D. FILIPA DE LENCASTRE, cujo nome lhe foy imposto no bautismo em obsequio de sua Avò paterna a Rainha D. Filipa, mulher do Serenissimo Rey D. Joaõ o I. Naceo na Cidade de Coimbra no anno de 1435. sendo a sexta produçaõ do augusto thalamo do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, Governador do Reyno na menoridade d’ElRey D. Affonso V. e de D. Izabel de Aragaõ filha de D. Jayme, segundo Conde de Urgel, e de D. Izabel, filha de D. Pedro IV. Rey de Aragaõ. O penetrante engenho, de que liberal a ornou a natureza, lhe facilitou brevemente a intelligencia das linguas mais polidas, com as quaes adquirio a noticia das mayores sciencias, sendo a sua continua liçaõ a Sagrada Escritura, e as obras dos Santos Padres. Illustrada com as luzes de taõ altos documentos desprezando a gloria caduca do mundo, buscou para domicilio o Religioso Convento de Odivellas da Ordem Cisterciense, onde sem professar taõ sagrado Instituto, se constituio perfeito exemplar da observancia mais austera, bastando para immortal brazaõ do seu magisterio espiritual a Princeza D. Joanna sua sobrinha, a quem instruio com aquellas virtudes, que lhe mereceraõ o culto de Beata, com que he venerada nos Altares. Animada de fervoroso espirito, sem lhe causar impedimento a soberania da pessoa, e menos a delicadeza do sexo, emprendeo a peregrinaçaõ ao Sepulchro de S. Tiago, para lucrar as indulgencias do anno Santo, cuja jornada executou a pè, dispendendo pela sua maõ copiosas esmolas para remedio da pobreza. Com heroico animo tolerou os fataes golpes das infaustas mortes de seu valeroso Pay em a batalha da Alfarrobeira, e do Princepe D. Affonso seu sobrinho, fazendo do horror destas fatalidades agradavel sacrificio aos decretos da Divina Providencia. Cumulada de obras meritorias, quando contava 56. annos de idade, espirou placidamente no Convento de Odivellas a 25. de Julho de 1497. como escrevem Fr. Chrysostomo Henriques Menolog. Cisterc. pag. 240. e o Padre Sousa. Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 2. liv. 3. pag. 82. e naõ a 11. de Fevereiro de 1493. como diz o Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 1. pag. 404. no Comment. de 2. de Fevereiro. letr. A. Jaz sepultada na Sancristia do Convento de Odivellas com este epitafio.

Aqui jaz a Serenissima Senhora D. Filipa, filha do Infante D. Pedro, e de sua mulher Dona Isabel, neta d’ElRey D. Joaõ o I. Viveo, e morreo recolhida neste Convento.

Louvaõ a sua memoria com varios elogios os Authores seguintes Carol. Visch. Bib. Cisterc. In lingua Latina apprime versata fuit. Henriques Menol. Cisterc. pag. 240. multiplici scientia, & admiranda Sanctitate, e na Coron. Sacr. Cisterc. pag. 286. Tenia un genio agudissimo, y ansi se diò al estudio de las letras. Joan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Litter. lit. P. n. 53. non minùs virtutibus, quàm eruditione praedita. Bucelin. Menol. Benedict. ad 25 . Julii. Quin & raro exemplo multiplici scientia effulgens ut Litterarum studiis addictissima fuit, & in latina lingua non vulgariter edocta varia opera edidit, iisque praeclaris ingenii Regii monumentis aeternam posteris memoriam, suique nominis admirationem reliquit. Fr. Franc. da Nat. Lenit. da Dor. pag. 309. foy versada em diferentes linguas. Sousa. Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 2. liv. 3. pag. 80. Princeza, em quem a natureza ajudada da Divina graça encheo de perfeiçoens, de sciencia, e virtude, porque em huma, e outra exercitou a sua vida. Damiaõ de Froes Theatr. Her. Tom. 1. pag. 361. Na liçaõ da Escritura, e Santos Padres se divertia com gostosa, e continua applicaçaõ, e espirituaes documentos , de que se achavaõ enriquecidas algumas obras, que se acharaõ por sua morte de grande piedade, e sagrada erudiçaõ. Cardoso Agiolog. Lusit. Tom. 1. pag. 404. Senhora de altos merecimentos por suas raras perfeiçoens, e singulares virtudes. Maris Dialog. De var. Hist. Dialog. 4. cap. 23. Nun. de Leaõ. Elog. dos Reys de Portug. fol. 43. Franc. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Secul. liv. 2. cap. 19. Foy senhora de esclarecidas virtudes, muy versada em differentes linguas.

Compoz

Nove Estaçoens, ou Meditaçoens da Paixaõ, muy devotas para os que vizitaõ as Igrejas Quinta feira de Endoenças. Sahiraõ impressas no Reynado da Rainha D. Catharina, mulher d’ElRey D. Joaõ o III.

Concelho, e voto da Senhora Dona Filippa, filha do Infante D. Pedro sobre as Terçarias, e guerras de Castella. Lisboa por Lourenço de Anvers. 1643. 4.

Practica feita ao Senado de Lisboa em tempo que receava algum tumulto. M. S.

Traduzio da lingua Latina em a Portugueza.

Tratado da vida solitaria, composto por S. Lourenço Justiniano.

Traduzio da lingua Franceza em a materna.

Evangelhos, e Homilias de todo o anno. Este livro escrito pela propria maõ da Infanta com Varias imagens, e figuras debuxadas, em cuja arte era insigne, deixou como ultimo penhor do seu affecto ao Convento de Odivellas, onde se conserva com grande veneraçaõ. No fim estaõ escritos estes versos da Authora, que testemunhaõ os seus ardentes affectos para com Deos.

Non vos sirvo, non vos amo,

Mas desejovos amar

De sempre vossa me chamo

Sem quem non há repouzar.

Ó vida, Iume, e Luz

Infinito Bem, e inteiro

Meu JESU Deos verdadeiro

Por mim morto em a Cruz.

Se mim mesma naõ desamo,

Non vos posso bem amar

A me ajudar vos chamo

Para saber repousar.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]