textual, pois algumas não integraram a edição em livro), mas observar a estratégia de elaboração retórica no discurso, estratégia que se mantém e que, nos exemplos que eu analiso, é ainda mais evidenciada pelas referidas alterações autorais cirúrgicas.

O mesmo se passa em relação à cronística oitocentista europeia. É um género maldito?

Não, não é maldito e até é sedutor… porém, algumas das suas características tendem a constituir desvantagem no confronto com obras da Literatura e de géneros mais consagrados.

Esperava encontrar esta ausência quando iniciou a sua investigação?

Não, foi uma completa surpresa. Digo isso mesmo na abertura do meu estudo: tirando a bibliografia que caracterizava a crónica jornalística e a que, às vezes, en passant, comentava alguma cronística da linhagem da short-story norte-americana, anglo-saxónica e brasileira, era o vazio. Na altura, não tínhamos acesso à net, apenas podíamos encomendar pesquisas por palavras-chave… as pesquisas, com as variantes de palavras e de instituições acedidas, mantiveram o cenário. Escrevi a quase todas as bibliotecas europeias de referência: os Directores, geralmente muito gentis, respondiam-me, desolados, por não poderem indicar nada para além desse âmbito. Em Paris, pessoalmente, também não avancei mais…

Define a situação nacional a nível investigatório como “desatenção” (p. 17), mas até que ponto não foi de propósito?

Creio que foi mesmo “desatenção”: a tendência dos estudiosos é procurarem um tema/obra/autor destacado, quer porque está mais sensibilizado por eles, quer por ver a sua presença nos programas académicos, quer pelo desejo de acolher lições anteriores que orientem a sua investigação. Até ao meu tempo de doutoramento, evidenciavam-se duas tendências, dentre outras: a de “revelar” um autor (em geral, um esquecido que tivesse sido famoso no seu tempo) ou a de “investir” num autor representativo (garantia de funcionalização da investigação no ensino). Qualquer delas tinha vantagens e desvantagens, como sempre… segui uma terceira via: um autor maior e um tema inexplorado, apesar do trabalho de confronto e/ou edição desse material (Machado da Rosa, Aníbal Pinto de Castro, Elza Miné) em publicações e versões (jornal, em revista, em livro…), trabalho sobre que falo no meu estudo e que nada tem a ver com a minha orientação de leitura. Sinal dessa “desatenção” involuntária é o facto de, após o meu doutoramento, eu ter interpelado Campos Matos, notável e apaixonado queirosiano que dirige o Dicionário de Eça de Queiroz, sobre o assunto (genuinamente surpreso com essa falta), e ter sido, de imediato, convidada a elaborar um verbete sobre o assunto, verbete que foi logo incluído na actualização seguinte.

O que lhe fez despertar o interesse neste ângulo?

Leitora de Barthes, creio que me senti seduzida por um óbvio que tende a não ser observado exactamente pela evidência… Enfim, para resolver dois enigmas no corpus queirosiano. O principal era a diferença abissal entre a “Chronica” de 1867 (d” O Distrito d”Évora) e a d”As Farpas (1871-72). De uma para a outra, em 4 anos, tudo muda: Eça define o seu modelo textual da crónica e, por repercussão, toda a cronística nacional. Porquê e como? O outro era: sendo o seu “laboratório” de escrita, como dizia, onde, como, de que modo e até que ponto experimentava, testava o que iria usar, desenvolver, elaborar no texto ficcional? E também queria reflectir sobre o que é que na crónica queirosiana foi tão bem conseguido que a tornou um best seller na sua época e marcou o ADN do género… a retórica do discurso, a comunicação. O seu discurso nunca tinha sido observado do ponto de vista da sua funcionalidade epistemológica: os processos que usou constituíam operadores de conhecimento e combinou-os formando uma rede de intelecção do real de uma certa maneira, como ele o via, desmi(s)tificatoriamente. Não se tratava de caracterizar estilisticamente, mas de analisar a sua dimensão epistemológica. Esta última reflexão teve uma outra consequência na minha perspectivação do Realismo e, mais rigorosamente, da literatura portuguesa (e, por extensão, da Arte, em geral) desde o Iluminismo: esclareceu certas linhas de continuidade entre o pensamento e a estratégia do Iluminismo, do Romantismo da 1ª geração e do Realismo, linhas de continuidade que não tinha visto assinaladas (muito menos, estudadas) e que me fizeram encarar de modo diferente a nossa modernidade literária, em particular, e estética, em geral. Foi, de facto, uma das boas surpresas e conquistas da investigação. Na verdade, quando tive de definir o meu tema de doutoramento, eu estava entre dois autores que adorava e adoro: Camilo e Eça. A visceralidade vigorosa de Camilo, a oscilação entre riso e lágrimas, a indecidibilidade entre real e ficcional, o modo como se dirigia e “agarrava” o leitor, manipulando-o, a ironia que ia da subtileza ao sarcasmo… tudo fazia dele, nas palavras de Ana Plácido, “(o velho) Leão”. Eça parecia-me contido, calculista como um jogador, dissimulado por trás do pano de palco ou… desafiava-me a descobri-lo. Segui o desafio e, graças a isso, hoje relaciono-me de modo diferente com a Literatura, em particular, e a Arte, em geral.

No Brasil, os académicos são obcecados com Pessoa, por exemplo. Eça não?

Eça, sim, sim. Leram, citam, estudam. Era, para eles, um cidadão da Europa… Camilo irritava-os com a sistemática caricatura do “brasileiro de torna-viagem” (Os Brilhantes do Brasileiro, Eusébio Macário e a Corja, O que fazem Mulheres…). Claro que a ficção queirosiana é muito mais cosmopolita e tendencialmente urbana (com cenário europeu e com o africano em referência), fascinante para o público brasileiro aspirando a atravessar o Atlântico em direcção ao grand tour europeu, enquanto Camilo está muitíssimo mais centrado na ruralidade do centro e norte nacionais, mesmo quando as cidades (Porto, em especial) se constituem com referência maior, espaço menos atraente para esse público ávido de “civilização”, das luzes de uma Europa marcada pelas insígnias das grandes Exposições Universais… Se formos ao site do Domínio Público, brasileiro, encontramos 39 itens de Eça e 9 de Camilo, enquanto no Real Gabinete de Leitura, de mais forte marca portuguesa, a situação é mais equilibrada (a nível do milhar de exemplares), com vantagem para Camilo. Na base de dados de teses da USP, Camilo regista 115 estudos e Eça 283. São apenas indicadores num barómetro incompleto…. Pessoa é obsessão recente. Entrou com força e impôs-se poderosamente: lêem-no, citam-no, sabem-no de cor (a poesia favorece muito mais a memorização do que a narrativa…). Acresce que a vaga que o envolve o dotou de um prestígio de modernidade que quase o constitui como autor obrigatório. No entanto, se formos ver o índice de número de teses na USP, está com 330… mais uma vez, é um mero indicador de validade muito relativa. Enfim, tudo o que se refira à recepção de autores está afectado por muitas variáveis sociológicas, culturais, editoriais, etc..

A crónica de Eça era apenas uma análise de costumes apresentada sob a forma da espetacularidade ou uma atitude pedagógica?

A habilidade de Eça na sua escrita cronística é conseguir cumprir ambas as funções (analisar e ensinar o que se esconde por trás das aparências, antecipando a moderna “era da suspeita” de que nos fala Lipovetsky) e usar, subliminarmente, modelos que a geometrizam e se insinuam como possível padrão de pensamento, de exercício analítico, como que um “molde”, mas flexível, adaptável. Acresce que revestiu de teatralidade operática e de divertimento essa dupla formação e informação e, mais ainda, o próprio texto, onde até a mancha gráfica é funcional. Demonstro no meu livro como realiza tudo isso e como o faz conjugando os mais simples, elementares, processos retóricos.

Eça foge à regra do cronista da imprensa naquela época ou só “evolui” posteriormente?

Todo o escritor oitocentista escrevia primeiro na imprensa periódica, criava jornais e revistas (que, muitas vezes, não passava de 2 ou três números), colaborava com textos breves e com textos parciais continuando de número para número (era o folhetim e a crónica da altura, que chegaram a confundir-se na secção “Crónica-folhetim”). Só mais tarde, se tinha sucesso, revia e compunha o texto numa versão definitiva publicando em livro. Camilo, o nosso primeiro profissional das letras, viveu desse procedimento e os seus livros são disso clara demonstração: Coração, Cabeça e Estômago, Vinte Horas de Liteira, etc. revelam o cerzimento das narrativas independentes num conjunto reunido pela linha da vida e da viagem, respectivamente. Eça, nesse aspecto, não foge à regra. Tornou-se conhecido na imprensa periódica e só depois começou a publicar em livro, embora continuasse em ambos os espaços. Devemos assinalar o mérito na sua acção no Distrito d”Évora (1867): durante meio ano, dirige e elabora sozinho o jornal, inventando colaboradores (casuais e periódicos) de modo a produzir o efeito de uma polifonia que valorizou o jornal, conquistando algum impacto. No entanto, a maturação da escrita queirosiana não tem a linearidade que a pergunta pode sugerir: há, de facto, uma longa dialética entre ambas as escritas (cronística e ficção), da mesma forma que também é visível uma amadurecimento em cada um dos espaços. Mesmo na imprensa periódica, note que Eça vai amadurecendo o seu sonho de uma revista, um modelo de revista para o país, ao longo de décadas, como se documenta desde 1867 até à 1897-98 (Revista Moderna), modelo descrito no programa da Revista de Portugal (1889-92): “Portugal é atualmente na Europa o único país que não possui uma REVISTA – uma publicação onde, além de se apresentarem criações da imaginação no Romance e na Poesia, resultados da investigação na Ciência e na História, trabalhos de Crítica Literária e de Crítica artística, se estudem, com desenvolvimento e adequada competência, os assuntos que genericamente se prendem com a Política, com a Economia, com as Instituições, com os Costumes, com todas as manifestações dum organismo social.”

Em As Farpas, aponta a caricatura como novidade. Era utilizada de forma consciente?

A caricatura não era uma novidade em si, até mesmo involuntária, e a prova disso é todo o enquadramento epocal que justifica autores como Rafael Bordalo Pinheiro e jornais e revistas iconograficamente dominados por ela. O Carnaval e a Comédia exploram-na desde que existem. O que é novidade é a conjugação do “traço grosso” da caricatura na representação do real, do leitor e da própria crónica. Explico-me. Eça assume para a sua escrita das farpas um modelo operático (a opereta bufa de Offenbach, de grande sucesso na época) onde o “traço grosso” está ao serviço de três objectivos: da desmontagem/desmistificação do “mundo oficial” (do status quo, da sociedade com as suas estruturas, tiques e protagonistas), denunciando os problemas sociais e culturais, apontando o dedo e fazendo rir com o cronista; de uma pedagogia da intelecção, pelo facto de ensinar a analisar o real pelo modo como explicita os processos usados (os tais “padrões de pensamento”); de um geometrismo da crónica que a sugere como palco de uma peça, lugar teatral.

O que leva Eça a ultrapassar o estágio de cronista para se tornar romancista?

O percurso, como disse atrás, não foi tão linear como parece sugerir na pergunta. De facto, há uma interdircursividade intensa entre a cronística e a ficção (particularmente, o romance) queirosianas, visível no trânsito de motivos, figuras, temas, esquemas accionais, imagens e processos, num deslizamento entre ambas as escritas. Por ex., a figura do político famoso e incompetente surge sistematicamente reconfigurada no Pacheco d” A Correspondência de Fradique Mendes, n”O Conde d”Abranhos (como protagonista e como um dos tipos da galeria social), etc.. Mas também podemos notar, além da evolução do seu sonho de uma revista que menciono atrás, o sinal de um ideário de escrita em série ou de continuidade, com retomadas, própria da imprensa periódica nos indicadores de género sob os títulos como “Cenas Portuguesas”, “Episódios da Vida Romântica”, “Cenas Políticas”, “Episódio Doméstico” e “Cenas da Vida Devota”, etc.. E teve, de facto um plano de “Cenas da Vida Portuguesa” anunciado na contracapa de folhetos d”As Farpas, plano incumprido apesar da ficcionalidade que assim o evoca. No entanto, esses mesmos indicadores de género insinuam, por sua vez, essas obras como expansões dos já referidos motivos, figuras, temas, esquemas accionais, imagens e processos… O olhar analítico e geometrizador de Eça informa, faz conviver e fraterniza ambas as produções, a cronística e a ficcional. O que é linear e brusco é a transformação, a maturação da crónica de secção indefinida para texto modelar. Outra ideia feita é a de que Eça é absolutamente realista, nada romântico, quando nele convivem diferentes programas estéticos oitocentistas (identificáveis, às vezes numa mesma passagem)… enfim, é um autor fascinante pela complexidade, além de que todo o grande autor tende a ser caleidoscópico…

A crónica serviu para ascensão na carreira literária?

Sim, por tudo isto que tenho vindo a observar. Foi o seu “laboratório” e é a produção sempre mais acessível ao grande público.

 

Entrevista de João Céu e Silva

Fonte: Diário de Notícias, 10 de Outubro de 2017