D. FERNANDO CORREA DE LACERDA natural do Tojal, lugar situado em o Bispado de Viseu, na Provincia da Beira, foy filho de Fernando Correa de Lacerda, de quem se fez a precedente memoria, e de D. Maria de Sottomayor, Irmãa de D. Francisco de Sottomayor Bispo de Targa, Capellaõ mór DelRey D. Affonso VI. e nomeado Arcebispo de Braga. Educouse na Universidade de Coimbra, onde applicado aos Sagrados Canones se graduou nesta Faculdade, com applauso dos Mestres, e enveja dos condiscipulos. Depois de obter os Beneficios das Igrejas da Arruda, Arrayolos, Torres Vedras, e huma Conezia na Collegiada de Ourem, exercitou os lugares de Inquisidor nas Inquisiçoens de Evora, e Lisboa, onde foy promo vido em 17. de Agosto de 1671. e Deputado do Conselho Geral, e Commissario da Bulla da Cruzada. Atendendo a Magestade de D. Pedro o II. de quem tinha sido Mestre, aos seus merecimentos o nomeou Bispo do Porto a 26. de Abril de 1673. em cuja dignidade encheo as obrigaçoens do Officio Pastoral. Despendeo doze mil cruzados no edificio da Parochia de S. Nicolao, que seu antecessor D. Nicolao Monteiro tinha principiado, e a sagrou solemnemente no anno de 1676. Reformou o Palacio Episcopal, e ornou a Cathedral com preciosos donativos, onde em todas as Festas solemnes revestido dos paramentos Pontificios subia ao Pulpito para alimentar com o pasto da Divina palavra as suas ovelhas. A todas as Religioens de hum, e outro sexo se extendeo a benificencia do seu generoso coraçaõ. Com a continua corrente de esmolas, libertava os prezos das cadeyas; os cativos das masmorras, e as donzellas, e viuvas das miserias. Por ordem de ElRey D. Pedro o II. assistio em o anno de 1677. em Coimbra a Tresladaçaõ do Corpo da Rainha Santa Izabel, em cuja religiosa funçaõ recitou hum elegante Panegyrico na prezença de toda a Universidade, que o aclamou por Principe da Oratoria Ecclesiastica. Naõ menor aplauzo conseguio o seu nome quando no anno de 1670. foy jurada em Lisboa por sucessora desta Coroa a Infanta D. Izabel, orando com discreta elegancia em taõ solemne alto. Voltando para o seu Bispado, levou por companheiros os exemplarissimos Padres da Congregaçaõ do Oratorio para que fundassem Caza no Porto, e em quanto se naõ determinou o sitio, os hospedou pelo espaço de hum anno em o seu Palacio. Molestado de graves achaques supplicou à Santidade de Innocencio XI. que o absolvesse da obrigaçaõ pastoral querendo aproveitar os ultimos annos da vida na preparaçaõ de huma feliz morte. Difirio benevolamente o Pontifice a taõ justificada suplica de que se seguio largar logo a dignidade em o anno de 1683. e partindo para Lisboa, sendo mais fortemente combatido da violencia dos achaques, a que naõ pode resistir a natureza, recebidos com summa piedade os Sacramentos, espirou em o 1. de Setembro de 1685. quando contava 57. annos de idade. Foy sepultado no Convento de Santo Antonio dos Capuchos desta Corte, e sobre a campa tem por epitafio estas breves palavras.

Aqui jaz D. Fernando Correa de Lacerda, Bispo que foy do Porto, do Conselho de Sua Magestade. Faleceo ao 1. de Setembro de 1685.

Foy profundamente versado nas letras Sagradas, e profanas, naturalmente discreto, e elegante; insigne cultor da pureza da lingua materna, e taõ perito nos preceitos da Oratoria, como da Poetica, em cuja arte podia disputar com seu Pay, e levarlhe a primazia. Compoz

Cançaõ á morte de André de Albuquerque. Sahio na Colleçaõ de versos, que a este Heròe fez Joaõ Medeiros Correa. Lisboa por Domingos Carneiro. 1661. 4.

Panegyrico ao Excellentissimo Senhor D. Antonio Luiz de Menezes Marquez de Marialva. Lisboa por Joaõ da Costa. 1674. 4. Esta obra aplaude Gerardo Ernesto de Franckenau Bib. Hisp. Hist. Geneal. pag. 112.

Virtuosa Vida, e Santa Morte da Princeza D. Joanna, reflexoens moraes, e politicas sobre sua vida, e morte. Lisboa por Antonio Craesb. de Mello. 1674. 4.

Historia da vida do Bemaventurado Padre S. Joaõ da Cruz primeiro Carmelita Descalço, reflexões sobre algumas acções da sua vida. Lisboa por Miguel Manescal. 1680. 4.

Historia da Vida, Morte, Milagres, Canonizaçaõ, e Trasladaçaõ de Santa Isabel VI. Rainha de Portugal. Lisboa por Joaõ Galraõ. 1680. 4.

Carta Pastoral aos do seu Bispado. Lisboa por Joaõ da Costa. 1673. 8.

Carta Pastoral sobre a Fabrica, Dedicaçaõ, e Consagraçaõ do Templo aos Fieis do Bispado do Porto. Lisboa pelo dito Impressor. 1676. 8.

Oraçaõ Panegyrica nos applauzos da sempre memoravel victoria do Canal. Amsterdaõ por Jacobo Vanvelsen. 1673. 4. grande. Quando recitou esta Oraçaõ era Academico da Academia dos Generosos instituida em Lisboa com o nome affectado de Leandro Doria Caceres e Faria.

Catastrophe de Portugal na Deposiçaõ d’ ElRey D. Afonso VI. e subrogaçaõ do Princepe D. Pedro o unico justificada nas calamidades publicas, escrita para Justificaçaõ dos Portuguezes. Lisboa por Miguel Manescal. 1679. 4. Esta obra traduzio em Castelhano D. Juan Yañes como afirma no Prologo das Memor. para la Histor. de D. Filipie III. Rey de Espan. pag. 28. da qual faz erradamente Author ao grande Padre Antonio Vieira da Companhia de JESUS.

Diario da Embaxada do Conde de Villar-mayor Embaixador Extraordinario à Corte de Hidelberga por ElRey Dom Pedro II. Nosso Senhor. M. S. fol. cujo original se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]