FRANCISCO LEITAM FERREIRA naceo em a Cidade de Lisboa a 16. De Mayo de 1667. sendo seus progenitores Manoel Leitaõ Ferreira descendente da Familia dos Leitoens da Villa da Certãa de quem escreve Miguel Leitaõ de Andrade na sua Miscellanea Dialog. 20. e Mariana da Fonseca. Sahio à luz do mundo com tal debilidade que foy preciso que se lhe conferisse o Bautismo em caza a 19. De Mayo dia consagrado à Ascençaõ de Christo, e no Domingo da Paschoa do Espirito Santo 29. do dito mez recebeo solemnemente na Parochia de S. Paulo os Santos Oleos, e depois o Sacramento da Confirmaçaõ do Arcebispo de Lisboa D. Luiz de Souza. Chegado à idade capaz de se instruir com as letras humanas, e sagradas aprendeo os rudimentos da latinidade, em que sahio insigne com o P. Domingos Ribeiro Presbytero de inculpavel vida, e conhecida sciecia, e ouvio explicadas as subtilezas da Filosofia Peripatetica por Fr. Simaõ da Assumpçaõ em o Convento do Carmo em que fez taes progressos a sua viva penetraçaõ, que defendeo Conclusoens publicas de Physica a 21. de Janeiro de 1691. Continuou a carreira dos seus estudos escholasticos em o mesmo Convento aprendendo Theologia pelo espaço de dous annos com os Mestres Fr. Manoel de Santa Catherina, que depois foy Bispo de Angola, e Fr. Manoel Caldeira, o primeiro Lente de Prima, e o segundo de Vespera. Resoluto a seguir a vida Ecclesiastica se ordenou de Presbytero celebrando a primeira Missa no sumptuoso Templo de N. Senhora do Loureto sendo seu Padrinho o Illustrissimo D. Jorge Cornaro Arcebispo de Rhodes Nuncio Apostolico nestes Reynos donde foy assumpto à Purpura Romana. Este Prelado atendendo à integridade dos seus costumes o admitio ao numero dos seus familiares o que jà tinha feito seu antecessor em a Nunciatura Apostolica Marcello Durazzo, e de ambos recebeo taõ distintas honras, que parecia ser chamado aos seus Palacios mais para venerar a sua virtude, do que servirse da sua capacidade. Esta o fez digno de possuir os Beneficios das Parochiaes Igrejas de S. Tiago na Cidade de Tavira, e de Santa Maria da Villa de Porto de Moz, e de exercitar por espaço de trinta annos o ministerio de Parocho da Igreja de N. Senhora do Loureto da Naçaõ Italiana com summa vigilancia, e naõ menor charidade. Teve tanta inclinaçaõ para a Poesia assim vulgar, como Latina, Espanhola, e Italiana, que parecia a sua metricaçaõ mais filha da natureza que da arte, e o que he mais digno de admiraçaõ, que conservando por toda a vida familiar cõmercio com as Musas nunca se contaminaraõ as suas composiçoens com algum termo licencioso. Arrebatado deste divino furor naõ houve assumpto Genethliaco, Epithalamico, ou Funeral, em que naõ discorresse o seu fecundo talento alcançando pela sonora afluencia das vozes, e profunda delicadeza dos conceitos o primeiro premio em muitos Certames Academicos bastando sómente o eco do seu nome para lhe cederem a palma os contendores. Igualmente foy versado na intelligencia das linguas Latina, e Italiana, que escreveo com pureza, fallou com facilidade naõ sendo hospede nos dialectos da Grega, e Franceza. Possuio com incansavel disvelo o conhecimento da Mythologia, Iconologia, Epigrafia, Historia Ecclesiastica, e Secular conservando na memoria os successos mais memoraveis assim prosperos, como infaustos de que foy theatro o mundo pela larga diuturnidade de muitos seculos. Ornado o seu espirito com todo o genero de noticias Filologicas o procuraraõ as mais celebres Academias com judiciosa competencia para seu alumno sendo a primeira a dos Arcades, que tem por Corte a cabeça do mundo, que o admitio com o nome de Tagideo em memoria do precioso Tejo, que lhe deu o berço. Em a Portuguesa instituida no Palacio do Excellentissimo Conde da Ericeira D. Franciscco Xavier de Menezes foy Mestre dos Symbolos, em a dos Anonymos explicou a Arte dos conceitos, e ultimamete em a Real da Historia Portuguesa sendo hum dos primeiros cincoenta Academicos de que se formou este litterario corpo lhe foy distribuida a laboriosa incumbencia das Memorias Ecclesiasticas do Bispado de Coimbra sendo os seus hombros capazes de sustentar taõ sublime machina escrevendo o Cathalogo Critico, e Chronologico dos Prelados daquella antigua Diocese, e as Memorias Chronologicas da Universidade, que tanto illustra aquella Cidade, em cujas composiçoens para emendar anacronismos, computar tempos, fixar Epocas foy glorioso instrumento a sua penna dissipando como luz as sombras, que occultavaõ as noticias, refutando opinioens fabulosas, que manchavaõ a pureza da verdade, e observando exactamente huma critica severa com a qual naõ permitio, que preoccupado o juizo do amor da Patria lhe arrogasse alguma gloria que se naõ estabelecesse sobre solidos fundamentos. Todo o tempo da sua vida occupou em exercicios litterarios, e devotos, receando que de qualquer instante inutilmente passado havia de ser reo em o Tribunal Divino. Juntou com igual eleiçaõ, que dispendio huma selecta livraria, onde retirado do cõmercio dos vivos se deleitava da conversaçaõ dos mortos, da qual os melhores M. S. deixou por legado a sumptuosa Livraria de S. Domingos desta Corte onde se conservaõ. A continua applicaçaõ ao estudo lhe attenuou de tal sorte as forças, que se renderaõ à violencia de muitos achaques, que contra elle se conspiraraõ. No espaço de tres mezes, que precederaõ à sua morte, sustentou a vida entre acerbas dores, e multiplicadas recahidas, que tolerou com animo taõ imperturbavel, que parecia jà se habilitava para o estado de impassivel. Recebidos os Sacramentos com suma piedade espirou placidamente a 12. de Março de 1735. às 8. horas da manhãa querido contava 67. annos, onze mezes, e vinte e outo dias de idade. Por ordem da Academia Real de que foy celebrado Collega, fuy eleito para Panegyrista das suas acçoens, e como por informaçoens menos certas escrevi que nacera a 8. de Mayo, e que estudara as letras humanas no Collegio de Santo Antaõ, agora se emendaõ havendo recebido as noticias, que neste Elogio se relataõ, escritas pela propria maõ do mesmo Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira, que lemos com saudosa memoria, cujo nome exaltaõ o P. D. Manoel Caetano de Sousa Cathal. Histor. dos Pontif. Card. e Bisp. Portug. p. 14. Pessoa bem conhecida pelos eruditos livros, e elegantes obras, que tem impresso, e na Exped. Hisp. D. Jacob. Maioris. Tom. 1. pag. 234. §. 520. eruditissimus, & pag. 598. §. 1368. á scrip tis voluminibus orbi litterario notissimus, & pag. 660. §. 1510. Vir acerrimi judicij. Fr. Man. de Sà Mem. Hist. dos Escrit. Da Prov. do Carm. de Portug. pag. 290. cuja erudiçaõ he muy notoria. Marangoni Thezaur. Paroch. Tom. 2. pag. 238. col. 2. Academicus Regis, ipsique comissum est comentarios consignare pro texenda Historia ad perantiquam Conimbricensem Diaecesm attinentem. Barbosa Mem. do Colleg. Real de S. Paulo. p. 160. Academico Generoso, Anonymo, Portuguez, e Real versadissimo em todo o genero de erudiçaõ especialmente na Poetica, e Critica Ecclesiastica. Compoz

Affectos Lusitanos, que na intempestiva morte da Serenissima Senhora D. Isabel Luiza Jozefa Infanta de Portugal o mesmo Reyno offerece á immortal fama, perene duraçaõ, e perpetua memoria de seu soberano, real, e augusto nome. Lisboa por Domingos Carneiro Impressor das Tres Ordens Militares 1690. 4. He Glosa ao Soneto de Camoens Alma minha gentil, que te partiste. No fim Elogium sepulchrale.

Auspicios Encomiasticos em a felicissima promoçaõ ao Cardinalato do Eminentissimo Senhor D. Jorge Cornaro Gram Commendador de Chypre, e Nuncio Apostolico com poderes de Legado á Latere nestes Reynos de Portugal, e Algarves, e seus dominios, emanada em 22. de Julho de 1697. pelo Oraculo Santissimo de Innocencio XII. Pontifice Optimo Maximo. Lisboa por Manoel Lopes Ferreira. 1697. fol.

Memoria Sepulchral, Epitafio saudoso esculpido pelo sentimento sobre a sepultura dar sempre Augusta, e Serenissima Senhora D. Maria Sofia Isabel de Neuburg Rainha de Portugal. Glosa ao 86. Soneto do grande Luiz de Camoens, que anda na segunda Centuria das suas Rimas cõmentadas por seu Illustrador Manoel de Faria, e Souza. Lisboa pelos herdeiros de Domingos Carneiro. 1699. 4. O Soneto começa. Os olhos onde o casto amor vivia.

Canção Panegyrica em applauso de D. Manoel Pereira Coutinho, e seus filhos D. Francisco Jozè Coutinho, e D. Pedro da Sylva Coutinho com tres Sonetos a este assumpto, e outro jocoserio. Londini por Leach. 1704. 4.

Musa Typographica: seu argumento he que sendo servido ElRey Nosso Senhor D. Joaõ V. de ver o uso de huma imprensa se lhe estampou este Soneto extemporaneo, o qual glosou. Lisboa por Valentim da Costa Deslandes Impressor de Sua Magestade 1707. 4. O Soneto foy composto pelo Conde de Tarouca Joaõ Gomes da Sylva Embaxador à Paz de Utrech.

Idea Poetica Epithalamica Panegyrica que servio no Arco Triumphal, que a Naçaõ Italiana mandou levantar na occasiaõ, que as Magestades dos Serenissimos Reys de Portugal D. Joaõ o V. e D. Mariana de Austria foraõ á Cathedral de Lisboa no dia de Sabbado 22. de Dezembro de 1708. Lisboa por Valentim da Costa Deslandes 1709. 4.

Nova Arte de Conceitos, que com o titulo de Liçoens Academicas na publica Academia dos Anonymos de Lisboa dictava, e explicava. Primeira parte. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ 1718. 8.

Arte de Conceitos segunda Parte. Lisboa pelo dito Impressor. 1721. 8.

Dissertaçaõ Apologetica em que se defende a verdade do primeiro Concilio Bracharense descuberto, e dado á luz por Fr. Bernardo de Brito Monge da Ordem de S. Bernardo, e Chronista Geral. Lisboa por Pascoal da Sylva Impressor de Sua Magestade 1723. fol. No 3. Tomo da Colleçaõ dos Docum. da Acad. real.

Cathalogo Chronologico-Critico dos Bispos de Coimbra. Lisboa por Pascoal da Sylva Impressor delRey. 1724. fol. Sahio no Tom. 4. da Collec. dos Docum. da Acad. Real.

Elogio Funebre do Reverendissimo P. Fr. Miguel de Santa Maria Academico da Academia Real da Historia Portugueza em 13. de Mayo de 1728. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva Impressor da Academia Real. No Tom. 8. da Collec. dos Docum. da Acad. Real.

Noticias Chronologicas da Universdade de Coimbra. Primeira parte, que comprehende os annos, que discorrem desde o de 1288. atè principios de 1537. fol.

Lisboa por Jozè Antonio da Sylva Impressor da Acad. Real. 1729. fol. No Tomo 9. da Collec. dos Document. da Acad. Real.

Conta dos seus estudos Academicos no Paço a 7. de Setembro de 1725. No Tom. 5. da Collec. dos Docum. da Acad. Real. Lisboa por Pascoal da Sylva. 1725. fol.

Conta dos seus estudos em 5. de Julho de 1727. No Tom. 7. da Collec. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva 1727. fol.

Conta dos seus estudos no Paço a 7. de Setembro de 1727. No Tom. 7. Da Collec.

Conta dos seus estudos em 20. de Novembro de 1727. No Tom. 7. da Collec.

Conta dos seus estudos no Paço a 7. de Setembro de 1728. No Tom. 8. Da Collec. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva 1728. fol.

Conta dos seus estudos em 22. de Outubro de 1729. no Paço. No Tom. 9. Da Collec. Lisboa pelo dito Impressor 1729. fol.

Conta dos seus estudos Academicos em 13. de Março 1732. No Tom. 11. Da Collec. Lisboa pelo dito Impressor.

Conta dos seus estudos no Paço a 7. de Setembro de 1732. No Tom. 11. Da Collec. Lisboa pelo dito Impressor 1732. fol.

No Certame Poetico celebrado em applauzo da Canonizaçaõ de S. Joaõ de Deos impresso em Madrid 1692. está huma sua Glosa ao Assumpto 8. pag. 217.

Ao insigne triumpho com que o Real Convento de N. Senhora do Carmo de Lisboa celebrou a Canonizaçaõ do Sagrado Heroe S. Joaõ da Cruz Epinicio Sacro. He huma larga Cançaõ. Lisboa por Miguel Rodrigues 1728. 4. Sahio nas Memor. Hist. Paneg. e Metricas do sagrado culto com que o Convento do Carmo celebrou a Canonizaçaõ do mesmo Santo desde pag. 380. Atè 396. Mais tres Sonetos parafrasticos, hum a hum Epigramma Latino do Marquez de Alegrete Manoel Telles da Sylva, e dous a dous Epigrammas do P. Antonio dos Reys da Congregaçaõ do Oratorio a pag. 134.

Elogio Portuguez em estilo lapidario com hum Soneto á Memoria do Doutor Antonio de Souza de Macedo. Sahio na Eva, e Ave deste Author. Lisboa na Officina Deslandesiana 1711. fol.

Com o nome de Floriano Freyre Cita Cezar anagrama puro do seu nome publicou.

Berço Natalicio dedicado ao felice Nacimento do Augusto Primogenito das Magestades Lusitanas D. Pedro II. e D. Maria Sofia Izabel de Neuburg Reys, e Senhores Nossos. Lisboa por Domingos Carneiro Impressor das Tres Ordens Militares. He huma Sylva muito larga.

Romance em occasiaõ de boas Festas a hum Compadre Mercador de livros, e Thesoureiro da Bulla. Sahio no Tom. 5. da Feniz renacida. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ 1728. 8. a pag. 363.

Ephemeride Historial, Chronologica Lusitana na qual por dias, e annos se referem varios successos historicos, e memoraveis acontecidos em Portugal, e nas suas Conquistas com outras memorias notaveis a este glorioso dominio pertencentes. 1. e 2. Tom. 4. M. S. Cujo original vimos, e delle extrahimos as noticias da sua vida.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]