D. IZABEL Infanta de Portugal filha de D. Jayme unico do nome IV. Duque de Bragança, e de sua primeira consorte D. Leonor de Mendoça foy ornada de todos aquelles excellentes dotes, que sem o coroado esplendor da origem se constituem Heroinas no Templo da immortalidade. A fermosura do corpo correspondeo à Santidade do espirito sendo compassiva para os pobres, religiosa para Deos, nas açoens prudente, no juizo discreta, e na conversaçaõ afavel. Foy despozada com o Infante D. Duarte filho dos Serenissimos Monarchas D. Manoel, e D. Maria cujo augusto consorcio se celebrou em Villaviçosa a 23 de Abril de 1537. de que foraõ gloriosos frutos a Senhora D. Maria nacida a 8 de Dezembro de 1538. que cazando em o anno de 1565. com o famoso Alexandre Farnesi terceiro Duque de Parma, e Placencia, Governador de Flandes, e Cavalleiro do Tuzaõ de quem teve larga descendencia passou piamente a coroarse no Impirio a 8 de Julho de 1577. A Senhora D. Catherina que nacendo a 18 de Janeiro de 1540. cazou com seu Primo com irmaõ D. Joaõ I. do nome, e VI. Duque de Bragança a qual foy Opositora à Coroa desta Monarchia contra a ambiçaõ de Filipe Prudente. O Senhor D. Duarte Duque de Guimaraens, e Condestavel de Portugal, que morreo em Evora a 28 de Novembro de 1576. Cumulada de virtuosas obras falleceo a Infanta D. Izabel em Villaviçosa a I6 de Setembro de I576. Jaz sepultada no Serafico Convento das Chagas desta Villa com o seguinte epitafio gravado na sepultura.

Aqui jáz a Senhora Infanta D. Izabel mulher do Infante D. Duarte filha do Duque D. Jayme, que pela muita devoçaõ que teve a esta Caza se mandou aqui lançar Anno M.D. LXXVI. Foy muito aplicada à liçaõ dos livros principalmente Asceticos, e Escriturarios de cuja aplicaçaõ se seguio escrever com madura reflexaõ.

Nottas aos Evangelhos que se lem nas Domingas Festas, e outros dias do Anno. fol. 2. Tom Esta obra escrita da propria maõ da Infanta se conserva na Bibliotheca real em cujo fin està o seguinte testemunho que canoniza a sua legalidade. Certifico eu o Doutor Manoel do Valle de Moura Deputado do Santo Officio que entre os livros escritos de maõ, e papeis que S. A a Senhora D. Catherina que Santa gloria haja dos seus escritorios me entregou para rever por comissaõ do Senhor Alexandre seu filho, sendo Inquisidor mór destes Reynos, e eu seu Mestre, e Criado, me entregou este livro,outro da mesma letra, e me disse que ambos foraõ da Senhora Infanta D. Izabel sua Mãy, e eraõ de sua letra, e maõ propria. Os quais livros eu revi entaõ, e agora, e naõ acho nelles couza que ofenda a fé, ou bons custumes, antes os tenho por dignos de naõ ficarem sepultados no esquecimento, e sahirem ao publico por qualquer meyo, que julgar, quem milhor voto tiver, porque no meu resulta delles prova clara de erudiçaõ, espirito, e grande Santidade desta Senhora, e hum exemplo heroico da sua piedade para das outras Senhoras da sua eminencia, e inferiores humas o imitarem, outras o admirarem, e todos darem por elle gloria a Deos que he Pater luminum de quem decem estes dons perfeitos. Evora 24 de Agosto de 1633. Manoel de Valle de Moura

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]