O MAPA DOS NOSSOS AFETOS E DESAFETOS

Conhecer, sinalizar e compreender os discursos dos outros sobre nós, e de nós sobre os outros, pode oferecer um interessante mapa de afetos e desafetos, uma espécie de GPS cultural dos estereótipos que nos ajuda a situar e orientar melhor no tempo e na história, particularmente nas “negociações frequentes” que temos de encetar para estabelecermos relações de pareceria ou de antipatia.

As representações de um país, de uma instituição, de um indivíduo são parte constituinte da sua história, da sua herança cultural. As representações mais ou menos estereotipadas que construímos sobre os outros, e que os outros elaboram sobre nós, funcionam como um jogo de espelhos, geradores de imagens deformadas. Mas essas visões desfiguradas são os olhos com que vemos e interpretamos a realidade.

Ora, o exercício de fazer o mapa dos nossos afetos e desafetos, em que se funda muitas vezes a nossa visão do outro, é fundamental para a compreensão das articulações históricas e para lançar luz sobre as relações do presente e os desafios do futuro.

Assim, esta coleção que agora se inaugura nasceu de um projeto ambicioso, mas feito realisticamente em trabalho progressivo, para atender ao desafio de pensar Portugal e de contribuir para a reflexão crítica sobre a identidade deste país, construída, em boa parte, na sua relação com os outros povos, estabelecida durante o seu quase um milénio de história. Trata-se, efetivamente, de proporcionar um verdadeiro jogo de espelhos, aceitando observar Portugal a partir do olhar inscrito nos discursos culturais de outros países e, dentro do nosso país, das diferentes regiões.

 

MEMÓRIA CULTURAL

Partindo da questão basilar “como me vê o Outro?” – ou, por outras palavras, “como é Portugal visto pelo Outro?” –, a coleção procura respostas para uma outra questão fulcral – “em que se baseia o Outro para me ver assim?”

Desde Maurice Halbwachs que temos consciência da forma como funciona a memória coletiva. Sabemos que ela é, antes de mais, uma construção social, que é o resultado de diferentes versões do passado, que decorre da interação e comunicação entre os indivíduos, dependendo, em grande parte, dos lugares de memória, como lhes viria a chamar Pierre Nora, esses fenómenos culturais, materiais sociais ou mentais que as sociedades associam ao passado e à identidade nacional, e que cumprem uma função mnemónica. Sabemos, em segundo lugar, que ela é relacional e social, que todas as nossas memórias se inscrevem em contextos socioculturais, e que por isso se encontra inquinada, desde o início, pelos grupos sociais a que pertencemos e que continuamente processam, selecionam e hierarquizam acontecimentos, evidenciando processos de similaridade ou de rutura. Sabemos, por fim, que a memória cultural é uma construção discursiva, que é sempre feita em função de um presente cuja legitimidade os grupos sociais pretendem confirmar ou questionar, e que os momentos de silêncio – as brechas no discurso que correspondem ao esquecimento – merecem atenção redobrada.

A presente coleção explora, de forma sistemática, representações de Portugal – discursos sobre Portugal – num exercício de reflexão sobre o que, do nosso passado, é recordado pelas outras nações ou pelas diferentes regiões portuguesas, e como é que é recordado. Informada pela consciência de que os lugares de memória são entidades dinâmicas, capazes de serem continuamente atualizadas no seu investimento simbólico em função dos interesses do presente, a coleção investe numa análise crítica dos discursos sobre Portugal que, ao longo dos tempos, se foram justapondo e sobrepondo, ditando as relações de afetos e desafetos que se propõe cartografar.

 

METODOLOGIA

Por trás de Portugal em jogo de espelhos está uma equipa multidisciplinar – da área das ciências sociais e humanas – e internacional – com a participação de académicos de renome de um vasto conjunto de países –  a quem foi pedido um esforço de síntese no sentido da produção de um texto sobre o que se disse e se pensou sobre Portugal, no seu país ou região, de maneira representativa e ilustrativa, nos vários séculos da sua existência. O trabalho solicitado implicou levantamento, seleção, caracterização e interpretação das representações expressas nos diferentes discursos culturais que têm como pano de fundo o modo como esses povos se relacionaram historicamente com Portugal, desde o plano político, passando pelo económico, literário, cultural e até religioso, Exigiu também particular atenção à função mnemónica dos lugares de memória em que se alicerçam essas representações, e que provaram ser numerosos e variados (particularmente no que respeita ao património construído e às representações literárias de Portugal); requereu, por fim, um trabalho de investigação num conjunto variado de fontes, desde tratados historiográficos, textos poéticos, ficcionais e de viagens, representativos das diferentes épocas históricas, até discursos políticos e escritos jornalísticos, sem descurar fontes iconográficas e cinematográficas.

O trabalho de sistematização dos dados já conhecidos e de revelação e estudo dos novos dados que informam a maneira como Portugal tem vindo a ser visto por outras nações e por diferentes regiões do nosso país justificaria, por si só, o lançamento desta coleção. De facto, realiza-se com este projeto o esforço quase dicionarístico, sem precedentes, de fixar dados e conhecimento sobre as representações de Portugal na longa duração. Mas Portugal em Jogo de Espelhos faz mais do que isso: ao propor-se fazer uma cobertura exaustiva da imagem do nosso país em todos os países do mundo, vai para além do mero estudo bilateral, fornecendo dados que permitem um estudo comparatista multinacional e proporcionam a compreensão da forma dinâmica como as ideias circulam e são apropriadas por diferentes culturas, servindo interesses nacionais, regionais ou de grupos sociais, num interessante jogo especular. As imagens devolvidas pelo espelho poderão nem sempre agradar à nação lusa, contrastando com a ideia que ela construiu de si mesmo para consumo interno. Mas essas imagens que consideramos deformadas existem; tomarmos consciência da sua existência habilita-nos para uma participação mais informada em debates sobre o presente – mas também sobre o futuro – do nosso país.

 

José Eduardo  Franco e Fátima Vieira

Diretores do Projeto