Três décadas depois, eis uma nova edição de Herberto Helder. Um silêncio de bronze, de Manuel Frias Martins, uma edição da Nova Vega, título de referência nos estudos sobre a obra do poeta. Nos textos nele reunidos, o ensaísta, professor aposentado da Faculdade de Letras de Lisboa, chama a atenção para a importância fulcral do livro Cobra, retirado das edições da poesia completa, aquele que, em seu entender, “melhor contribui para a identificação do perfil literário português que a pouco e pouco se foi tornando dominante a partir dos anos sessenta do século XX” e que, com Photomaton & Vox, é revelador, como diz ao JL, da “poética herbertiana mais em profundidade” .

 

Jornal de Letras: O que o moveu a fazer esta nova edição do seu livro sobre Helberto Helder?

Manuel Frias Martins: Cumprindo com alguma ventura o desejo de ítalo Calvino de que deveria haver uma época na vida adulta destinada a revistar as leituras mais  importantes da juventude, os novos ensaios aqui incluídos, escritos 30 anos depois da primeira publicação do meu livro, retomam a memória da obra herbertiana com um distanciamento muito especial, tão especial que não estarei também aqui, e mais uma vez, isento de polémica.

 

Porquê?

Defendo que os livros Cobra (1977) e Photomaton & Vox (1979) são, de entre toda a produção herbertiana, os que registam mais distintamente os dados da cultura crítica e teórica da segunda metade do século
XX. Mas se Herberto Helder manteve o segundo na sua formatação genérica, o primeiro foi literalmente obliterado da sua obra final. Cobra desapareceu do volume Ofício Cantante (2009), dito de poesia completa e, é claro, do volume dito de Poemas Completos publicado em 2014.

 

Que significado atribui a essa obliteração?

Se todo o texto literário luta teimosamente contra o tempo, fazê-lo desaparecer é, em certa medida, não só um ato óbvio de destruição e morte, mas também pode ser uma forma de estigmatizar a época que o produziu e as respetivas circunstâncias. E é isso que, em última instância, decorre do apagamento que Herberto Helder fez de Cobra e, através dele, a tentativa de contrariar (embora sem sucesso) o que se poderia chamar de Princípio da Máxima Concordância com muitas das disposições teóricas e críticas do seu tempo. Cobra continua, no entanto, a aparecer na segunda edição de Um silêncio de bronze. Quer como peça fundamental da poética herbertiana quer como expressão e/ou validação de um tempo cultural muito próprio. Cobra é o livro que melhor contribui para a identificação do perfil literário português que
a pouco e pouco se foi tornando dominante a partir dos anos 60 do século XX e, juntamente com Photomaton & Vox, o(s) que revela(m) a poética herbertiana mais em profundidade. Ambos são textos de  convergência de poemas passados e, ao mesmo tempo, testemunhos antecipadores de poemas futuros.

 

Que essencialmente sublinha nessa poética?

Se a história da literatura nos traz ensinamentos úteis, a obra de Herberto Helder coloca-se perante dois horizontes possíveis. Por um lado, ela dialoga tão bem com o seu tempo, está tão consciente do presente que a sua época reconhece essa obra como expressão privilegiada de si mesma, elogiando-a pela confirmação da sua doxa e dos limites do inconsciente comum em que se encerrou e naturalizou. Contudo, e por outro lado, é também por aqui que se revela a diferença de autores como Herberto Helder.

 

Em que sentido?

É que a qualidade e a originalidade dessa obra é de uma tal grandeza que, mergulhando fundo no seu tempo e conhecendo a sua época até ao limite, consegue simultaneamente sugerir, numa espécie de vertigem criadora, a ultrapassagem desse limite através de uma série de novos possíveis literários ou, através de uma abertura ao diferente, de uma porta para o futuro. Nesse sentido, Herberto Helder, como acontece com os melhores entre os melhores, pode ser visto sem dificuldade como uma espécie de profeta da futuridade. Esta visão otimista sofre, no entanto, de um mal que nos apoquenta quando pressentimos situações de desgaste dos nossos próprios valores. Não queremos que o futuro nos abandone. Aquilo a que chamo de Princípio da Máxima Concordância poderá fazer com que o interesse da obra
herbertiana decorra menos de um diálogo com as interrogações e perplexidades dos futuros leitores e mais das trincheiras pedagógicas em que se processa a ilustração de uma época.

 

Isso pode ensombrar a sua leitura no futuro?

O importante efeito da sua representatividade elucidará as fundações de uma mentalidade, que é a da segunda metade do século XX e dos seus fulgores libertários (sexuais, morais, filosóficos, etc), ajudando também a esclarecer os fundamentos da ideologia literária de uma modernidade aberta à experimentação e às respetivas violações dos códigos normativos da escrita artística e da tipologia estabelecida dos géneros (poesia, romance, ensaio, etc.) . Ao mesmo tempo, essa representatividade ajudará a fazer luz acerca dos termos mais gerais de um modo de conhecimento assente sobretudo nas prerrogativas  intelectuais do absoluto literário de matriz romântica que trouxe à cultura ocidental muitos dos seus mais portentosos fulgores artísticos, bem como os respetivos acolhimentos teóricos e críticos.

 

Fonte: entrevista publicada no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 30 de Janeiro de 2019, p. 20