D. FRANCISCO DE PORTUGAL filho primogenito de D. Affonso de Portugal segundo Conde do Vimioso, Vedor da Fazenda delRey D. Joaõ o III. Conselheiro de Estado delRey D. Sebastiaõ, e de D. Luiza de Gusmaõ filha de Francisco de Gusmaõ Mordomo mòr da Serenissima Infanta D Maria, e de D. Joanna Blasfet Camareira mór da mesma Infanta, naceo em a Cidade de Evora onde recebeo as instruçoens dignas de seu alto nacimento as quaes comprehendeo com brevidade, practicou com excellencia, sendo igualmente destro no exercicio da Cavallaria, e no jogo da espada, como insigne na arte da Pintura. Naturalmente foy inclinado à Poesia servindo-lhe muitas vezes a sua cultura de lenitivo às molestias, que tolerou nas suas peregrinaçoens. Soube com perfeiçaõ a lingua Hebraica, e naõ só fallou, mas escreveo com elegancia a Grega, Latina, Franceza, Castelhana, Italiana, e Materna compondo de todas ellas hum Soneto, que na Portugueza traduzio Fernando Alvares do Oriente, e o imprimio na sua Lusitania Transformada . Como o seu heroico coraçaõ se animasse com os beliciosos espiritos de seus dous Augustos Avós D. Joaõ o I. e o Condestavel D. Nuno Alvres Pereira, que na Conquista de Ceuta fecharaõ as portas à nova irrupçaõ dos Mouros contra Espanha, querendo coroar-se nesta Regiaõ com as palmas de novos triunfos acompanhou a ElRey D. Sebastiaõ na infeliz jornada de Africa onde sacrificando as vidas em obsequio da fidelidade seu Pay, seu Irmaõ D. Manoel de Portugal, e seu Sobrinho D. Joaõ, se salvou daquelle fatal diluvio em que naufragou a Nobreza deste Reyno para se expor a novos infortunios. No tempo que esteve cativo mostrou, que a piedade do seu coraçaõ era igual à generosidade de seu animo concorrendo com devota profusaõ para todos os exercicios da Religiaõ Christãa, repartindo copiosas esmolas, dando meza publica a todos os Cativos dos quaes resgatou mais de cem à sua custa. Estas virtudes lhe conciliaraõ o respeito dos mesmos barbaros, e atè o amor menos sincero da Sobrinha do Emperador de Marrocos o qual offerecendo-lhe a liberdade em obsequio de Filippe II. a regeitou dizendo com animo resoluto, que sómente por intervençaõ delRey D. Henrique, que reynava em Portugal aceitaria aquella oferta, e nunca pela mediaçaõ de Castella pois antes queria passar toda a vida no infeliz estado de Cativo do que restituirse à Patria com condiçaõ taõ injuriosa. Satisfeito o barbaro com vinte mil cruzados, que lhe deo pela sua liberdade passou a Tetuaõ onde se obrigou ao resgate de muitas pessoas Nobres dispendendo em anno e meyo, que assistio em Africa mais de cem mil cruzados, naõ sendo ainda Senhor da Casa de que era herdeiro. Acompanhado das pessoas que libertara chegou a Ceuta donde entrando em S. Lucar o estava esperando o Duque de Medina, e Sidonia para lhe persuadir a justiça de Filippe Prudente a esta Coroa, sendo tantas as mercès que lhe prometia, como se na sua Pessoa quizesse conquistar todo o Reyno a quem respondeo com igual liberdade, que prudencia ser aquella proposta injuriosa ao seu nome naõ sómente porque em Portugal reynava hum Monarcha legitimo, mas porque o mesmo Filippe Prudente lhe havia de condenar a imprudencia de dar successor a hum Rey vivo, e como sempre atendera mais para a gloria da Patria, do que para o augmento da sua Casa cuidaria no modo com que se estabelecesse a paz publica do Reyno. Esta reposta naõ causou pequeno susto em o animo do Duque o qual uzando com o Conde D. Francisco da distinçaõ de o mandar acompanhar por duas Companhias da guarniçaõ da Cidade a meya legoa as despedio dando mil cruzados aos Capitaens, e semelhante quantia aos Soldados. Restituido a Portugal, e animado de novos espiritos que sempre dedicara em obsequio dos seus Principes naõ lhe fazendo a mais leve impressaõ no seu heroico peito a confiscaçaõ da sua Casa por Filippe II. nem a indecencia com que sua Mãy, e sete filhas foraõ levadas para a prizaõ do Castello de S. Torcas se declarou acerrimo parcial do Senhor D. Antonio filho do Serenissimo Infante D. Luiz quando se oppoz à successaõ desta Coroa sendo inseparavel companheiro dos tragicos successos deste Principe imitando neste fidelissimo afecto ainda que com desigual fortuna a constancia de seu preclarissimo Ascendente o Condestavel D. Nuno Alvres Pereira. Com elle se achou na batalha de Alcantara junto a Lisboa, que contra quatro mil homens de gente Colecticia se oppoz o Duque de Alva com vinte mil Soldados de Tropas Italianas, e Flandrinas onde por falta de disciplina, e naõ de valor, vencidos os Portuguezes sahio o Conde D. Francisco ferido na testa, e seguindo a D. Antonio atè a Cidade do Porto se apartou delle atè que passados seis mezes sabendo, que assistia em França o foy buscar disfarçado com o nome de Trivulcio vestido à Italiana. Acompanhado de seis criados entrou em Madrid onde vio ElRey Filippe, e passando a Catalunha o saudou hum Castelhano que querendo tirar-lhe a vida os criados do Conde para que o naõ manifestasse lho impedio com generosa clemencia. Entrando a Pariz vestio cem homens a Tudesca armados de alabardas em que mandou gravar as armas de Portugal, e com esta Comitiva chegou à prezença do Senhor D. Antonio a quem aclamou Rey de Portugal com geral admiraçaõ daquella taõ grande Corte. Com o Caracter de seu Embaxador pedio socorro à Rainha Regente Catherina de Medicis, que igualmente atendendo à reprezentaçaõ do Ministro, como à importancia do negocio mandou aprestar huma Armada composta de cincoenta Navios, e guarnecida de sete mil homens de que era General Filippe Strozzi onde se embarcou o Senhor D. Antonio com o Conde D. Francisco. Navegando para as Ilhas dos Assores, que seguiaõ a sua facçaõ se avistou com a Armada de Castella composta de cincoenta Galeoens, e doze Gales, que governava D. Alvaro de Bazan Marquez de Santa Cruz, e receando o Conde D. Francisco os animos venaes de alguns Capitaens advertio prudentemente ao Senhor D. Antonio, que se retirasse á Ilha Terceira para se naõ expor estando embarcado a algum perigo inevitavel. No horroroso combate naval, que durou pelo espaço de cinco horas obrou acçoens de immortal memoria o Conde D. Francisco atè que recebeo nas costas hum violento golpe, que o fez cahir no convez gravemente ferido. Destituido de forças, mas naõ de acordo ordenou a hum Criado, que promptamente avizasse ao Senhor D. Antonio que se refugiase a França por estarem desvanecidas as esperanças, que o podiaõ animar. O Marquez de Santa Cruz com afecto de parente, e providencia de General o mandou levar a bordo do seu Navio, e depois de lhe tentar inutilmente a constancia com generosas promessas receoso, que voltando a Hespanha satisfizesse Filippe II. com a Cabeça de taõ illustre Heroe a sua vingança lhe anticipou a morte com veneno disfarçado em hum remedio preciso, cuja violencia o privou da vida a 26. de Julho de 1582. Digno certamente de mais larga vida, e fim mais glorioso. Foy lançado ao mar o Cadaver em hum caxaõ sendo pequeno espaço todo o ambito das suas aguas para mausoleo de taõ insigne Varaõ. Naõ foy cazado deixando nas suas gloriosas acçoens a mais illustre descendencia como izenta da jurisdiçaõ do tempo. Foy Condestavel do Senhor D. Antonio sendo esta huma das menores semelhanças, que teve com o grande Nuno Alvres Pereira seu Progenitor. Dedicando muitos dos seus versos ás Damas de quem pela sua natural gentileza, e aguda discriçaõ era muito favorecido, nunca contaminou a pureza dos seus pensamentos com algum termo licencioso, que o arguisse de menos modesto. Foy taõ inimigo da vaõ-gloria que naõ consentio ser chamado Conde cujo Titulo tinha por mercè delRey D. Sebastiaõ, em quanto viveo seu Pay. Fallando da sua Pessoa Jeronymo de Mendoça Jornada de Africa cap. 16. lhe faz o seguinte Elogio. Os Fidalgos, que estavaõ no Derbe se agazalhavaõ em camaradas confórme ao parentesco, ou amizade que entre elles havia, alguns se acomodaraõ em caza de D. Francisco de Portugal filho do Conde de Vimioso forçados da sua afabilidade, e cortesia, onde havia Missa todos os dias, e pregaçoens a seu tempo, que era esta a primeira cousa em que punha o cuidado, alem de ser amparo, e refugio a todo o homem nobre em Berberia; mas que podia faltar a quem das melhores partes tinha tudo. Luiz de Torres Lima Avis. do Ceo. Tom. 1. cap. 35. lhe chama monstro de esforço, e de Cavallaria. Conestagio Histor.del union. del Regn. diPortug. liv. 9. Era Giovane dotato di buone parti del corpo, e de ll’ animo, sentirono la morte sua coloro che lo conoscevano perche naturalmente era amabile . Le Clede Hist. Gen. di Portug. Tom. 2. pag. mihi 140. col. 1. Jeune brave. Fonsec. Evor. Glorios. pag. 412. Cordeiro Hist. Insul. liv. 6. cap. 26. Das muitas Poesias, que compoz, merecem distinta memoria, e grande estimaçaõ as Trovas com que judiciosamente increpava a ElRey D. Sebastiaõ do intento de passar a Africa distribuidas em tres Poesias, que intitulou Avizo primeiro de Franco, a Sebasto. Consta de trinta ramos de que o primeiro he o seguinte.

Pide a tu juizio cuenta

Zagal de ti descuidado

Que se te pierde el ganado

Y piensas, que se acrecienta:

Trahes cercados de engaños

La vida, lo seso, y años

De suenos y de locuras;

Perderás, si nò locuras

Tu poder y tus rebaños.

Segundo avizo de Franco a Sebasto, que se deu a ElRey D. Sebastiaõ em Evora a 24. de Dezembro de 1572. Começa, e consta de 14. ramos da fórma seguinte.

Dizen que piensas bolver

Al mal que se recelava

Para que se algo quedava

Se acabasse de perder;

Mas yó como verdadero

Amigo y nò lizongero

Otra vez te he de avizar;

Puedes lo tan mal tomar

Como tomaste el primero.

Terceiro avizo dado a ElRey D. Sebastiaõ em Evora na Quaresma do anno de 1573. Consta de trinta ramos de que o primeiro he o seguinte.

Haò Pastor tu porventura

Duermes di? ò estás despierto!

Si duermes es desconcierto;

Si nò duermes es locura.

Muda muda yá el pelejo,

Nò desprecies el consejo

De tu buen amigo Franco,

Que de verte errar el blanco,

Si le haze el rostro bermejo.

Dezaseis Outavas a hum Amigo. Começaõ

Si mover yá la pluma nò dá pena.

Acabaõ

Dò se recibe el ultimo sociego.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]