A Europa é hoje um tema omnipresente na cultura portuguesa. A Europa chega a ser mesmo a grande obsessão de Portugal.

Perdido o império, virámos os olhos para a Europa como uma espécie de ponto de fuga, uma tábua de salvação para o nosso secular atraso e subdesenvolvimento. A Europa tornou-se, com a democracia, uma espécie de utopia possível.

Mas o tema da Europa impôs-se pelo menos desde o tempo do Marquês de Pombal, na medida em que a propaganda pombalina tornou a Europa das Luzes, mitificada, uma meta a atingir e a superar, e, ao mesmo tempo, uma bitola pela qual passámos a medir os níveis de atraso e progresso do país. Ficámos desde então obcecados por uma Europa idealizada que queríamos igualar e da qual sempre nos sentimos tão distantes. Foi então que ganhámos o terrível e crónico complexo de «país-cauda da Europa». Hoje, o mito da Europa do progresso permanece intocável, apesar de todas as desilusões da integração europeia.

Nem sempre nos sentimos cauda da Europa. Antes pelo contrário: A Europa segundo Portugal atesta-o.

Esta obra oferece pela primeira vez uma visão de longa duração sobre a percepção da Europa na cultura portuguesa desde as origens de Portugal.

É um livro essencial para conhecermos, século a século, a evolução da nossa relação, o nosso modo de entender e de nos situarmos na Europa ao longo de quase um milénio de História.

 


 

O Presente da Europa é feito, continua a sê-lo, de dúvidas, de interrogações, de certezas, mas também de incertezas. Apesar das reticências, apesar das incertezas, a convergência moral da tradição cristã e da tradição humanista explicam o fundamento ético comum da «cultura europeia».

A busca de compreensão do Presente conduz-nos a caminhos diversos, a questionar o Passado numa tentativa de prefiguração do Futuro. Não admira, pois, que a determinação do objecto e do campo da entidade Europa continue a ser, ontem como hoje, uma questão complexa.

A Europa, ou melhor, o termo «Europa» constitui um «objecto de estudo» no âmbito das ciências sociais e humanas. Assim se entende que nos últimos anos muitos estudos tenham sido dados a público. Releve-se a multiplicidade de concepções e de referências várias e díspares sobre a Europa, sobre Ideias de Europa.

Na verdade, as diversas análises, as abundantes e enriquecedoras controvérsias demonstram sobejamente essa complexidade. Este é um dado consensual entre os múltiplos autores de formação diversificada: historiadores, filósofos, sociólogos, politólogos, juristas, economistas, geógrafos, entre outros, que têm pensado sobre as ideias, a consciência, as identidades da Europa e sobre a conceptualização da sua realidade pluridimensional.

Foi longo o caminho da génese da ideia de Europa. A herança e o legado da história no domínio da história das ideias, da cultura, das instituições, da política são bem marcantes na continuidade do processo de Modernidade através de várias e diferentes correntes de pensamento, de opinião, e de acção tendentes a dar forma a um velho sonho, a uma perene utopia.

A reflexão sobre a evolução histórica das Ideias de Europa é o objecto central desta obra, A Europa Segundo Portugal. Ideias de Europa na Cultura Portuguesa, Século a Século, coordenada por José Eduardo Franco e Pedro Calafate. Os autores, reputados especialistas, percorrem vários períodos — de tempos medievos aos nossos dias — interpretando momentos da memória da Europa numa perspectiva histórica, filosófica, política, literária. Assim, propõem-nos uma leitura retrospectiva, problematizadora e questionante, qual observatório particular de temas de inegável actualidade. Ao discernir perspectivas, ao interpretar correntes de opinião, movimentos políticos, discursos, teorias e doutrinas, os estudos compulsados neste volume propiciam recomposições da paisagem e da carta europeias no quadro da Cultura Portuguesa. Transcorre-se, desta forma, todo um percurso histórico que permitirá ao leitor abrir, traçar e aprofundar temas com vista a uma melhor inteligibilidade das ideias, das teorias, das representações de intelectuais, de políticos, enfim, de pensadores, agentes que foram, que são, da dinâmica do processo de evolução das Ideias de Europa em Portugal.

 

MARIA MANUELA TAVARES RIBEIRO

Universidade de Coimbra

 


 

A Europa é uma ideia, mais do que um continente.

GUILHERME D’OLIVEIRA MARTINS[1]

 

Transcorrido mais de meio século sobre os primeiros passos dados para a realização do projecto político de uma Europa unida — primeiro materializado na criação da Comunidade do Carvão e do Aço (CECA) em 1951 (Tratado de Paris), depois, de forma alargada, no plano fundamentalmente económico sob o nome que vigorou durante anos de Comunidade Económica Europeia, evoluindo mais recentemente para o campo político com a designação hoje oficializada de União Europeia —, fala-se cada vez mais da importância de afirmar a chamada Europa Cultural tendo em vista uma integração política mais sólida e mais duradoura.

A Europa terá melhores condições para consolidar o seu projecto de unidade política se souber criar aquilo que alguns autores denominam de um «sentimento europeu» que, sem anular a Europa das pátrias, saiba realizar um equilíbrio criativo e dinâmico, que permita a elaboração de uma consciência de raízes e destino comuns. Para se atingir este novo patamar de unidade europeia importará levar a cabo o que Edgar Morin definiu como o programa necessário para a criação de um «mercado comum cultural» na Europa que confira substância espiritual ao projecto de mercado económico comum e ao ideário de união política[2]. Seria esta a condição-base, como, recentemente, tem reflectido Maria Manuela Tavares Ribeiro, em Portugal, para criar uma «comunidade de destinos» que dê sentido, de horizonte teleológico, a um projecto de vida comum aos europeus[3].

Com efeito, o drama da Europa tem sido, por um lado, a dificuldade em definir-se como conceito e como destino, e, por outro, a sua diversidade de olhares e de identidades que fazem a riqueza e a cruz deste continente[4], ou quase-continente, que moldou a nova universalidade, enquanto continente-pátria de impérios globais e que procurou acrescentar grandeza à sua real pequenez geográfica. Nas palavras ponderosas do europeísta Francisco Lucas Pires, que vale a pena serem aqui recordadas: «[…] a Europa é o menos real e o mais ideal de todos os continentes. Aliás, a sua fronteira escapa-nos um pouco por todos os lados. […] E com uma enorme variedade de paisagens, tão naturalmente conjugadas, a servir de suporte subtil a um outro mosaico feliz e variegado de línguas e nações, a Europa só pode ser considerada a mais una das diversidades ou a mais pluralista das unidades»[5].

Se, como defendem alguns autores, a Europa se definiu e, sem dúvida, se afirmou no xadrez dos continentes, mais pela descentração do que pelo processo de expansão moderna, então Portugal e com ele a Espanha terão sido os primeiros «mais europeus» dos países da Europa. Pelo menos, justo é conferir ao nosso país o protagonismo moderno no movimento europeu de abertura da Europa ao mundo, pelas viagens marítimas, que foram criadoras da era da proto-globalização. Este  movimento de descentração de si foi assumido em termos de pioneirismo pelos Portugueses, seguidos depois pelas já grandes potências europeias, ou que o viriam a ser, pela sua aposta feita neste movimento de abertura.

O papel de Portugal na construção da ideia de Europa moderna não é de somenos importância. Poderíamos mesmo perspectivá-lo numa posição de vanguarda e dianteira, conquistadas na liderança da empresa das viagens marítimas de expansão planetária, pois o saber e reflexão acumulados, em virtude deste movimento de saída de si, permitiu que a Europa pudesse ver-se também a partir de fora e em contacto e contraste com outros povos, culturas e civilizações, possibilitando novos horizontes à visão moderna da Europa como conceito com densidade capaz de ultrapassar a mera noção geográfica, sedimentada nos tratados medievais. É então, como escreve ainda Lucas Pires, que «[…] a partir do seu pequeno território, a Europa se expandiu em todas as direcções e sem limites, sobretudo por via marítima, num movimento em que, aliás, os Portugueses seriam os primeiros e os mais europeus de todos. Neste sentido, a Europa define-se mais pela sua irradiação do que por si mesma. […] A Europa, ao transformar o mais pequeno dos continentes no mais universal de todos eles, evidenciou, de modo mais nítido, como é, sobretudo, uma obra humana, e até uma obra do espírito»[6].

A construção da Europa cultural, que consideramos decisiva no actual quadro da chamada «construção europeia», passa pelo conhecimento da história das ideias de Europa e a sua evolução no seio dos diferentes povos e suas culturas.

Precisamente, para que se possa pensar, idealizar e promover a chamada Europa cultural pela afirmação, promoção e reforço dos traços comuns da herança cultural europeia, importa antes que cada país conheça, de forma crítica, e compreenda, de forma consciente, qual a ideia que transporta na sua memória cultural do continente onde está integrado e para o qual contribui com o seu património de cultura material e imaterial.

A obra que agora se publica pretende ser um contributo para este processo, permitindo, hoje, uma melhor compreensão da nossa relação com a Europa em que nos integramos.

Optámos por organizá-la de uma forma diferente do que tem sido prática comum nos estudos mais recentes. Em vez de se propor a pesquisa da ideia de Europa numa perspectiva sincrónica, escolhendo-se uma determinada época ou período histórico, um momento culturalmente circunscrito, uma corrente literária ou política, o pensamento de certos autores ou das suas escolas, quisemos antes propor, numa perspectiva diacrónica, uma visão global da génese, evolução e metamorfoses de entendimento da Europa na nossa milenar Cultura Portuguesa. Para melhor distinguirmos as fases, os andamentos, as incidências da percepção da Europa ao longo da História das Ideias e do Imaginário em Portugal e ensaiarmos o estabelecimento de taxinomias e caracterizações diferenciadas nos diferentes contextos, tomámos a opção de organizar a sua análise século a século, com excepção da Idade Média que forma uma espécie de bloco-século em sentido lato, devido à falta de matéria documental suficiente que merecesse uma subdivisão por séculos dentro desta época.

 

JOSÉ EDUARDO FRANCO

 

[1] Guilherme d’Oliveira Martins, Identidade Europeia: Identidades na Europa, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2009, p. 157.

[2] Cf. Edgar Morin, Pensar a Europa. La metamorfosis de un continente, Barcelona, Erdisa, 2003, passim.

[3] Cf. Maria Manuela Tavares Ribeiro (coord.), Identidade Europeia e Multiculturalismo, Coimbra, Quarteto, 2002, pp. 9 e ss.; e ver Anthony Giddens, A Europa na Era Global, Lisboa, Presença, 2007.

[4] Cf. Lucien Febvre, A Europa: Génese de uma Civilização, Lisboa, Ed. Teorema, 2001.

[5] Francisco Lucas Pires, A Revolução Europeia. Antologia de Textos, 3.a ed., Lisboa, Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu, 2008, pp. 42 e 43.

[6] Ibidem, pp. 44 e 45.